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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Bienal de Veneza começa com ruína de um mundo tomado por polarização e conservadorismo



Evento italiano parece moldado pela reação dos artistas às fake news, contra o populismo


Obra do artista Christoph Büchel em Veneza

A carcaça corroída de um barco de pesca alçado sobre vigas metálicas no pátio do Arsenale, antiga fábrica de navios de guerra, já viralizou como a imagem síntese da Bienal de Veneza mesmo antes de sua abertura para o público, neste fim de semana.

O trabalho do artista suíço Christoph Büchel foi deslocar os destroços da embarcação que afundou há quatro anos no Mediterrâneo, provocando a morte de mais de mil imigrantes que tentavam chegar à costa italiana, para o jardim da maior mostra de arte contemporânea do planeta, uma espécie de cavalo de Troia a invadir a Europa num momento de convulsão no mundo.

Esses restos metálicos, fotografados à exaustão pelo ‘jet-set’ da arte que circula pelas galerias do Arsenale e pelos pavilhões dos Giardini, dá o tom sinistro desta 58ª edição da mostra italiana. Ralph Rugoff, o americano à frente do evento, escolheu um eufemístico ‘Que Você Viva em Tempos Interessantes’ como nome de sua seleção de artistas.

Interessantes, turbulentos, polêmicos e raivosos, qualquer um acrescentaria. À primeira vista, sua exposição que reúne 79 artistas, a maioria deles mulheres, algo inédito na história do evento, é uma grande apologia da ruína em que se transformou um mundo tomado por debates cada vez mais polarizados e o levante de um conservadorismo que não esconde suas tintas agressivas.

‘Os discursos estão tão polarizados em tantos países que parece que aqueles com uma opinião diferente vivem num mundo paralelo. Enquanto isso, plataformas como o Twitter se tornaram um canal de notícias’, diz Rugoff. ‘A arte nesse momento se tornou um reduto de discursos mais ambíguos, multifacetados, um experimento que nos deixa fazer novas associações e ver como nossa visão de mundo é fragmentada.

Os artistas nos pedem que pensemos de jeitos distintos, que defendamos ideias opostas ao mesmo tempo. Não há uma verdade simples’.

Toda a mostra, aliás, insiste nessa ideia. Na esteira de outras exposições dessa natureza, como a Bienal de Charjah aberta em março, o evento italiano também parece moldado pela reação dos artistas à era das fake news, sendo apelidada por uns como a Bienal contra o populismo.

Em tempos de brexit, Bolsonaro, Trump e a escalada da retórica neofascista na própria Itália, artistas tentam refletir nos seus trabalhos o que entendem como distorção violenta da realidade.

Rugoff, talvez atropelado ele mesmo pela overdose de informações do momento atual preferiu não pensar a exposição em torno de um tema central. Tudo, no caso, tem vez nos pavilhões, gerando uma cacofonia às vezes predatória em que um trabalho distorce a leitura do outro. Isso quando o ritmo não é quebrado pela montagem, com paredes de madeira que isolam uma ala da outra, talvez uma alusão a discursos fragmentados ou falas atravessadas.

‘Não existe um tema, mas há leitmotifs', diz Rugoff. ‘Entre eles muralhas, barreiras de toda sorte, duplicidade e realidades espelhadas, máscaras e histórias escondidas, além da relação entre humanos com a tecnologia, que parece se estreitar cada vez mais’.



'Henger' da artista italiana Chiara Fumai

Uma ala importante de sua Bienal de Veneza, de fato, reúne uma série de obras em realidade artificial, além de animações em 3D e trabalhos com personagens criados por máquinas que reagem ao espectador, das fantasmagóricas animações do britânico Ed Atkins às flores tecnicolor da alemã Hito Steyerl, passando pelas criaturas assustadoras do americano Ian Cheng e do canadense Jon Rafman.


Além da mostra principal, que vai até novembro na cidade italiana, 90 países têm representações oficiais nesta Bienal de Veneza. O Brasil, com um pavilhão próprio nos Giardini, leva obras da dupla de artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca.

Cerca de 600 mil visitantes são esperados na 58ª Bienal de Arte Contemporânea de Veneza, que vai de 11 de maio até 24 de novembro.







Fonte:  Silas Martí   |   FSP



(JA, Mai19)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Passado/Futuro/Presente: Arte contemporânea brasileira no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo





José Damasceno, 2000


Fruto da colaboração entre o Phoenix Art Museum (Arizona, EUA) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), a exposição ‘Passado/Futuro/Presente: Arte contemporânea brasileira no acervo do MAM-SP’ exibe na capital paulista uma seleção de 72 obras, resultado do trabalho conjunto de dois curadores: a norte-americana Vanessa Davidson e o brasileiro Cauê Alves.

Com obras icônicas da coleção do MAM, produzidas entre 1990 e 2010, a mostra foi montada primeiro nos Estados Unidos (sendo a primeira dedicada ao acervo do MAM nos EUA), em 2017, e exibiu ao público do país trabalhos brasileiros de arte contemporânea que demonstraram que a ‘brasilidade’ não é um traço essencial da arte brasileira, que pode ser bem diversa no estilo, nos temas abordados e nos suportes utilizados, dando um caráter internacional e cosmopolita à arte produzida no país.

A exposição é organizada em torno de cinco temas: O corpo/O corpo social; Identidades mutáveis; Paisagem reimaginada; Objetos impossíveis; e a Reinvenção do monocromo. Entre os artistas participantes estão nomes como: Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Tunga, Dora Longo Bahia, Waltercio Caldas, Carlito Carvalhosa, Leda Catunda, José Damasceno, Rosângela Rennó, Anna Bella Geiger, Carmela Gross e Nelson Leirner.

A seleção de nomes representa os variados estilos, temáticas e suportes presentes na arte contemporânea brasileira, mostrando que o conceito de ‘brasilidade’ não pode ser definido apenas por uma questão geográfica. ‘Com essa mostra, revelamos aos estrangeiros um Brasil com o qual não estavam familiarizados. Para o público brasileiro, queremos trazer a mesma sensação de surpresa com trabalhos contemporâneos de artistas renomados e também dos menos conhecidos’, afirma o curador Cauê Alves.


Dora Longo Bahia, 2006


Momentos históricos do país, normas sociais, mitos indígenas e transgressões revelam como os artistas brasileiros têm se adaptado à realidade da globalização: ‘Eles falam com fluência em linguagens artísticas com foco na cena global, ao mesmo tempo que sua arte, imbuída tanto de especificidade local quanto de ressonância universal, tornou-se, ela mesma, um ponto de referência internacional’, avalia Vanessa Davidson.

Incluindo pintura, escultura, instalação, fotografia, vídeo e performance, esta exposição apresenta um olhar sobre a prática de artistas reconhecidos como pioneiros da sua geração. A mostra traz trabalhos de artistas seminais, bem como várias âncoras históricas da década de 1970 que ilustram continuidades e rupturas conceituais entre passado e presente. Cinco núcleos estruturam a exposição com limites porosos, permitindo aos visitantes traçar seus próprios caminhos


Por apresentar uma das mais importantes coleções de arte brasileira do mundo, esta exposição pretende contribuir para a continuidade do debate sobre o que é e pode ser a arte brasileira, a partir do acervo do MAM.

Serviço
Exposição 'Passado/Futuro/Presente: Arte contemporânea brasileira no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo'
Local: Museu de Arte Moderna de São Paulo - Parque Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portões 1 e 3); Tel. (11) 5085-1300
Curadoria: Vanessa K. Davidson e Cauê Alves
Data: de 22/01 a 21/04/2019
Horários: Terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até as 18h)
Ingresso: R$7,00. Gratuidade aos sábados. Meia-entrada para estudantes e professores, mediante identificação.


 Fonte:  INFOART sp 




(JA, Jan19)

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Bilionários russos usam fortuna para investir em arte e museus ambiciosos


Magnatas buscam verniz intelectual para suas imagens e ampliar cultura

‘Adeus Terráqueos!’, pintura realizada por Andrey Plotnov em 1979


Ele tinha uma petroleira, um time de futebol, frota de jatinhos e iates e mansões em Londres e Nova York.

Mas quando parecia já não saber mais o que fazer com a sua imensa fortuna, Roman Abramovich, como todo bilionário atrás de um verniz de refinamento intelectual, também começou a comprar arte.

Suas escolhas nessa esfera, espelhando a ostentação obscena de seus barcos atracados em praias do Mediterrâneo, não foram menos chamativas. Os valores das pinturas de Francis Bacon e Lucian Freud que arrematou em leilões bateram recordes, somando dezenas de milhões de dólares.

Então veio o próximo passo. Abramovich, dono do Chelsea, um dos empresários mais ricos da Rússia e homem de confiança do presidente Vladimir Putin, decidiu abrir o seu próprio museu.

No meio do parque Gorki, no centro da capital russa, o seu Garage é um belo caixote de concreto e plástico translúcido desenhado pelo holandês Rem Koolhaas, um dos maiores astros da arquitetura e um queridinho dos super ricos.

Quando mandou construir esse espaço há uma década, o senhor A, como Abramovich é chamado nos corredores do Kremlin, não sabia, mas inaugurava também uma tendência a ser seguida por uma série de oligarcas russos como ele.

‘Na Rússia, sempre houve grandes fortunas destinadas à filantropia, mas agora os ricos aqui entendem que precisam fazer algo mais ligado à sua personalidade’, diz Anton Belov, diretor do Garage, no café do museu. 

‘Eles querem ter os seus nomes associados a algo importante para eles’.

Importam, no caso, nomes como Raymond Pettibon, Ugo Rondinone, Yayoi Kusama, Takashi Murakami, Louise Bourgeois, Juergen Teller e outras estrelas pinçadas do circuito jet-set da arte contemporânea que nunca teriam exposições nos museus públicos do país.

‘Eles queriam mudar sua sociedade, dar um upgrade na cultura visual da Rússia’, diz Belov, falando sobre Abramovich e Dasha Zhukova, a terceira ex-mulher do bilionário, também à frente do Garage.

‘Nosso país ficou fechado durante muitos anos, e agora as pessoas sentem uma fome enorme de cultura. Isso está inspirando os projetos de novos museus bem ambiciosos’.

E caros. Depois que os Abramovich gastaram o equivalente a R$ 105 milhões para construir o seu Garage, fração ínfima de sua fortuna estimada em R$ 31 bilhões, mais um oligarca decidiu flexionar seus músculos financeiros em nome das artes, seguindo uma estratégia muito semelhante.

Leonid Mikhelson, um banqueiro e magnata do gás natural, acaba de escalar o arquiteto italiano Renzo Piano, o mesmo que ergueu o Pompidou em Paris e o Whitney em Nova York, para transformar uma antiga central elétrica à beira do rio Moscou no maior museu privado de arte contemporânea em toda a Rússia.

Suas enormes galerias com teto de vidro e laboratórios e ateliês para artistas mais experimentais vão ficar prontas em dois anos, mas já parecem uma realidade palpável aos olhos dos envolvidos —diretores do museu batizado V-A-C chamam o espaço orçado em quase R$ 250 milhões de uma ‘grande catedral da arte’.

Não é um investimento que possa causar um rombo nas finanças de Mikhelson, que já acumulou R$ 70 bilhões, mas marca uma mudança de comportamento que chega à Rússia depois de fazer a cabeça de bilionários pelo mundo todo.

‘Os russos se parecem muito com os ursos’, diz a italiana Teresa Mavica, chefe do futuro museu, em seu escritório no oitavo andar de um prédio do centro moscovita com vista para as copas das árvores de um parque lá embaixo. ‘Eles dão a impressão de serem devagar, mas de repente eles se despertam e saem correndo’.

O alvo de toda essa corrida, no caso, agora é a arte. Mavica, que vive na Rússia há três décadas, descreve o atual fenômeno dos oligarcas mecenas como a segunda fase de um processo de acumulação de riqueza que começou na era das reformas econômicas da perestroika, ainda nos anos 1980.

‘Os mais ricos investiam as suas fortunas em bens materiais, imóveis, carros, iates, numa tentativa de se ater ao presente’, ela diz.

‘Mas, depois veio o momento em que passaram a pensar em arte como elemento de uma aristocracia intelectual. Este país está redescobrindo o poder do mecenato, uma tradição esquecida’.

Mavica lembra, nesse caso, a história de instituições como o Tretyakov, museu fundado por uma família de ricos comerciantes bem no coração de Moscou no século 19 e que detém algumas obras-primas da vanguarda artística da Rússia.

Mas o país de Putin não podia ser mais distinto da Rússia imperial dos Tretyakov.

Passadas duas revoluções e no auge de uma crise diplomática que opõe Moscou ao resto do Ocidente, Mavica sabe que a arte contemporânea se tornou uma ‘coisa muito perigosa’ numa nação que há tempos já nem disfarça mais o seu combate à liberdade de expressão.


Fachada do Instituto de Arte Realista Russa, em Moscou


O colecionismo dos oligarcas, aliás, reflete suas alianças políticas. Outro espaço aberto por um bilionário local nos últimos anos é uma ode ao auge da era soviética.

Batizado Instituto de Arte Realista Russa, esse museu que ocupa agora uma antiga fábrica têxtil na capital do país reúne as pérolas de sua propaganda socialista.

É um renascimento do jeito de pensar dos mecenas ricos’, diz Nadezhda Stepanova, diretora do museu criado por Alexey Ananiev, banqueiro e empresário de tecnologia.

‘Museus privados são os pioneiros atuais entre as instituições. Somos mais jovens e rápidos’.

Nesse sentido, a banqueira Natalia Opaleva, do outro lado do espectro político, não perdeu tempo e comprou logo um sobrado com uma sacada amarela no centro de Moscou para mostrar sua coleção de milhares de obras de Anatoly Zverev, um dos chamados artistas não oficiais —ou opositores— dos soviéticos.

Sua instituição chamada AZ, as iniciais de seu principal artista, é a mais recente dessa onda de museus de oligarcas, mas não será a última delas.



Fonte: Silas Marti    |    FSP


(JA, Jul18)
   

domingo, 6 de maio de 2018

Museu Afro Brasil homenageia Mestre Didi e Frans Krajcberg em exposições


Paulistanos e turistas têm a oportunidade de mergulhar na história, na cultura e na natureza do Brasil por meio de uma combinação da nova geração de artistas africanos e o olhar europeu na fotografia contemporânea. São as cinco novas exposições abertas no Museu Afro Brasil, da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que se estendem até o dia 11 de junho, no Parque Ibirapuera.
Um Frans, a natureza – Exposição em memória de Krajcberg: Esculturas, relevos e fotografias; Um Deoscóredes – 100 anos do Alapini Deoscóredes Maximiliano dos Santos: Arte e Religiosidade; Os Africanos – O olhar europeu da fotografia contemporânea; África Contemporânea e África e a presença dos espíritos.
Entre os destaques das exposições, a íntima relação com a natureza nas obras de dois artistas já falecidos, o pintor, escultor, gravurista e fotógrafo Frans Krajcberg (1921-2017) e Mestre Didi (1917-2013). A curadoria é de Emanoel Araújo, ex-diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

UM DEOSCÓREDES
Mestre Didi, que em dezembro do ano passado completaria 100 anos de vida, é homenageado na exposição Um Deoscóredes – 100 anos do Alapini Deoscóredes Maximiliano dos Santos: Arte e Religiosidade. Falecido em 2013, Alapini do Ilê Asipa é filho de Mãe Senhora (1890-1967) – iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A mostra celebra a obra de fôlego inesgotável e as tradicionais e potentes esculturas do artista, produzidas com materiais naturais como búzios, sementes, couro, nervuras e folhas de palmeira.
'Repleta de elementos da cultura afro-brasileira, a produção artística de Mestre Didi é como a união da antiga sabedoria, a expressão viva da continuidade e da permanência histórica da criação de uma nova estética que une o presente ao passado, o antigo ao contemporâneo, a abstração à figuração, formas compostas ora como totens, ora como entrelaçadas curvas. Suas esculturas, em sua interioridade, são uma relação entre o homem e o sacerdote que detém o espírito íntimo das coisas e de como elas se entrelaçam entre a sabedoria do sagrado e do profano', define Emanoel Araújo.
Dentro da exposição, é exibido pela primeira vez em São Paulo o documentário Alapini: A Herança Ancestral do Mestre Didi Asipá, de Silvana Moura, Emilio Le Roux e Hans Herold.
UM FRANS
Uma das atrações pode ser combinada com o passeio no Parque Ibirapuera, onde se curte a natureza com estilo. Trata-se da mostra individual Um Frans, que reúne esculturas, relevos e fotografias de Frans Krjacberg, imortalizado pela dedicação à defesa da natureza brasileira. As obras revelam a revolta do artista contra a destruição do planeta. Vale prestar atenção no modo criativo com que utilizava troncos de árvores, folhas e cipós como matéria-prima e fonte de inspiração para suas criações, que o próprio artista costumava chamar de “um grito da natureza por socorro”.
'Frans foi um eterno encantado e um defensor da natureza que trazia dentro de sua alma peregrina as matas e florestas do Brasil', afirma Emanoel Araújo. 'Em sua longa vida artística, Frans esteve intrinsicamente ligado as terras do país, nos convidando a fazer mais forte o seu eco irradiador em defesa das nossas matas, das florestas que ainda nos sobram, como a esperança e a beleza que emanam da sua obra', completa o curador.
OS AFRICANOS
Essa exposição evidencia os muitos fotógrafos que fizeram extraordinários registros dos povos e das manifestações culturais África afora. Os Africanos – O olhar europeu da fotografia contemporânea reúne trabalhos de quatro fotógrafos do chamado velho continente que conseguiram contribuir, com profundo requinte estético, para uma melhor compreensão artística da África atual. São eles: Hans Silvester (Alemanha), Isabel Muñoz (Espanha), Alfred Weidinger (Áustria) e Manuel Correia (Portugal).
ÁFRICA CONTEMPORÂNEA
Um raio-x da atual realidade africana por meio da arte é o que se propõe a fazer a exposição África Contemporânea, que apresenta trabalhos de artistas de países como Moçambique, Benin, Senegal, Angola e Gana. Eles são Dominique Zinkpè, Aston, Soly Cissé, Yonamine, Gérard Quenun, Owusu-Ankomah, Oswald, Celestino Mudaulane, Edwige Aplogan, Francisco Vidal e Cyprien Tokoudagba, criadores conhecidos por exporem as próprias feridas e acumulações por meio de pinturas, esculturas, instalações, desenhos e colagens.
'A arte contemporânea tem grande comprometimento com seu tempo, fala através de metáforas, é menos contemplativa, no sentido clássico da expressão. A arte fala não só do seu tempo, mas de experiências culturais e políticas, e o artista africano, submetido a grandes impulsos, como diferenças econômicas e sociais, extrai daí sua invenção plástica', frisa o curador.
ÁFRICA E A PRESENÇA DOS ESPÍRITOS
Já a mostra África e a Presença dos Espíritos reúne esculturas, máscaras, asens e moedas produzidas em cobre, madeira, tecido, miçangas e fibra vegetal dos tradicionais povos africanos Guro, Fon, Senufo, Iorubá, entre outras etnias. “A arte tradicional africana foi criada por artistas anônimos, dentro dos dogmas que a situa entre a grande criação: o homem, a natureza e os deuses em comunhão espiritual desses diferentes povos”, conclui Emanoel.
Museu Afro Brasil – Av. Pedro Álvares Cabral, Portão 10, s/n - Parque Ibirapuera, São Paulo - SP, 04094-050. Tel.:   (11) 3320-8900
De Ter. a dom., das 10h às 17h
Até 10/6
R$ 6,00, grátis aos sábados


(JA, Mai18)

quarta-feira, 7 de março de 2018

Arte contemporânea ganha galeria online


Plataforma Google Arts and Culture reúne obras de 51 museus, 15 dos quais são brasileiros





Google lança uma coleção de arte contemporânea totalmente digitalizada, disponível para internautas de todo o mundo, e que reúne obras de 51 museus de 25 países.

A página está disponível no Google Arts and Culture, plataforma de arte e cultura criada em 2011. Nela, é possível ter acesso a cerca de 6 milhões de fotos e vídeos de quadros, esculturas, instalações e documentos históricos de forma gratuita.

É a primeira vez que o Google lança uma página dedicada exclusivamente à arte contemporânea dentro do serviço. O objetivo, segundo Alessandro Germano, diretor de parcerias estratégicas da empresa, é tornar esse tipo de arte mais acessível.

‘Nós estamos sempre abertos a todas as formas artísticas’, diz. ‘O Google disponibiliza a plataforma, e os centros culturais, a curadoria’.

Câmeras e outros equipamentos necessários para a digitalização dos acervos são oferecidos pela gigante de tecnologia, embora os museus tenham autonomia para decidir o conteúdo que querem disponibilizar no Arts and Culture.

Na coleção de arte contemporânea, os internautas têm à disposição recursos como imagens, vídeos, vídeos em 360º, artigos e experiências em realidade virtual e no Street View —função em que se ‘caminha’ pelos corredores dos museus.

Muitas das obras foram captadas por meio da Art Camera, uma câmera fotográfica desenvolvida pelo Google que é capaz de registrar até os mínimos detalhes de uma tela —de pinceladas a rachaduras.

Mas Germano deixa claro que a experiência não substitui a visita aos acervos: a plataforma serve, na verdade, como um atrativo.

‘O grande benefício é o de chamar pessoas para os museus’, define Germano.

Ele cita a possibilidade de observar as obras com mais calma e de forma mais aprofundada como alguns dos benefícios do Arts and Culture.

ACESSIBILIDADE

A educação, porém, é o objetivo central da ferramenta.

De acordo com Germano, a ideia por trás da plataforma é justamente descentralizar o acesso à cultura, permitindo que as pessoas conheçam obras e documentos históricos de diversas partes do mundo mesmo estando a quilômetros de distância dos grandes centros culturais.

‘A arte está tão em evidência hoje em dia e, ao mesmo tempo é tão combatida e centralizada, que essa plataforma acaba se mostrando útil’.

Ele diz ainda acreditar que a nova coleção serve como instrumento de desmistificação para a arte.

‘As pessoas têm aquela ideia errada de 'isso [ir a museus de arte contemporânea] não é para mim', explica.

Conhecer as coleções pela internet, segundo ele, incentiva as pessoas a visitá-las, pois mostra que o ambiente dos museus não é hostil.

BRASIL

Dos 51 parceiros que disponibilizaram seus acervos na coleção de arte contemporânea, 15 são brasileiros.

O Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, e o de Museu Arte Moderna de São Paulo estão entre eles, bem como as quatro unidades do Centro Cultural Banco do Brasil.

Entre as mostras disponibilizadas pelo CCBB São Paulo está a instalação ‘Nemo Observatorium’, do belga Lawrence Malstaf, que esteve em cartaz na edição de 2017 do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica.

Um vídeo em 360º dá ao internauta a chance de se sentir dentro da obra, reproduzindo a experiência de quem viu a instalação ao vivo.

Na obra de Malstaf, partículas de isopor flutuavam em volta do visitante, que ficava sentado no centro de um grande cilindro de vidro.

O grande destaque da nova coleção, porém, é o Instituto Tomie Ohtake, que selecionou 50 quadros da artista plástica para serem digitalizados pela primeira vez.

Como o centro cultural não tem acervo fixo, as obras vieram de coleções privadas e da própria família da artista. Algumas delas nunca foram exibidas ao público.

‘São obras que as pessoas não poderão ver de outra forma. A ideia é que se tenha acesso a elas através dessa plataforma do Google’, diz Ivan Lourenço, diretor de negócios do instituto.

Duas exposições temporárias do Tomie Ohtake também foram digitalizadas e ganharam sobrevida: ‘Os Muitos e Um’ e ‘Osso’. Elas podem ser vistas no link artsandculture.google.com/project/contemporary-art.



Texto: Leonardo Sanchez   |   FSP
Imagem:  ‘Nemo Observatorium’, do artista belga Lawrence Malstaf



(JA,  Mar18)

domingo, 28 de janeiro de 2018

Impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo


'A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e auto referencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível'. -  Camille Paglia, em ‘Imagens Cintilantes’

A escritora norte-americana Camille Paglia é conhecida por desafiar as ideias em voga nos mais diversos campos. Professora de Humanidades e Estudos Midiáticos da University of the Arts da Filadélfia, é autora de obras que misturam cultura pop, história da arte, sexualidade e os diferentes meios que tornam o homem um espectador: seja na frente da televisão, de um Pollock ou de sua própria vida.
Em sua mais recente obra ‘Imagens Cintilantes’ – uma viagem através da arte desde o Egito a ‘Star Wars’ (Apicuri, 2014), Camille retorna ao local que a consagrou, a crítica à arte contemporânea. No livro, a autora analisa 29 obras que considera fundamentais na história da arte e afirma, com certa decepção, que os jovens deixaram ofícios como a pintura e a escultura para emprestar sua lealdade à tecnologia e ao design industrial.
Paglia resumiu o panorama que motivou a criação de Imagens Cintilantes:
‘O olho sofre com anúncios piscando na rede. Para se defender, o cérebro fecha avenidas inteiras de observação e intuição. A experiência digital é chamada interativa, mas o que eu vejo como professora, é uma crescente passividade dos jovens, bombardeados com os estímulos caóticos de seus aparelhos digitais. Pior: eles se tornam tão dependentes da comunicação textual e do correio eletrônico, que estão perdendo a linguagem do corpo’.

De acordo com ela, esta degeneração gradativa da percepção/expressão tem um grande inimigo: o mercado – das galerias às instituições de ensino. Segundo a norte-americana, este mercado não é apenas um objeto a ser combatido, mas sim um profundo problema de visão sobre a vida, que parte, também, do espectador. Ensinado a enxergar o mundo apenas de forma política e ideológica, o homem contemporâneo teria perdido a esfera do sensível, do invisível, do metafísico. Este contexto de constante estímulo atinge a sociedade como um todo, como Camille argumenta logo na introdução da obra:
‘A vida moderna é um mar de imagens. Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto explodindo sobre nós por todos os lados. O cérebro, super estimulado, deve se adaptar rapidamente para conseguir processar esse rodopiante bombardeio de dados desconexos. A cultura no mundo desenvolvido é hoje definida, em ampla medida, pela onipresente mídia de massa e pelos aparelhos eletrônicos servilmente monitorados por seus proprietários. A intensa expansão da comunicação global instantânea pode ter concedido espaço a um grande número de vozes individuais, mas, paradoxalmente, esta mesma individualidade se vê na ameaça de sucumbir.

Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver. Em meio à tamanha e neurótica poluição visual, é essencial encontrar o foco, a base da estabilidade, da identidade e da direção na vida. As crianças, sobretudo, merecem ser salvas deste turbilhão de imagens tremeluzentes que as vicia em distrações sedutoras e fazem a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas, parecer estúpida e fútil. A única maneira de ensinar o foco é oferecer aos olhos oportunidades de percepção estável – e o melhor caminho para isso é a contemplação da arte’.

Ainda em seu texto introdutório, Camille critica as instituições de ensino por falharem completamente no ensino da visão que nos tiraria desta vertigem. Se precisamos reaprender a ver, as faculdades de arte, para ela, poderiam ser consideradas mais um empecilho do que uma parceira nesta tarefa.
Veja, o que ela tem dizer sobre isso a partir de excerto do livro Imagens cintilantes:
‘É de uma obviedade alarmante que as escolas públicas norte-americanas têm feito um mau serviço na educação artística dos estudantes. Da pré-escola em diante, a arte é tratada como uma prática terapêutica – projetos com cartolina do tipo “faça você mesmo” e pinturas com os dedos para liberar a criatividade oculta das crianças. Mas o que de fato faz falta é um quadro histórico de conhecimentos objetivos acerca da arte. As esporádicas excursões ao museu, mesmo que haja um por perto, são inadequadas. Os cursos de história da arte deveriam ser integrados ao currículo do ensino primário, fundamental e médio – uma introdução básica à grande arte e a seus estilos e símbolos. O movimento multiculturalista que se seguiu à década de 1960 ofereceu uma tremenda oportunidade para expandir o nosso conhecimento do mundo da arte, mas suas abordagens têm com demasiada frequência sacrificado a erudição e a cronologia em favor de um partidarismo sentimental e de queixumes rotineiros.

Era de se esperar que as faculdades que oferecem cursos de artes liberais dessem ênfase à educação artística, mas não é esse o caso. O atual currículo, de estilo self-service, torna os cursos de história da arte disponíveis, mas não obrigatórios. Com raras exceções, as universidades abandonaram toda noção de um núcleo de aprendizado. Os departamentos de humanidades oferecem uma mixórdia de cursos feitos sob medida para os interesses de pesquisa dos professores. Tem havido um gradual eclipse, nos Estados Unidos, do curso de história geral da arte, que cobria magistralmente, em dois semestres, da arte das cavernas ao modernismo. Apesar de sua popularidade entre os estudantes, que se recordam deles como pontos culminantes em suas vivências universitárias, os cursos gerais são cada vez mais vistos como excessivamente pesados, superficiais ou eurocêntricos – e não há mais vontade institucional de estendê-los para a arte mundial.

Jovens professores, criados em meio ao pós-estruturalismo, com sua suspeita mecânica da cultura, consideram-se especialistas, e não generalistas, e não foram treinados para pensar sobre trajetórias tão vastas. O resultado final é que muitos alunos de humanidades se formam com pouco senso da cronologia ou da deslumbrante procissão de estilos que constituía a arte ocidental.

A questão mais importante acerca da arte é: o que permanece e por quê?

As definições de beleza e os padrões de gosto mudam constantemente, mas padrões persistentes subsistem. Defendo uma visão cíclica da cultura: os estilos crescem, chegam ao ápice e decaem para tornarem a florescer, num renascer periódico. A linha de influência artística pode ser vista claramente na cultura ocidental, com várias interrupções e recuperações, desde o Egito antigo até hoje – uma saga de 5 mil anos que não é (como diria o jargão acadêmico) uma ‘narrativa’ arbitrária e imperialista. Grande número de objetos teimosamente concretos – não apenas ‘textos’ vacilantes e subjetivos – sobrevivem desde a antiguidade e as sociedades que moldaram.

A civilização é definida pelo direito e pela arte. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. Às vezes, a arte glorifica o direito, como no Egito; às vezes, desafia a lei, como no Romantismo.

O problema com abordagens marxistas que hoje permeiam o mundo acadêmico (via pós-estruturalismo e Escola de Frankfurt) é que o marxismo nada enxerga além da sociedade. O marxismo carece de metafísica – isto é, de uma investigação da relação do homem com o universo, inclusive a natureza. O marxismo também carece de psicologia: crê que os seres humanos são motivados apenas por necessidades e desejos materiais. O marxismo não consegue dar conta das infinitas refrações da consciência, das aspirações e das conquistas humanas.

Por não perceber a dimensão espiritual da vida, ele reduz reflexivamente a arte à ideologia, como se o objeto artístico não tivesse outro propósito ou significado além do econômico ou do político.

Hoje, ensinam aos estudantes a olhar a arte com ceticismo, por seus equívocos, suas parcialidades, suas omissões e ocultos jogos de poder. Admirar e honrar a arte, exceto quando transmite mensagens politicamente corretas, é considerado ingênuo e reacionário. Um único erudito marxista, Arnold Hauser, em seu épico estudo de 1951, ‘A história social da arte’, teve bom êxito na aplicação da análise marxista, sem perder a magia e o mistério da arte. E Hauser (uma das influências iniciais do meu trabalho) trabalhava com base na grande tradição da filologia alemã, animada por uma ética erudita que hoje se perdeu.

A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e auto referencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível.

O pós-estruturalismo, com suas origens linguísticas francesas, tem a obsessão pelas palavras e, com isso, é incompetente para interpretar qualquer forma de arte além da literatura. O comentário sobre arte deve abordá-la e descrevê-la em seus próprios termos. Deve-se manter um delicado equilíbrio entre os mundos visível e invisível. Aqueles que subordinam a arte a uma agenda política contemporânea são tão culpados de propaganda e rigidez literal como qualquer pregador vitoriano ou burocrata stalinista’.


Fonte: Fronteiras do Pensamento   |   Revista Prosa , Verso e Arte



(JA, Jan18)