quarta-feira, 3 de junho de 2020

Acessos ao Google Arts and Culture mais que dobram durante a pandemia



Criador da plataforma, que reúne mais de 2000 museus pelo mundo, diz que é preciso incluir curadores no debate virtual


Amit Sood, diretor da plataforma Google Arts and Culture


Naquele início, a iniciativa tinha basicamente duas propostas. Uma delas era permitir aos internautas percorrer os corredores dos museus sem sair de casa, a partir de uma tecnologia de geolocalização - nada muito diferente do que é feito no Google Maps.

A outra fazia com que, uma vez parados diante de uma obra, esses mesmo internautas pudessem se aproximar da tela de uma forma inviável nos museus de verdade, revelando marcas de pincel e detalhes imperceptíveis a olho nu.

De lá para cá, no entanto, o Google Arts and Culture cresceu, e muito. Em quantidade de parceiros, é claro - no começo, eles eram menos de 20. Mas, sobretudo, nos usos.

Hoje, além de explorar centenas de coleções e visitar exposições virtuais, os internautas ainda têm acesso a toda uma gama de projetos paralelos. Estes vão de descobrir obras de arte parecidas com as selfies que postam, o Art Selfie, a vídeos em que curadores realizam visitas guiadas com influencers, o Art for Two.
Ao longo de pouco mais de 40 minutos de entrevista, o diretor do Google Arts and Culture, Amit Sood, insiste algumas vezes que ele e sua equipe não são mais do que técnicos de engenharia. ‘Se a escolha dos conteúdos dependesse de nós, seria um desastre’, ele diz.

Pode parecer modéstia demais para o criador de uma plataforma que, hoje, reúne milhões de obras de arte localizadas em mais de 2000 instituições pelo mundo, 60 delas só no Brasil.

Mas, conversando com Sood, executivo criado em Mumbai e radicado em Londres, fica claro o protagonismo das instituições culturais dentro do projeto, lançado há nove anos.

Isso sem falar num laboratório de experimentação que inclui pesquisas com machine learning e outras tecnologias e que conta com a colaboração de profissionais das outras áreas do Google.

A plataforma já vinha, assim, se expandindo em anos anteriores. Durante a pandemia da Covid-19, porém, ganhou ainda mais importância. Num momento em que museus e centros culturais fecharam ao público por causa das medidas de distanciamento social, a quantidade de acessos ao site e ao aplicativo mais que dobrou, segundo Sood - ele não revela números, no entanto.

O diretor credita esse crescimento todo à capacidade da plataforma de juntar num mesmo local museus e itens distantes um do outro na vida real, seja pela própria geografia ou pelas disciplinas em que estamos acostumamos a agrupá-los - moda, artes plásticas, ciência.

‘Nossas conversas iniciais foram muito complicadas. Porque tínhamos que convencer os museus a se juntar numa mesma plataforma, e mesmo no mundo real isso é difícil’, ele diz. ‘Mas, para nós, tudo isso é cultura’.

É essa multiplicidade, aliás, que Sood considera a maior vantagem do Google Arts and Culture. ‘As pessoas são obcecadas por pinturas, mas existem tantas outras formas de arte e de cultura no mundo’, ele diz. ‘Meu consumo pessoal de arte mudou drasticamente. Pois entendi que uma cultura não precisa de telas a óleo para ser incrível, que há mais do que a visão ocidental da arte’.

‘E acho que o meio virtual pode equalizar esse meio de campo. Você pode entrar na plataforma para ver os girassóis do Van Gogh, mas acabar encontrando um trabalho indiano numa técnica completamente diferente’, exemplifica o diretor.

Questionado se esse nivelamento é observado na prática, Sood responde que a maior parte do tráfego da iniciativa ainda vem dos grandes museus europeus e americanos.

Mas, ele continua, esse cenário tem mudado bastante recentemente. Usuários da Ásia e da América Latina foram os que mais cresceram nos últimos dois ou três anos. E a lista de instituições mais visitadas hoje, é completamente distinta daquela do começo, com museus do Brasil e da Índia galgando cada vez posições mais altas no ranking.

Para esse processo ganhar força, é fundamental trazer os museus e os curadores para o debate virtual, diz Sood. ‘Não queremos juntá-los ali e usar algum tipo de engenharia para dizer que esses são os top cem museus. Insistimos que os curadores é que escrevam essa história’.

Ele conta que, nesses anos, uma de suas maiores descobertas foi quanto conhecimento esses curadores têm, e como eles têm medo, ou não sabem como comunicar isso online.

‘Acho que essa crise mostrou que é do interesse deles participar dessa conversa’, afirma Sood.


‘Museus precisam se sentir relevantes agora, porque mesmo nos tempos mais sombrios, continuamos a buscar maneiras de nos inspirar, de nos conectarmos uns com os outros. Basicamente, de nos educarmos’.







Fonte: Clara Balbi   |   FSP



(JA, Jun20)



segunda-feira, 1 de junho de 2020

Morre Christo, o artista que embrulhou em tecido pontes e palácios, aos 84 anos




Chirsto em foto de 2016, França

Com a mulher, búlgaro radicado em Nova York criou algumas das obras mais impressionantes da arte contemporânea

O artista plástico Christo, famoso por trabalhos de escala gigantesca criados ao lado da mulher, Jeanne-Claude Denat de Guillebon, muitas vezes embrulhando monumentos no mundo todo, entre eles o Reichstag, em Berlim, e a ponte Neuf, em Paris, morreu no último domingo (31), aos 84 anos, de acordo com seus assistentes em seu perfil no Facebook.

Nascido Christo Vladimirov Javacheff, na Bulgária, e depois naturalizado americano, ele morreu de ‘causas naturais’, segundo o comunicado, em sua casa em Nova York.




A dupla formada com sua mulher, que morreu em 2009, se tornou uma das mais famosas do mundo da arte por trabalhos site-specific, ou seja, criados a partir do lugar onde seriam montados. Suas peças de natureza acachapante, muitas vezes efêmeras, podiam levar anos de planejamento e custar milhões de dólares para serem executadas.

Desde a década de 1960, Christo e a mulher se tornaram nomes incontornáveis num universo da arte que extravasava e implodia todos os limites impostos à escultura, em sintonia com vanguardas como a land art, que ganhava corpo nos Estados Unidos.


Pont Neuf emballé par Christo, 1985


Eles se tornaram famosos no mundo todo em 1985, quando embrulharam a ponte Neuf em tecido brilhante, um trabalho que levou dez anos para ser elaborado e consumiu 100 mil metros quadrados de material reluzente, que se espelhava nas águas do Sena.


Gates,  Central Park NY, 2005


Há 15 anos, Christo, como ele e também a dupla ficaram conhecidos, estendeu 7.500 retalhos de tecido laranja gigantescos pelas alamedas do Central Park, em Nova York —o trabalho levou mais de 20 anos para driblar toda a burocracia antes de ser concretizado.

Outro embrulho, o do Reichstag, em Berlim, há 25 anos, também consumiu quase um quarto de século de negociações e US$ 15 milhões, em valores da época, para sair do papel. Christo transformou a atual sede do Parlamento do país num grande fantasma assombrando os dois lados da capital alemã, até poucos anos antes separada ao meio pelo muro.


Passarelas douradas flutuantes, lago ao Norte da Itália, 2016


Nos anos depois da morte da mulher, Christo se dedicou a realizar alguns dos planos elaborados pelo casal. Um de seus maiores sucessos de público foi uma instalação num lago no norte da Itália onde ele construiu enormes passarelas douradas flutuantes —270 mil espectadores foram caminhar sobre as águas ali ao pé das montanhas.

O projeto italiano ecoa uma obra da década de 1980 em que o casal construiu em Miami uma série de ilhas de plástico cor-de-rosa na baía de Biscayne, considerado um marco na revitalização urbana do balneário americano.
Há dois anos, em Londres, ele ergueu sobre um lago uma enorme estrutura com 7.000 barris de petróleo coloridos inspirada na forma das sepulturas do Egito antigo.

Um dos primeiros trabalhos ao lado da mulher, marroquina que conheceu em Paris depois de ter estudado em Viena, aliás, também usou barris do combustível para bloquear uma rua da capital francesa em protesto contra a construção do Muro de Berlim.

Seu último projeto seria embalar o Arco do Triunfo parisiense em tecido, aguardado como a grande atração da temporada de outono das artes em Paris. Agora, segundo seus colaboradores, o projeto deve seguir adiante, mesmo que abalado pela pandemia do coronavírus.

Ele deixa o filho Cyril Christo, fotógrafo e cineasta e ativista dos direitos dos animais.







Fonte:   FSP, Ilustr



(JA, Jun20)



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Ronald Golias



Arte de Fazer Rir



São cada vez mais raros os humoristas que exercem sua nobre função com graça genuína, que é fruto não de uma ‘forçação de barra’ para ser engraçado. Em tempos de you tubers, standups de todos os tipos e gêneros, sobra muito pouco espaço para aquele humor espontâneo, ainda mais em tempos no que o politicamente correto dita as regras do que é considerado engraçado ou não.

Esse que tinha o humor na pele, num simples gestual, se estivesse encarnado, no dia 4 de maio passado teria completado 91 anos de idade, e era de uma geração de humoristas desbravadores, que  não precisava fazer muito esforço para ser engraçado. Todo esforço para ser engraçado revela uma graça artificial, e esse aniversariante, no palco, comprovava isso.

Ronald Golias, o rei do caco, do improviso, do humor do caos, e da simplicidade. Bastava dar um tema, e dali, espontaneamente, como um grande contador de causo, Golias sacava brilhantes histórias repletas de muito humor, e nos fazia enxergar graça em fatos cotidianos, aparentemente insossos, mas que, com seu imenso talento, conseguia suavizar tais fatos.

Nascido na cidade de São Carlos , interior de São Paulo, Golias era neto de italianos, nascido em uma família humilde. Ronald Golias era filho de Conceição D'Aparecida Rayol Golias e Arlindo Golias. O pai de Golias, fã do artista Ronald Colman, resolveu chamar o filho de Ronald. Sua estreia nos palcos foi aos 8 anos de idade, como artista amador, na Escola Dante Alighieri de São Carlos.

Golias não gostava de ser chamado de são-carlense, ele se intitulava carlopolitano, que também é gentílico latino de quem nasce em São Carlos.

Mudou-se para a cidade de São Paulo em 1940. Trabalhando como alfaiate e funileiro, começou a praticar natação no Clube Regatas Tietê, onde posteriormente entraria para o grupo Acqua Loucos, um dos precursores em espetáculos aquáticos no Brasil. Por sugestão de Golias, as apresentações passaram a ter uma parte com diálogos; suas performances com a trupe acabaram por levá-lo a participar do programa Calouros em Cena, da Rádio Cultura.




Na década de 1950, com o fim dos programas produzidos pela emissora, Golias passou a integrar a equipe de artistas da Rádio Nacional. Foi então que conheceu Manuel de Nóbrega, que, em 1957, o convidou a participar do humorístico ‘A Praça da Alegria’, que estreara naquele mesmo ano pela TV Paulista.

Golias despontou para a fama a partir de seu trabalho na Praça. Interpretando o inquieto Pacífico (do bordão ‘Ô Cride, fala pra mãe...’), ele acabou se tornando uma das estrelas da ainda incipiente televisão brasileira. ‘Cride’, no caso, era seu amigo de São Carlos, Euclides Gomes dos Santos, que declarou que Golias criou a frase imitando o modo como era chamado por sua mãe para voltar para casa.

Com o sucesso na TV, ele foi convencido por Herbert Richers a entrar para o cinema. A iniciativa a princípio foi complicada; com agenda ocupada na televisão, o humorista enfrentou dificuldades em conciliar as gravações. Seu primeiro filme foi a comédia ‘Um Marido Barra-Limpa’, 1957, de Luís Sérgio Person que, contudo, acabou finalizado por outro diretor, e lançado apenas em 1967.



                          

Participou também de ‘Os Três Cangaceiros’, 1961, de Victor Lima, quando contracenou com Ankito e Grande Otelo. Entre seus últimos trabalhos cinematográficos estão ‘O Dono da Bola’, 1961, e ‘Golias contra o Homem das Bolinhas’, 1969.




Golias dedicou-se a maior parte de sua carreira para a televisão. Trouxe consigo das telas o personagem Carlos Bronco Dinossauro, que acabaria se tornando um dos destaques da Família Trapo, programa exibido pela TV Record, entre 1967 e 1971, cujos cenários foram concebidos por  Antonio Rudolf. Contracenando com Jô Soares, Ricardo Corte-Real, Cidinha Campos, Renata Fronzi, e Otelo Zeloni, Golias consagrou-se definitivamente como um dos mais célebres humoristas do Brasil.

Após o término da Família Trapo em 1971, Golias protagonizou ainda na Record o seriado ‘Bronco Total’, entre 1972 e 1973. Nesta série, contracenou com Carlos Alberto de Nóbrega.

Em 1979, Golias protagonizou na Globo o seriado ‘Superbronco’. Adaptação da série ‘Mork & Mindy’ (protagonizada por Robin Williams), da rede americana ABC. O programa foi cancelado, após apenas 29 episódios, apesar de constar entre os dez programas de maior audiência da televisão brasileira, naquele ano.
Na década de 1980 foi para a Bandeirantes, onde estrelou o humorístico ‘Bronco’.

Em junho de 1990, passou a integrar o elenco fixo de ‘A Praça é Nossa’, no SBT, onde permaneceu até 2005, interpretando personagens como ‘O Profeta, Bronco’, ‘Pacífico’ e ‘Professor Bartolomeu’. Nesse meio tempo, foi protagonista na mesma emissora dos humorísticos ‘A Escolinha do Golias’ (com Nair Bello), ‘SBT Palace Hotel’, 2002, e ‘Meu Cunhado’ (com Moacyr Franco).

Na época da estreia de ‘Meu Cunhado’, em abril de 2004, Golias fez uma cirurgia para a implantação de um marca-passo. No mês seguinte voltou a ser internado em razão de um coágulo no cérebro. Seu estado de saúde a partir de então passou a se agravar.

Em 8 de setembro de 2005, Golias foi internado no Hospital São Luiz, em São Paulo. Com quadro de infecção pulmonar, ele morreu dia 27 de setembro, em decorrência de uma infecção generalizada. Foi sepultado no Cemitério do Morumbi.

Nesses 15 anos de sua passagem para outro plano, pudemos ter a exata dimensão da sua grandeza. Golias, era um homem fora do palco extremamente simplório, de vida pacata e muito discreta. Costumava carregar seus documentos e dinheiro num saco plástico, que levava para cima e para baixo, e era muito observador e intuitivo. Seu grande trunfo do humor inigualável, foi, principalmente o genial improviso, que permitia que não precisasse de nenhum ‘escada’ - jargão do humor que define aquele que prepara a piada, para realizar seu trabalho com brilho.

Golias foi casado com Lucia, e teve apenas uma filha, Paula, nascida em 1967. 
Foi, sem dúvida, criador de uma vertente de humor que ainda busca herdeiros. Deixa saudade. Um humorista não morre; simplesmente vai alegrar outros planos. Que Golias exale sua alegria em outras dimensões.


‘O Cride’, fala pra mãe!








Fonte: Marcos Rudolf , Memórias Paulistanas |  WP e Dvs



(JA, Mai20)





quinta-feira, 14 de maio de 2020

Harmonia musical, humana e cósmica


A importância da música em nossas percepções do mundo, desde o pensamento grego do século VIII a.C. até os dias de hoje




‘Necessariamente, a música que nos constitui não é nem boa nem má; ela é a música que cada um de nós anseia naquele momento para poder entrar em contato com a sua alma, com o outro e com a alma do mundo. Não há satisfação maior do que a música e do que a dança, que funcionam como orgasmos cósmicos, onde se entra em comunhão com a vida.’ Refletiu André Balboni, músico e estudioso da relação fundamental entre música e filosofia, autor do livro ‘Sopro das Musas’ (Odysseus Editora, 2018).





Na Grécia Antiga, do século VIII antes da nossa era, ocorreu, com o surgimento das cidades-estados, um ressurgimento da escrita e dos poetas-cantadores (aedos), que davam voz a tudo que poderia se apagar. Um canto passado de geração em geração, contando as histórias dos antepassados, até Homero. Cada vez que esses poetas-cantadores se apresentavam diante do público, invocavam as Musas, deidades afiliadas a Apolo, deus do sol, da luz, mas também da música e da profecia.




Diferente do que vem a cabeça quando usamos o termo ‘musas’ hoje, para os gregos, as nove Musas, filhas de Zeus e Mnemósine (Memória), são uma constelação de seres que têm papel fundamental na transmissão de sabedoria, no bem viver inspirando ciência e arte, e se relacionam diretamente com a memória. Não por acaso a morada das musas, o Museion, dá origem a palavra ‘museu’, um dos muitos ‘lugares de memória’ das sociedades ocidentais.

As musas visitam o mundo para fundar a memória do ser humano, pois auxiliam na formação da memória através da musicalidade do ritmo, melodia e harmonia, e guardam os aspectos mais fundamentais da vida humana.

A palavra ‘música’, vem de musiké e significa ‘aquilo que é das Musas’ – nesse campo cosmológico do saber. Portanto, um músico doa o divino às pessoas, imbuído de uma responsabilidade ética. Segundo a concepção grega, a música terrena emula a Harmonia Cósmica (ou das Esferas), a música silenciosa do movimento dos planetas.

Cada pessoa possui uma musicalidade inerente, que é capaz de ressaltar na alma do outro diferentes processos catárticos, através de uma melodia singular.
A musicalidade depende da relação entre as três categorias da música: ritmo, melodia e harmonia.

o    Ritmo - provém da métrica da forma poética da forma do poema, é uma duração das notas que, na concepção bergsoniana, é aquilo que resiste entre uma nota e outra, em um tempo mais interno
o   Melodia  - significa ‘canto da voz ou incorporado’, uma fala que revela a singularidade e a verdade de cada ser
o    Harmonia -  é a relação estética entre dos sons. A música do ser humano é um espelhamento da harmonia cósmica, e essa mesma harmonia cósmica permeia a alma humana. Essa conexão de almas humanas e divinas é facilitada pelas Musas.

Do ponto de vista da filosofia platônica, temos as seguintes relações entre a música e o ser humano: ritmo-corpo, melodia-palavra, harmonia-alma. Mas, do ponto de vista da filosofia contemporânea, principalmente no campo ético, como é o caso do filósofo francês Emmanuel Lévinas, temos uma mudança de perspectiva sobre essa questão da filosofia da música. Para Levinás, a questão não está somente naquilo que é bom ou ruim, mas na noção de que o encontro com o outro nos constitui enquanto seres humanos. Assim, se Platão estava em busca da ‘boa música’, em Levinás podemos alçar uma pergunta mais profunda: qual é a música que nos constitui enquanto pessoa?

Qual a melodia verdadeira? Qual o contato com a verdade que reverbera no outro? Qual a ação e reação que o eu causa no outro? A música tem essa potência do encontro, de uma relação do despertar. Há outras relações que estabelecemos, ou músicas que nos desconstituem? Esse é o Sopro das Musas, sempre em busca de descortinar um novo mundo por meio da arte.

A música amplia a nossa percepção, nos desperta e desvela outras camadas do olhar, do sentir e do viver, assim como uma pintura, uma fotografia, um filme ou um livro. Cada um tem acesso a sua melodia interna, a sua própria voz e o seu silêncio. Uma verdade que, de uma forma ou de outra, vibrará no rosto do outro, celebrando os encontros e desencontros da nossa vida.

Nesta época de pandemia, fique em casa. Tente ligar o som, balançar o corpo, e experimentar a comunhão cósmica que ecoa do seu estado de verdade.







Fonte: Cassiana Der Haroutiounian   |   FSP



(JA, Mai20)



segunda-feira, 11 de maio de 2020

Castelo de Clos Lucé Amboise, Centro-Vale do Loire, França



Há 500 anos, Leonardo da Vinci morreu em castelo que hoje abriga um museu dedicado a ele

Castelo de Amboise, antiga residência dos reis franceses, visto da margem oposta do Loire


Em 1515 Leonardo tinha 63 anos, Michelangelo, 40 e Rafael, 32. Os três viviam em Roma, o único lugar do mundo que podia comportar tantos gênios e egos. Poderíamos esperar que esses talentos trabalhassem juntos, mas não foi assim que aconteceu.

Em outubro daquele ano, o rei francês Francisco I anexou a cidade de Milão.   Dois meses depois, ele se encontrou com o papa Leão X em Bolonha, em uma ocasião em que Leonardo estava presente. O rei era admirador da obra do artista, então Leonardo recebeu uma encomenda: criou para Francisco um leão mecânico, que andava para a frente, abria o peito, e revelava um buquê de lírios. Alta tecnologia, coisa linda.

Pouco depois, em 1516, Leonardo já trabalhava oficialmente para o monarca francês. Aceitou o convite, e cruzou os Alpes em cima de uma mula, levando consigo alguns pupilos, anotações, rascunhos e três pinturas.


Fachada do Clos Lucé, que mantém um museu dedicado a Da Vinci

Ele passou a morar no Clos Lucé, castelo fortificado que um outro rei, Carlos VIII, comprou em 1490 para transformar em uma agradável residência de verão dos monarcas franceses.

O solar tinha uma passagem subterrânea para o castelo de Amboise, a então residência real. Era o palácio onde Francisco passou a infância, e onde Carlos morreu de forma estúpida, ao bater a cabeça no lintel de uma porta (lintel é a parte dura, horizontal e superior de portas e janelas).

Nada mal para o velho artista. Salário fixo, casa suntuosa e vizinho de Francisco, que ainda o nomeou ‘primeiro pintor, engenheiro e arquiteto do rei’.

Leonardo trabalhou em diversos projetos para Francisco, que foi um dos grandes monarcas de seu tempo. Fez estudos para a drenagem dos pântanos de Solonha e para uma rede de lagos e canais, conectando o Vale do Loire a Lyon, a fim de facilitar o acesso à Itália. Idealizou a cidade de Romorantin, novo distrito aristocrático que abrigaria a corte, e casas móveis para a nobreza itinerante. 

Criou também outros autômatos, na mesma linha do leão florista, para as espetaculares celebrações reais. Foram anos mais de engenheiro do que de pintor.  Mas, Leonardo também teve tempo para receber visitas ilustres do reino, líderes da Igreja, embaixadores italianos, e outros artistas. Trabalhava no térreo do edifício, e trabalhava demais. ‘A sopa está esfriando’, como deixou em uma de suas notas, preservadas até hoje.

No dia 2 de maio de 1519, há 500 anos, Leonardo morreu, provavelmente de derrame. Ele estava no Clos Lucé, a casa onde viveu os últimos três de seus 67 anos de vida, e que hoje abriga um museu dedicado a Da Vinci. Francisco chorou com a cabeça do amigo entre as mãos, embora essa seja a versão enfeitada, famosa na pintura de Ingres. Mas, dada a relação dos dois, sabemos que ele sentiu a partida do gênio.   Leonardo foi enterrado na igreja de São Florentim, no castelo de Amboise.

Quase três séculos depois, com os tempos áureos do palácio já na poeira da história, a dinastia Valois dera lugar à Bourbon, que, por sua vez, caiu na Revolução. A igreja foi destruída, e os ossos do gênio se perderam.


Capela de Saint-Hubert


Em 1863, a suposta ossada davinciana foi descoberta. Leonardo ganhou uma nova tumba, na capela de São Humberto, ali perto, nos jardins do castelo de Amboise.


A cidade de Amboise vista do castelo

Amboise, cidade histórica na margem esquerda do Loire, celebra meio milênio da morte de seu imigrante mais famoso. Paris também. As três pinturas que Leonardo levou em sua mudança para a França acabaram ficando no país. Hoje, elas integram o acervo do Louvre: A Virgem e o Menino com Santa Ana, São João Batista (que talvez nem estivesse finalizada), e Mona Lisa.



Fonte: Felipe van Deursen  |  Terra à Vista



(JA, Mai20)




quarta-feira, 15 de abril de 2020

Logo dos Rolling Stones

Como os Rolling Stones criaram o famoso desenho da boca com língua para fora

Logotipo criado por John Pasche, em 1971, para os Rolling Stones

Símbolo que identifica o grupo de Mick Jagger há mais de cinco décadas surgiu inspirado em deus indiano, e sinal de protesto.

No começo, era só um pequeno emblema, algo que pudesse ser usado para adornar um compacto simples de 45 rotações por minuto, ou como cabeçalho na correspondência da banda. Mas, não demorou para que o símbolo se tornasse o mais onipresente, e depois o mais famoso logotipo na história do rock.

Por mais de 50 anos, um símbolo de lábios e língua identifica os Rolling Stones, e foi usado em todo tipo de produto - de camisetas e isqueiros a painéis de decoração de palco, aparecendo em variações incontáveis ao longo das décadas.

Embora muitas das pessoas que amam a imagem sejam fãs da banda, o logotipo de muitas maneiras transcendeu os Stones. No entanto, quando foi encomendado, em abril de 1970, o designer que o criou –John Pasche– não fazia ideia do quanto seu trabalho se tornaria popular – e lucrativo.

O logotipo seria parte de uma exposição que entraria em cartaz este mês, ‘Revolutions: Records and Rebels 1966-1970’, no Grande Halle de la Villette, em Paris. Mas o evento foi adiado por causa do surto do novo coronavírus. Mesmo assim, conversei com Pasche, de 74 anos, por telefone, em Londres, na semana passada, para um vislumbre da história desse trabalho (e também falei com outras testemunhas do processo).

No começo de 1970, o Royal College of Art, em Londres, foi contatado pelo escritório do empresário dos Rolling Stones. A banda estava em busca de um artista para criar um cartaz para sua turnê europeia de 1970. A escola de arte recomendou Pasche, que estava concluindo seu mestrado em arte.

Pasche se encontrou com Mick Jagger para discutir ideias para o cartaz, e uma semana mais tarde voltou a entrar em contato com o vocalista para lhe mostrar o desenho. Jagger não ficou satisfeito. ‘Acho que por causa da cor e da composição’, disse Pasche, no museu Victoria and Albert, em 2016. ‘Ele rejeitou o desenho. Fiquei pensando que, bem, era aquilo’.

‘Tenho certeza de que você é capaz de fazer melhor, John’, foi a fala de Jagger.
A segunda e definitiva versão, que recuava à estética das décadas de 1930 e 1940, e também incluía um turbojato Concorde, agradou mais. Pasche foi contatado logo depois por Jo Bergman, a assistente pessoal da banda. Em uma carta datada de 29 de abril de 1970, Bergman pediu especificamente a Pasche que ‘criasse um logotipo ou símbolo que possa ser usado em papel de carta, como capa dos programas de shows, e como capa do material de imprensa’.

Em reunião com o designer, meses depois, Jagger foi mais específico, recorda Pasche. Ele queria ‘uma imagem que funcionasse sozinha –como o logotipo da Shell Petroleum, queria aquele tipo de simplicidade’.

Na mesma reunião, Jagger mostrou a Pasche uma ilustração da divindade hindu Kali, que Jagger havia visto em uma loja perto de sua casa, e pedido emprestada.

De acordo com Pasche, Jagger disse que estava ‘mais interessado na natureza indiana da coisa’; a cultura indiana estava na moda no Reino Unido, na época. Mas o que chamou a atenção do designer foi a boca aberta, e a língua saliente de Kali. ‘Eu me liguei de imediato na língua e nos lábios’, disse Pasche.


John Pasche mostra logotipo que criou para os Rolling Stones, em 2005

Ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, o logotipo, criado originalmente em preto e branco, e usado no desenvolvimento das versões posteriores, não era - pelo menos não intencionalmente - uma representação da língua, e dos lábios de Jagger.

‘Eu comentei que aqueles, com certeza, eram os lábios de Mick Jagger’, recorda Victoria Broackes, curadora sênior do museu Victoria and Albert que, em 2008, adquiriu o desenho original do logotipo, em um leilão em Chicago, em nome de seu espaço.

Ela conta que Pasche pareceu intrigado e disse que ‘talvez subliminarmente, mas não de propósito’.

Pasche afirma que seu logotipo também pretendia ser um sinal de protesto. ‘É o tipo de coisa que uma criança faz ao mostrar a língua para alguém’, ele disse. ‘Esse era o principal motivo para que eu acreditasse que funcionaria’.


Mick Jagger, dos Rolling Stones, durante show da banda no Soldier Friend, em Chicago
O logotipo foi executado rapidamente, no final de 1970. O lançamento do álbum, ‘Sticky Fingers’, um clássico da banda, em abril de 1971, foi a primeira ocasião em que ele foi usado em público. Mas, uma versão alternativa do logotipo, foi usada para o lançamento americano do disco –‘ligeiramente modificada por Craig Braun’, disse Andrew Blauvelt, curador geral de design no Museu de Artes e Design de Manhattan.

Na época, Braun estava trabalhando com Andy Warhol para realizar a ideia de colocar um zíper de verdade na capa do disco. Pasche disse que Braun modificou o design, não porque era deficiente, e sim porque o desenho foi enviado aos Estados Unidos por fax, em um momento de correria. O fax era ‘muito granuloso, e cinzento’. E o logotipo, admitiu Pasche, precisava ser redesenhado.

É a versão alongada de Braun, com linhas e brilhos adicionais, que continua a ser usada oficialmente. Em ‘50 Licks: Myths and Stories from Half a Century of the Rolling Stones’, livro de Peter Fornatale sobre a história da banda, Braun disse que recebeu o logotipo de Marshall Chess, presidente da Rolling Stones Records, e que ‘basicamente delineou os brilhos, os lábios e a língua’.

Em 1972, Braun e Warhol foram indicados ao prêmio Grammy de melhor embalagem de disco, mas foram derrotados pela capa criada por Gene Brownell e Dean Torrence, para um álbum da banda Pollution, que mostrava uma garota usando máscara contra gás, e emergindo de uma casca de ovo.

E o logotipo de Pasche continuou a ser atribuído a outros. ‘Muita gente acha que foi criado por Andy Warhol, o que não é verdade, claro’, disse Broackes, que acha que isso aconteceu porque Warhol levou crédito pelo restante da arte de ‘Sticky Fingers’.

De acordo com Blake Gopnik, autor de ‘Warhol: A Life as Art’, uma biografia do artista, a língua e os lábios ‘de forma alguma poderiam ter sido trabalho de Andy Warhol’.

‘Não tem nada a ver com o estilo da arte dele’, disse Gopnik, ‘especialmente com a estrutura conceitual na qual ele sempre trabalhou’.

Por que uma confusão tão duradoura? ‘Warhol é como um gigantesco ímã cultural’, disse Gopnik. ‘Atrai tudo. E ele não fez esforço para esclarecer as coisas’. O biógrafo acrescenta que ‘ele preferia confusão factual à clareza, e por isso a ideia de que o crédito pelo logotipo pudesse ser atribuído a ele, era algo que Warhol teria com certeza encorajado’.

 
Fã de Rolling Stones vê show da banda, no festival Empire Polo Club in Indio, na California, em outubro de 2016


O logotipo gerou muito dinheiro para os Stones. Alan Edwards, um veterano do setor de relações públicas no Reino Unido, e encarregado da divulgação da banda na década de 1980, disse que os Rolling Stones ‘devem ter faturado um bom bilhão de libras, em shows e exposições, e com a venda de discos, DVDs e mercadorias’, e que usaram o logotipo em toda a sua publicidade.

Samuel O’Toole, advogado especialista em propriedade intelectual no escritório de advocacia Briffa Legal, em Londres, estimou o valor do faturamento em ‘centenas de milhões de libras’.

Pasche disse ter recebido apenas £ 50 pelo trabalho em 1970 (o equivalente a US$ 970 atualmente, ou seja, aproximadamente R$ 5.000), e também uma bonificação de £ 200. Foi só em 1976, quando um contrato oficial foi assinado entre ele e a Musidor BV, representante legal da banda na Holanda, que o designer começou a receber royalties por seu trabalho.

Pasche recorda que seu quinhão era de 10% da receita líquida das vendas de mercadorias que exibiam o logotipo. Ele estima que tenha faturado ‘alguns milhares de libras’ com royaties, no total, até 1982, quando vendeu seus direitos autorais para a banda por £ 26 mil.

Pasche riu ao comentar que ‘provavelmente estaria morando hoje em um castelo’ se tivesse retido o direito autoral, mas disse que sua decisão foi forçada por uma área cinzenta que existia nas leis de direitos autorais da época, referente aos direitos de uso - se uma empresa vem usando algo há anos, e se isso é reconhecido como parte da companhia, ela teria direito de assumir o copyright. O advogado de Pasche lhe disse que ele perderia, se o caso fosse a julgamento, e, por isso, eles negociaram um pagamento.

O’Toole disse que o advogado de Pasche estava certo ao recomendar esse caminho. ‘Há um bom argumento’, disse ele, de que os Rolling Stones poderiam invocar uma ‘licença implícita para o uso do trabalho protegido pelo direito autoral’.

Se Pasche tivesse decidido contestar a reivindicação e perdesse, ele teria ‘sido responsável por suas custas judiciais e também pelas custas judiciais dos Rolling Stones, que provavelmente seriam imensas’.

‘É mais ou menos como a história de Davi e Golias’, afirmou. ‘Um designer brigando sozinho contra a máquina dos Rolling Stones’.

O design original de Pasche pode ser visto hoje no museu Victoria and Albert (que tem conexões históricas com o Royal College of Art, em Londres). ‘O fato de que o logotipo tenha sido desenhado aqui, e retornado a nós, é uma coisa notável. Isso já bastaria para que fosse um objeto de destaque, isso sem levar em conta que ele se tornou um dos logotipos mais conhecidos do mundo’, disse Broackes.

O design ‘original e singular’ de Pasche, como o descreve Blauvelt, perdurou por muito tempo, ainda que tenha sido criado de modo modesto e a custo baixo.

‘E com tão poucas expectativas a seu respeito’, acrescenta Broackes, ‘ele resume os Rolling Stones, a postura de oposição ao autoritarismo, a rejeição às convenções’ –e, é claro, o sex appeal'. Mas ela também aponta para a adaptabilidade do logotipo, como um grande motivo para seu imenso sucesso.

‘Ele foi retrabalhado de inúmeras maneiras’, disse Broackes, com admiração. ‘Não existem tantos logotipos que funcionem bem no selo de um compacto simples, e como pano de fundo em um palco. É realmente maravilhoso’.





Fonte: Joobin Bekhrad,  NYT  |   FSP



(JA, Abr20)