quinta-feira, 29 de março de 2018

Museu Salvatore Ferragamo anuncia nova exposição: 'Itália em Hollywood'





A mostra ‘Itália em Hollywood’ tem como inspiração os anos em que o fundador da marca viveu na Califórnia e aborda a influência italiana no cenário cinematográfico e artístico da época

Os anos que Salvatore Ferragamo viveu nos Estados Unidos, e especificamente em Santa Bárbara, na Califórnia, de 1915 a 1927, são a fonte de inspiração da próxima exposição do Museu Salvatore Ferragamo: de seu trabalho com os diretores de cinema mais famosos da época, como D. W. Griffith e Cecil B. DeMille, à inauguração da Hollywood Boot Shop, a boutique de Ferragamo localizada na Hollywood Boulevard, onde estrelas do calibre de Mary Pickford, Pola Negri, Charlie Chaplin, Joan Crawford, Lilian Gish e Rudolph Valentino eram clientes frequentes. "Eu pareço ver um paralelo entre a indústria do cinema e a minha. Bem como a indústria cinematográfica cresceu e se desenvolveu a partir da estaca zero, assim espero, que a minha tenha feito o mesmo".

Baseada na autobiografia de Salvatore Ferragamo, a exposição explora a migração italiana para a Califórnia e a influência que os mitos e a cultura da população tiveram no estado americano. Uma extensa seção será dedicada às produções cinematográficas californianas, nas quais esta influência italiana é evidente. A exposição é centrada nos universos da arte, artesanato e entretenimento – os campos em que Ferragamo focou sua criatividade – e os apresenta como se fossem o enredo de um filme. Maurizio Balo inspirou-se nos estúdios cinematográficos americanos dos anos 20 para conceber uma exposição que fará os visitantes sentirem-se como se estivessem em um set de filmagem. Durante essa década, os filmes mudos italianos deram à Hollywood divas potenciais como Lido Manetti, Tina Modotti, Frank Puglia e Lina Cavalieri, que participa da exposição com 40 dos 300 famosos retratos que Pietro Fornasetti fez dela em placas de cerâmica. Outros jovens italianos, como Rudolph Valentino, usaram seu carisma para impulsioná-las à fama, criando a diva moderna. A exposição destaca os nomes e personalidades de figuras ilustres e menos conhecidas, sem esquecer a contribuição dos italianos à música. A mostra também procura abordar a opinião contraditória da cultura WASP (White Anglo-Saxon Protestant) sobre os Ítalo americanos, pois alguns californianos se viam divididos entre suas considerações positivas sobre a história e tradição italianas, e sua visão negativa de certos estereótipos italianos, como sua tendência a serem excessivamente instintivos, apaixonados e sentimentais. Alguns artistas conseguiram equilibrar perfeitamente essa dicotomia entre natureza e cultura, como Enrico Caruso, que aproveitou ao máximo os talentos naturais de sua voz e corpo, refinando-os no estúdio, através de desenvolvimento de técnica e arte.

Com fotografias, clipes de filmes, objetos, roupas e representações artísticas, a exposição ilustrará o relacionamento e o papel desempenhado pelos italianos e a arte italiana no nascimento do cinema mudo, enquanto também explorará esse tema através de um olhar contemporâneo. O projeto Dois Jovens Italianos em Hollywood, organizado pelo Festival de Cinema Lo Scherma dell'Arte, é parte fundamental da exposição, na qual dois jovens artistas italianos baseados em Los Angeles, Manfredi Gioacchini e Yuri Ancarani, foram convidados a contribuir com um projeto original – uma série de fotografias e uma instalação de vídeo – que explora o tema da Itália em Hollywood. Cem anos se passaram e quem são os italianos que trabalham hoje em Hollywood? O que é sobre a Califórnia que atinge artistas que chegam da Itália?

Esta exposição não seria possível sem as preciosas obras de arte emprestadas de museus e coleções públicas e privadas da Itália e Estados Unidos, ou sem a inestimável assessoria e expertise dos renomados institutos de história e cinema que tão generosamente contribuíram para este projeto. O espaço também é dado às produções americanas filmadas na Itália na época, como Ben Hur e Romo/a, estrelando Lillian Gish e filmadas em Florença nos estúdios de cinema de Rifredi.

A exposição termina com uma sala dedicada a Salvatore Ferragamo, na qual o museu recria fielmente a boutique Hollywood Boot Shop que o grande artesão italiano abriu em 1923. Uma videoinstalação mostrará clipes da vida real em Hollywood nos anos vinte.

Hollywood era uma cidade relativamente pequena na época. Havia apenas alguns estúdios de cinema e eles eram também pequenos, com orçamentos ainda menores. Mas, quando Ferragamo deixou os Estados Unidos em 1927, tudo havia mudado.



Itália em Hollywood

Museu Salvatore Ferragamo, Palazzo Spini Feroni, Florença

24 de maio 2018 – 10 de março 2019

Com curadoria de: Giuliana Muscio e Stefania Ricci



Fonte:  Suporte Comunicação, Alice Valdetaro



(JA, Mar18)

terça-feira, 20 de março de 2018

A revista alemã que exaltou as vanguardas do século 20

A revista alemã que exaltou as vanguardas do século 20


Edições da 'Jugend', publicação que destacou o movimento art nouveau, estão disponíveis online

Revista tinha textos curtos e foco na parte visual
 
‘Jugend’, que significa ‘juventude’ em alemão, foi o nome de uma revista que circulou entre 1896 e 1940. Conhecida durante a maior parte de sua existência pela postura libertária e esteticamente ousada, a Jugend é admirada hoje por estudantes de design gráfico, arte e colecionadores em geral. O site da Universidade de Heidelberg disponibilizou recentemente todos os números da revista em PDFs, para consulta on-line gratuita, além das capas em uma página no Flickr.


Segundo um crítico literário inglês, a revista era a mais ‘cerebral’ de seu tempo. ‘A plataforma política e social da Jugend é uma de oposição - oposição a tudo’, escreveu. Essa postura caía bem nos primeiros anos do século 20, repletos de movimentos artísticos que propunham ruptura com as tradições estéticas consagradas como cubismo, dadaísmo e futurismo.

Edição da revista Jugend, que durou até 1940


O principal movimento coberto pela revista, entretanto, foi o art nouveau. O termo significa ‘arte nova’, em francês, e se aplica a uma estética nas artes e na arquitetura que acolheu avanços científicos e tecnológicos em seus materiais e técnicas. Ilustrações e pinturas da art nouveau valorizam curvas e detalhes elaborados. As linhas e os contornos são bem destacados e definidos. A estética foi predominante entre o fim do século 19 e a década de 20.

A ligação da Jugend com o estilo era tão forte que este passou a ser conhecido na Alemanha como ‘jugendstil’ (estilo da Jugend, ou estilo da juventude, em tradução livre). De acordo com um livro da universidade de Oxford sobre revistas modernistas, ‘entre as qualidades mais importantes da Jugend - na verdade, um aspecto essencial da art nouveau e da jugenstil - era seu escapismo brilhante’.

Publicação foi fundada por jornalista alemão em 1896


Criada pelo jornalista George Hirth, a orientação editorial da Jugend para os colaboradores de textos era de que fossem ‘curtos e agradáveis’. O visual era o foco maior. Nos primeiros anos do século 20, a revista chegaria a vender 70 mil cópias por semana. ‘Era um respiro em tempos confusos, uma expressão da alegria de viver da juventude’, escreveram os autores.
O modo como a Jugend usava a tipografia, com fontes desenhadas à mão e fusões de letras e imagens, teve grande influência nas artes gráficas e na publicidade posteriores.

A chegada dos nazistas

Quando os nazistas ascenderam ao poder na Alemanha, em 1933, uma das políticas que colocaram em prática foi a ‘Gleichschaltung’. Em tradução livre, significa ‘forçar a entrar na mesma linha’. Descrevia uma conformidade em relação à ideologia oficial à qual deveriam se pautar instituições políticas, econômicas e sociais. Por meio desta política, associações da sociedade civil, sindicatos e veículos de imprensa deveriam estar alinhados com o discurso do governo de Adolf Hitler.

A revista se tornou um exemplo emblemático dessa situação. Durante décadas, a revista ficou conhecida por seu design ousado e pautas que celebravam vanguardas artísticas, inovação estética e um espírito livre e inquieto. Quando o partido de Hitler chegou ao poder, a revista foi enquadrada e adotou uma linha editorial de propaganda governamental.

Edição da revista no período nazista



Texto:  Camilo Rocha   |   =Nexo


(JA, Mar18)

Artista expõe seres imaginários em madeira


Cícero Alves dos Santos, o Véio, 70, mostra parte da sua coleção de objetos do sertão que caíram em desuso   

Véio é o apelido de Cícero Alves dos Santos, 70, artista tema de exposição no Itaú Cultural, em São Paulo. Nascido na cidade sergipana de Nossa Senhora da Glória, o artista quando criança gostava de ouvir as histórias dos idosos, e daí foi que surgiu seu apelido.  
Obra do artista plástico Cícero Alves dos Santos; parte de seu acervo está no Itaú Cultural


‘Gostava de ouvir as histórias deles sobre lobisomem e coisas deste tipo’, relembra. Ainda na infância, surgiu o interesse que permeia a carreira do artista: esculpir.

Ele costumava fazer o trabalho em cera de abelha, mas naquela época o material era associado a mulheres. Véio fazia tudo escondido e desfazia quando alguém chegava perto.

Para driblar esse obstáculo de gênero passou a usar  madeira para esculpir personagens místicos. Parte delas está entre as 270 esculturas expostas em três andares.

Em entrevista, o artista conta que seu trabalho é mal compreendido na sua cidade natal e que é rotulado de ‘louco’ porque suas obras remetem a seres imaginários. ‘Não faço meu trabalho para agradar ninguém, faço para mim, e, se eu gostar, já fico satisfeito’.

Imaginário

As obras expostas no Itaú Cultural demonstram seres com cabeças muito maiores que o corpo ou outros com formas alongadas. Isso surgiu de uma vontade de Véio de instigar os espectadores.

‘Não me interessa esculpir um cachorro ou um cavalo. Eu passei a fazer coisas da minha inspiração para despertar a curiosidade dos outros, para que eles tentem entender o que é aquilo que eu estou fazendo’, diz o artista.

Carlos Augusto Calil, curador da exposição, define Véio como um artista moralista. ‘Ele tem princípios bastante definidos com que julga as pessoas e a sociedade, como o materialismo e a perda de valores espirituais’, explica.

As críticas direcionadas ao sergipano também inspiram seus trabalhos, como uma escultura de um homem com a cabeça desproporcionalmente maior ao corpo e sem olhos.

Segundo o artista, essa obra mostra como uma pessoa pode ter inteligência e ‘ser formada em tudo’, mas ao mesmo tempo, ‘não enxergar nada’.

O artista conta que prefere as obras não pintadas, pois mostram a cor natural da madeira. Mas, para agradar e chamar atenção das pessoas, costuma pintar a maioria delas.

Até as que causam impactos pelo tamanho, cor e forma, como na seção ‘O Cão Meu Inferno’, em que mostra os demônios, que segundo Véio, são as figuras que aparecem nos seus pesadelos.

Museu do Sertão  

O artista apresenta ainda parte do acervo de objetos reunidos ao longa da vida e que contam a história do sertão.

Entre elas estão peças que remetem ao trabalho, lazer e vida em sociedade que caíram em desuso, a exemplo o carro de boi e a moenda. Alguns desses objetos estão expostos no terceiro andar, chamado de ‘Museu do Sertão’.

O acervo inteiro de Véio, com quase 17 mil esculturas, está localizado no sítio Soarte, entre a cidade que ele nasceu, Nossa Senhora da Glória, com 36.613 habitantes, e Feira Nova, com 5.616 pessoas. 

Exposição: 'Véio – A Imaginação da Madeira' 
Onde: Itaú Cultural-  Av. Paulista, 149 - Bela Vista - Tel.: (11) 2168-1777
Quando: Até 13/05; ter. a sex., das 9h às 20h
Quanto: Grátis





Texto: Isabella Menon    |   FSP



(JA, Mar18)

domingo, 18 de março de 2018

Mercado de obras de arte se recupera e vai a R$ 208 bilhões


 Relatório aponta que colecionadores voltaram às compras
‘Salvador Mundi’, de Leonardo da Vinci


O mercado de arte movimentou US$ 63,7 bilhões, cerca de R$ 208,3 bilhões, no mundo todo no ano passado, registrando um primeiro aumento depois de dois anos seguidos de queda nas vendas.

Relatório recém-publicado pela Art Basel, o maior grupo de feiras de arte do mundo com eventos em Basileia, na Suíça, em Miami e em Hong Kong, compilou os números de leilões e vendas de 6.500 galerias de todo o planeta para constatar o que o alvoroço em torno das feiras deste mês em Nova York já deixava claro - a arte voltou a bombar.

Desde o colapso financeiro de 2008, esse mercado vem se esforçando para sair de uma recessão prolongada, com bilionários fugindo de leilões e galerias em tempos de incerteza na economia.
Mas, no ano passado, recordes seguidos em vendas públicas, entre eles a de uma pintura de Da Vinci por R$ 1,5 bilhão na Christie's, em Nova York, a obra mais cara em toda a história, já davam sinais dessa mudança de atitude dos colecionadores (veja os maiores negócios ao lado).

Essa transação específica, aliás, está por trás do aumento de 64% das vendas de obras de mestres antigos, um segmento do mercado que faturou US$ 977 milhões no ano passado, batendo um recorde anterior de 11 anos atrás.
Sem o Da Vinci, as vendas teriam, na verdade, encolhido no mercado de obras históricas, mas o interesse por trabalhos mais caros também está em alta, o que mostra que os colecionadores estão dispostos a gastar, mas evitam correr o risco de apostar em nomes novos.

Enquanto o mercado para obras de menos de US$ 1 milhão encolhe, trabalhos acima desse valor têm mais compradores. Vendas de peças acima de US$ 10 milhões mais que dobraram.
O grosso desse mercado, porém, continuam sendo as obras de arte contemporânea, um segmento que faturou US$ 6,2 bilhões sozinho.

Estados Unidos, China e Reino Unido, nessa ordem, continuam no topo do mercado de arte no planeta, com o maior número de vendas, enquanto galerias de países que sofreram recessão recente, entre eles o Brasil, adotaram outras estratégias.
Galerias brasileiras aumentaram presença em feiras estrangeiras, compensando o faturamento menor em casa com transações em dólares e euros no momento em que o real está desvalorizado.

O relatório da Art Basel aponta que o Brasil é o país mais bem representado em feiras de arte na América do Sul e que registrou alta de 40%, o que sinaliza maior interesse do público.
Quase metade das vendas das galerias analisadas, aliás, ocorre em feiras de arte, que vêm se multiplicando pelo mundo e responderam por US$ 15,5 bilhões, quase um quarto do total vendido ao longo do ano passado.


Texto: Silas Marti   |   FSP




(JA, Mar18)

sexta-feira, 16 de março de 2018

Ilustrações do pintor Edward Hopper para revistas do início do século 20


A contragosto, pintor realista conseguiu se sustentar durante décadas publicando ilustrações em ‘pulp magazines’

lustração de Hopper para a 'pulp' Adventure
Edward Hopper, 1882-1967, é considerado um dos maiores pintores americanos modernos. Entre seus estudos contemplativos da vida moderna, que capturam, por meio de um estilo realista, cenas cotidianas ambientadas em restaurantes, quartos de hotel, cinemas, estão pinturas célebres como ‘Early Sunday Morning’  (‘Domingo de Manhã’), de 1930, e ‘Nighthawks’ (algo como ‘Aves da Noite’, em uma tradução livre), de 1942.

'Nighthawks', pintura de Hopper de 1942
Antes de se firmar como um importante artista do século 20 – o que aconteceria somente a partir da década de 1930 –, porém, Hopper trabalhou como ilustrador das chamadas ‘pulp magazines’, revistas populares e baratas que veiculavam histórias de ficção de gêneros variados. Esse tipo de revista circulou muito entre o início do século 20, até a década de 1950.

Durante os primeiros 25 anos de sua carreira, Hopper desenhou para a capa e o miolo de publicações como Hotel Management, Everybody’s Magazine, Wells Fargo Messenger e para as ‘pulp’ Everybody's Magazine, Adventure Magazine, e Astounding Stories.
Ilustração de Hopper para edição de julho de 1919 da revista Everybody’s Magazine
Esta era uma via comum para artistas visuais americanos do início dos anos 1900, uma vez que, até a metade do século 20, quase não havia interesse em comprar e colecionar obras de arte americanas.
Ilustração de Hopper para a edição de março de 1919 para a Adventure
De acordo com um artigo publicado pelo site Literary Hub, enquanto muitas dessas ilustrações encomendadas permitiram que ele aperfeiçoasse temas frequentes de suas pinturas, como escritórios, ferrovias e hotéis, várias outras ‘forçaram-no a confrontar temas estranhos e até incômodos’ para ele.

Esse confronto fica mais evidente, segundo o artigo, em seu trabalho para a revista Adventure. Entre 1916 e 1919, Hopper ilustrou cinco números da publicação de ‘pulp fiction’.

lustração de Hopper para edição de julho de 1918 da Adventure


Ilustração de Hopper para texto de ficção publicado em edição de julho de 1918 da revista Adventure

Nesses três anos, Hopper ilustrou, com desenhos divertidos e cômicos, histórias de fantasia envolvendo exploradores e aventureiros. Uma produção que nada tem a ver com os ‘retratos e paisagens lamuriosos’ do artista, atualmente vendidos por dezenas de milhões de dólares.

Historiadores da arte ainda têm dificuldade em conciliar, segundo o Literary Hub, o melhor de suas ilustrações comerciais com as cenas quietas que lhe renderam um lugar entre os grandes artistas do século passado.

O desprezo pela ilustração

Hopper repudiava a ilustração independentemente do cliente que a encomendava, de acordo com o autor do livro ‘Hopper Drawing’, Carter Foster.

Em uma entrevista concedida pelo artista ao crítico de arte Alexander Eliot, publicada na revista Time em 1956, Hopper relatou que apenas chegava à sede dessas publicações sem hora marcada, com um portfólio debaixo do braço. ‘Às vezes eu dava algumas voltas no quarteirão antes de entrar’, disse na entrevista, ‘querendo o trabalho pelo dinheiro e ao mesmo tempo torcendo para não conseguir aquela porcaria’.


Texto: Juliana Domingos de Lima   |   =Nexo

  

(JA, Mar18)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Caixa Cultural inaugura exposição da artista plástica Anna Bella Geiger


Artista  plástica Anna Bella Geiger tem mapas feitos a base de cera abelha expostos na Caixa Cultural
Anna Bella Geiger faz mapas desde 1975. Mas sua técnica, que consiste em despejar cera de abelha em suportes de metal acomodados em gavetas, foi desenvolvida somente em 1995.
‘Foi como se eu tivesse passado 20 anos andando pelo deserto à procura de um contêiner ideal para segurar meus mundos’, diz a artista sobre o período que guardava os mapas sem transformá-los em obras de arte.


A partir desta quarta-feira (14), 12 gavetas com mapas e estudos cartográficos da artista carioca, além de um vídeo no qual ela explica seu processo de criação, serão exibidos na Caixa Cultural de SP.
Na mesma data da abertura, Geiger fará uma palestra no instituto, às 12h30, a fim de apresentar e explicar os propósitos de seu trabalho.
A artista atribuiu à série desenvolvida na década de 1990 o nome ‘Fronteiriços’.
Ela lembra da advertência que recebeu de uma amiga ao lhe comentar sua intenção de intitulá-los assim: ‘Ela disse para eu pensar em outro nome, pois este remetia ao borderline [doença relacionada a um tipo de transtorno de personalidade]’.

A observação fez a artista gostar ainda mais do apelido, já que seus mapas são cerceados por moldes de países e pelas paredes das gavetas, e borderline, em tradução literal para o português, significa justamente limite.
A artista começou a trabalhar com mapas na mesma época em que seu marido, Pedro Geiger, atuava como geógrafo do IBGE em projetos de estados brasileiros.

Ela, porém, refuta a ideia de que tenha sido exclusivamente influenciada pela atuação do marido.
‘Até os anos 1960, eu trabalhava com formas de corpos viscerais e não era casada com um médico’, diz Geiger, que relembra ter se fascinado com mapas ainda nos anos 1950, quando viu sua irmã desenhando cartografias.

Prestes a completar 85 anos, Geiger tem obras expostas em museus do Rio de Janeiro e de Buenos Aires. Ainda neste mês, suas obras serão exibidas em mostras em Bruxelas e em Nova York.


Mapa-Múndi

Para a artista, seus mapas retratam ideologias —como quando usa molas para traduzir tensões entre os países.
Fascinada por retratar a América Latina, ela afirma que sua obra foi influenciada pela ditadura militar, vigente no início de sua carreira.

Suas representações trazem topografias que permitem a problematização de costumes, culturas e políticas sociais delimitadas pelas fronteiras.


Anna Bella Geiger: Gavetas de Memórias
ONDE Caixa Cultural São Paulo, pça. da Sé, 111, tel. (11) 3321-4400
QUANDO a partir desta quarta (14) até 13/5; ter. a dom. das 9h às 19h
QUANTO grátis



Texto:  Isabella Menon   |    FSP



(JA, Mar18)




sábado, 10 de março de 2018

Museu de Arte de São Paulo

Museu de Arte de São Paulo, foto de 1969

O Museu de Arte de São Paulo é um museu privado sem fins lucrativos, fundado em 1947 pelo empresário e mecenas Assis Chateaubriand (1892-1968), tornando-se o primeiro museu moderno no país.
Chateaubriand convidou o crítico e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999) para dirigir o MASP, e Lina Bo Bardi (1914-1992) para desenvolver o projeto arquitetônico e expográfico.

Mais importante acervo de arte europeia do Hemisfério Sul, hoje a coleção do MASP reúne mais de 10 mil obras, incluindo pinturas, esculturas, objetos, fotografias, vídeos e vestuário de diversos períodos, abrangendo a produção europeia, africana, asiática e das Américas.

Primeiramente instalado na rua 7 de Abril, no centro da cidade, em 1968 o museu foi transferido para a atual sede na avenida Paulista, icônico projeto de Lina Bo Bardi, que se tornou um marco na história da arquitetura do século 20. Com base no uso do vidro e do concreto, Lina Bo Bardi concilia em sua arquitetura as superfícies ásperas e sem acabamentos com leveza, transparência e suspensão. A esplanada sob o edifício, conhecida como ‘vão livre’, foi pensada como uma praça para uso da população.


Belvedere Trianon
Belvedere Trianon, foto de 1930



O charmoso mirante, com salões e restaurante, existiu por 37 anos no local onde hoje é o MASP. O Belvedere Trianon era um mirante, com terraços panorâmicos que proporcionavam a vista para todo o vale, para a avenida e para os jardins do Parque Trianon. O local também era conhecido como Miradouro da Avenida ou apenas o Belvedere da Avenida (…). O escritório de arquitetura de Ramos de Azevedo, um dos mais conceituados na época, assinou a obra.

Além dos terraços, também faziam parte do belvedere salões para festas e convenções, com serviços de restaurante e confeitaria. A inauguração foi realizada com pompa em 12 de junho de 1916:

‘Na festa, o sr. dr. Washington Luís, prefeito da cidade, recebeu os convidados, à entrada do Miradouro, no luxuoso restaurante e nos salões’.  OESP

(JA,  Mar18)






Erwin Olaf é tema de mostra MIS-SP


Fotógrafo holandês mistura frustração, tristeza e tédio com estética de publicidade
Detalhe da fotografia do holandês Erwin Olaf da série ‘Keyhole’, de 2012




Se pudesse escolher, o fotógrafo holandês Erwin Olaf teria o torso hiperdefinido, a boca fina e o rosto sem rugas.

Ele, porém, sabe que não há muito o que fazer. Como sofre de enfisema pulmonar desde 1996, o artista imagina que viverá permanentemente com um cateter de oxigênio. A barba, sem fazer, combinaria com os cabelos brancos e desgrenhados.

Olaf tem 58 anos. Ainda que esteja mais próximo do pessimismo que pintou para si, ele não aparenta a idade que tem. Entre a ambição e o temor, o certo é que ‘I Wish, I Am, I Will Be’ (eu desejo, eu sou, eu serei), série de autorretratos que integra a primeira mostra do holandês no país, expressa o tema central na obra do fotógrafo: a fantasia.

Desde o último sábado (10), o Museu da Imagem e do Som de São Paulo repassa os últimos 15 anos da carreira de Olaf, que despontou na década de 1980 com retratos em preto e branco de anões, grávidas e obesos, quase totalmente nus e em poses eróticas que insinuam dominação.

Desde então, o holandês ganhou projeção tanto com trabalhos autorais sobre frustração, melancolia e tédio quanto com peças publicitárias e ensaios de moda, sem definir limites rígidos entre as áreas.

A estética das séries ‘Rain’ (chuva) e ‘Keyhole’ (buraco da fechadura), por exemplo, remete a catálogos de alta costura e de design de luxo. Aqui, porém, o pós-tratamento aplicado às imagens oferece ares de ficção aos ensaios.

Por vezes, como na obra ‘Le Denier Cri’ (o último grito), esses efeitos computadorizados são propositadamente exagerados, com texturas artificiais e rostos distorcidos a partir da introdução de objetos sob a pele. Olaf satiriza os excessos de cirurgias plásticas e da obsessão pelo corpo perfeito.

Mas, na maioria das séries do artista, o pós-tratamento, ainda que evidente, aparece de maneira mais sutil. Reforça somente a ideia de que tudo se torna performance na presença de uma câmera.

‘Quando tenho uma ideia’, conta Olaf à Folha, por telefone, ‘chamo meus assistentes para discutir a imagem’.

‘Figurinista, produtor de objetos, maquiador, todos participam dessa etapa. E então faço croquis básicos do que vou fotografar’. Uma equipe de até dez pessoas, explica o artista, trabalha para realizar uma só fotografia.

Em uma escala de megalomania, o holandês fica atrás do fotógrafo americano Gregory Crewdson, cuja produções se assemelham à do cinema. Ele não deixa, contudo, de impressionar pelas cenas meticulosamente ensaiadas.

A mostra no MIS exibirá apenas uma imagem da série ‘Grief’ (luto), uma das mais conhecidas do fotógrafo, na qual imagina reações de americanos ao assassinato do ex-presidente J. F. Kennedy, em 1963. O vestuário parece feito para o elenco de ‘Mad Men’, e a paleta de cores faz referência aos anos 1950 e 60.

Ninguém sorri nas imagens, e cada movimento dos personagens é calculado, criando uma tensão incessante.

A angústia dos trabalhos de Olaf não aparece no jeito de falar do fotógrafo, leve e gentil —o que não representa um contrassenso, segundo ele. ‘Posso tomar café da manhã feliz e dormir triste, isso é a vida’, afirma. ‘Só quero celebrar a liberdade do corpo, da sexualidade, do indivíduo’.

Para Talita Virgínia, que assina a curadoria da mostra com Cristiane de Almeida, as discussões sobre individualidade podem ser vistas no vídeo ‘Separation’ (separação), de 2003, no qual pessoas completamente cobertas por roupas de vinil aparecem em ações cotidianas.

‘Não é possível distinguir quem é homem, mulher ou criança. Elas se unem pela prática de ações repetitivas, o que faz com que elas nem se deem conta de quem são’, diz.

Ao todo, a exposição reúne 22 fotografias e dez vídeos, entre eles ‘Shangai’, obra inédita que emula outdoors de metrópoles. O trabalho exibe vídeos verticalizados, nos quais mulheres se dirigem ao espectador e fazem pedidos.
Detalhe de dois dos autorretratos de ‘I Wish, I Am, I Will Be’, de 2009 - Erwin Olaf




Olaf utiliza a linguagem publicitária, tão presente em sua obra, para mostrar os desejos dos jovens na cidade chinesa, "efervescente e ao mesmo tempo com resquícios de uma sociedade ditatorial", explica Talita.

Havia a possibilidade de que o fotógrafo viesse ao Brasil para acompanhar a abertura da mostra. A ideia foi abortada devido ao enfisema.

Questionado sobre o quanto a melancolia de suas imagens representa quem ele é, Olaf diz que ‘em 24 horas pode sair da tristeza profunda e entrar na mais alta felicidade’. ‘Hoje, no entanto, estou numa praia em Bali, fugindo do frio europeu, então vou celebrar a vida’.



ERWIN OLAF: TENSÃO

QUANDO de hoje (10), às 12h, até 8/4; de ter. a sáb., das 12h às 20h, dom. e feriados, das 11h às 19h;

ONDE MIS, av. Europa, 158, tel. (11) 2117-4777

QUANTO R$ 10 (inteira)

CLASSIFICAÇÃO 14 anos



Texto:   Daigo Oliva   |   FSP



(JA, Mar18)