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segunda-feira, 4 de março de 2019

Mostra atualiza o 'olhar amoroso' de Djanira sobre a cultura popular do país



Representação colorida e iconoclasta da vida brasileira marcou obra da modernista agora no Masp


Noite de São João, guache sobre cartão, 1946


Ela foi costureira, vendedora ambulante e plantadora de café antes de se tornar uma das principais referências pictóricas da segunda fase do modernismo brasileiro. Mais conhecida por sua abordagem da cultura popular, Djanira da Motta e Silva, morta aos 64, há 40 anos, ganha agora uma grande retrospectiva —ou melhor, redescoberta— no Masp.

Ao longo dos últimos anos, os curadores Isabella Rjeille e Rodrigo Moura visitaram a antiga casa onde viveu a pintora em Braz de Pina, na periferia do Rio de Janeiro, e seu arquivo documental, alocado na Funarte. Garimparam trabalhos em coleções públicas —a maior parte no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio— e privadas, para retraçar quatro décadas de sua produção e desvendar um pouco melhor os períodos em que ela viveu em Nova York, Salvador e Paraty, no litoral fluminense.

‘Djanira dizia que viajar e pintar eram os verbos do destino dela’, resume Rjeille. ‘E que aprendeu a pintar a partir de uma observação amorosa de todas as coisas’. É esse olhar que se revela nos detalhes dos tecidos, das cerâmicas de Maragogi, no litoral alagoano, ou dos patinadores de gelo na Manhattan da década de 1940.

‘Existe uma mitologia enorme em torno da ida dela a Nova York em 1945’, explica Moura. ‘Partiu sem passagem de volta e acabou ficando quase dois anos. Fez uma exposição na New School e voltou com muita repercussão’.


Retrato de Milton Dacosta, modernista, um de seus mentores, 1946


Na mostra, desfilam cenas de São João e outras festas populares, retratos do mundo do trabalho —agrícola, artesanal, industrial— e fases mais oníricas. Em todos, existe a busca de certa  brasilidade nativa que pautou boa parte da criação no período e diálogos com nomes como Mário Pedrosa, Milton Dacosta, de quem foi companheira, e Jorge Amado.


Estudo para painel 'Candomblé', 1957 - pintado na parede apto. Jorge Amado


Foi para Amado, justamente, que produziu o mural ‘Candomblé’, pintado em 1954 para o apartamento do escritor no Rio. Mais impactante, no entanto, é o trabalho com que venceu o polêmico Concurso do Cristo de Cor, organizado por Guerreiro Ramos e pelo Teatro Experimental do Negro em 1955. Nele, um Cristo escravo é açoitado em pleno Pelourinho de Salvador, a igreja ao fundo, numa mistura de cena religiosa e pintura histórica colonial.


Largo do Pelourinho, 1955 - Jesus aparece como homem negro, escravizado e açoitado em praça pública

‘As pessoas ficaram muito incomodadas com essa ideia da reinterpretação étnica de Jesus Cristo. A Djanira cria uma solução totalmente iconoclasta de não só representar o Cristo como uma figura negra, mas como um escravo’, acrescenta Moura. ‘Qualquer júri minimamente lúcido daria o prêmio a essa pintura’.

O sucesso, no entanto, vai e volta. Longe do diálogo com as vanguardas europeias e da formação acadêmica das ‘damas’ do primeiro modernismo, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, Djanira passou as últimas décadas meio esquecida pela crítica, rotulada como uma pintora folclórica.


Djanira, autorretrato aos 30 anos, 1944

É essa ‘outra’ história da arte moderna brasileira que se conta agora o que faz reviver a sua obra. A mostra, é bom que se lembre, inaugura a programação ‘Histórias das Mulheres, Histórias Feministas’, eixo temático do Masp em 2019, enfatizando a revisão do cânone histórico.

‘Essa agenda de diversidade cultural que existe na pintura da Djanira ajuda a reposicioná-la hoje em dia, claro, mas, se ela não tivesse essa grande pintura, de nada valeria isso’, afirma Moura.

Por falar em agenda, foi Djanira quem na década de 1970, com mais de 60 anos, realizou o projeto ambicioso de retratar a mina do Cauê, na cidade mineira de Itabira, e o impacto para o meio ambiente desta que  seria uma das primeiras zonas de extração da Vale do Rio Doce. Apresentada pela primeira vez em 1976, a série tem uma atualidade que não deixa dúvida que sua obra anda muito viva e reverbera questões brasileiras que estão (ainda?) na ordem do dia.



Djanira da Motta e Silva 
Quando Ter.: 10h às 19h30. Qua. a dom.: 10h às 17h30.  Até 19/5.
Onde Masp - av. Paulista, 1.578, tel. (11) 3149-5959.
Preço Ingr.: R$ 40. Ter.: grátis
Classificação Livre



Onírico, 1950



Fonte: Gabriela Longman   |   FSP


(JA, Mar19)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Passado/Futuro/Presente: Arte contemporânea brasileira no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo





José Damasceno, 2000


Fruto da colaboração entre o Phoenix Art Museum (Arizona, EUA) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), a exposição ‘Passado/Futuro/Presente: Arte contemporânea brasileira no acervo do MAM-SP’ exibe na capital paulista uma seleção de 72 obras, resultado do trabalho conjunto de dois curadores: a norte-americana Vanessa Davidson e o brasileiro Cauê Alves.

Com obras icônicas da coleção do MAM, produzidas entre 1990 e 2010, a mostra foi montada primeiro nos Estados Unidos (sendo a primeira dedicada ao acervo do MAM nos EUA), em 2017, e exibiu ao público do país trabalhos brasileiros de arte contemporânea que demonstraram que a ‘brasilidade’ não é um traço essencial da arte brasileira, que pode ser bem diversa no estilo, nos temas abordados e nos suportes utilizados, dando um caráter internacional e cosmopolita à arte produzida no país.

A exposição é organizada em torno de cinco temas: O corpo/O corpo social; Identidades mutáveis; Paisagem reimaginada; Objetos impossíveis; e a Reinvenção do monocromo. Entre os artistas participantes estão nomes como: Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Tunga, Dora Longo Bahia, Waltercio Caldas, Carlito Carvalhosa, Leda Catunda, José Damasceno, Rosângela Rennó, Anna Bella Geiger, Carmela Gross e Nelson Leirner.

A seleção de nomes representa os variados estilos, temáticas e suportes presentes na arte contemporânea brasileira, mostrando que o conceito de ‘brasilidade’ não pode ser definido apenas por uma questão geográfica. ‘Com essa mostra, revelamos aos estrangeiros um Brasil com o qual não estavam familiarizados. Para o público brasileiro, queremos trazer a mesma sensação de surpresa com trabalhos contemporâneos de artistas renomados e também dos menos conhecidos’, afirma o curador Cauê Alves.


Dora Longo Bahia, 2006


Momentos históricos do país, normas sociais, mitos indígenas e transgressões revelam como os artistas brasileiros têm se adaptado à realidade da globalização: ‘Eles falam com fluência em linguagens artísticas com foco na cena global, ao mesmo tempo que sua arte, imbuída tanto de especificidade local quanto de ressonância universal, tornou-se, ela mesma, um ponto de referência internacional’, avalia Vanessa Davidson.

Incluindo pintura, escultura, instalação, fotografia, vídeo e performance, esta exposição apresenta um olhar sobre a prática de artistas reconhecidos como pioneiros da sua geração. A mostra traz trabalhos de artistas seminais, bem como várias âncoras históricas da década de 1970 que ilustram continuidades e rupturas conceituais entre passado e presente. Cinco núcleos estruturam a exposição com limites porosos, permitindo aos visitantes traçar seus próprios caminhos


Por apresentar uma das mais importantes coleções de arte brasileira do mundo, esta exposição pretende contribuir para a continuidade do debate sobre o que é e pode ser a arte brasileira, a partir do acervo do MAM.

Serviço
Exposição 'Passado/Futuro/Presente: Arte contemporânea brasileira no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo'
Local: Museu de Arte Moderna de São Paulo - Parque Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portões 1 e 3); Tel. (11) 5085-1300
Curadoria: Vanessa K. Davidson e Cauê Alves
Data: de 22/01 a 21/04/2019
Horários: Terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até as 18h)
Ingresso: R$7,00. Gratuidade aos sábados. Meia-entrada para estudantes e professores, mediante identificação.


 Fonte:  INFOART sp 




(JA, Jan19)