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segunda-feira, 8 de junho de 2020

Coronavírus atropela ano em que artistas indígenas tomariam os museus de SP

Mostra no MAM que integraria Bienal é cancelada, e mesmo exposições mantidas correm risco de ter menos público


Pagé-Onça, hackeando a 33ª Bienal de Artes São Paulo, performance de Denilson Baniwa, apresentada no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, em 2018

A cauda de um manto com estampa de onça desliza pelo chão do pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera. Envolto nele, está um homem de pés descalços e dorso nu, o rosto coberto por uma máscara de tigre. Numa mão, ele sacode um chocalho. Na outra, traz flores, que ele deita, uma a uma, em frente a certas fotografias e esculturas.

O homem era o artista Denilson Baniwa, indígena do povo baniwa, da região amazônica. A exposição, a Bienal de São Paulo de dois anos atrás. E a performance, conta Baniwa, por telefone, um protesto contra a forma como os povos originários apareciam naquelas obras —figuras sem voz, presas a um passado imemorial, que não foram convidadas a se representar, ele descreve. Seu pajé-onça servia, assim, como ‘uma energia ancestral, que abre verdades’.
Menos de dois anos depois, Baniwa participaria, desta vez oficialmente, da Bienal, numa mostra da programação estendida do evento no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM.

Organizada por Jaider Esbell, artista da etnia makuxi que participa do evento principal, com os pesquisadores Paula Berbert e Pedro Cesarino, ‘Moquém – Surarî Arte Indígena Contemporânea’ reuniria trabalhos de mais de 50 artistas e coletivos, num esforço de mapear a diversidade da produção indígena pelo país, e divulgar artistas sem acesso a esse circuito.

Com a pandemia do novo coronavírus, no entanto, a exposição foi cancelada pelo museu. Em nota, o MAM afirma que a decisão foi motivada pelos ajustes no orçamento, e na programação ocasionados pela interrupção das suas atividades nesses meses de quarentena.

Já a Bienal diz que vem negociando cada uma dessas exposições paralelas individualmente, de modo a encontrar soluções que levem em conta as necessidades e potenciais de todos os envolvidos. Segundo Esbell, a mostra deve acontecer numa outra configuração, ainda a ser anunciada.

‘Moquém - Surarî Arte Indígena Contemporânea’ não foi a única exposição de arte indígena afetada pela pandemia.

O ano veria essa produção tomar a cidade, com mostras na Pinacoteca e no Sesc Ipiranga e a presença confirmada de três artistas indígenas na Bienal —além do próprio Esbell, Gustavo Caboco, wapichana, e o colombiano Abel Rodríguez, nonuya —, antecedendo um ciclo de exposições sobre o tema no Masp em 2021.

Mas o Masp adiou suas ‘Histórias Indígenas’ para 2023, em razão das dificuldades para fazer empréstimos internacionais no contexto da pandemia, e da alta do dólar, que encareceu as operações. ‘Não queríamos perder a amplitude, a complexidade, e a potência da programação, então decidimos adiar’, afirma Tomás Toledo, curador-chefe do museu.

Além disso, mesmo os eventos mantidos, caso dos demais lembrados, podem ver uma redução significativa de público. Seja porque os museus devem limitar a quantidade de visitantes no pós-pandemia, ou por causa da chance de a população ter medo de frequentar espaços fechados.

Com isso, é possível que o espaço que os artistas indígenas vinham conquistando nos museus diminua, diz Sandra Benites, curadora do Masp —ela foi a primeira indígena convidada para uma função do tipo no país.

‘Vai haver um certo apagamento, um apagamento que afeta o ser e o pensamento indígena, desde a colonização, desde 1500. Mas quem vai perder não somos nós, e sim os brasileiros, que deveriam ter mais diálogo conosco’, ela afirma.


Obra de Denílson Baniwa


Mais do que um enfraquecimento, porém, Denilson Baniwa diz achar que as formas como ele e outros artistas negociam essa presença, pode sofrer mudanças.

Ele conta que, até o início do ano, sua obra tinha um foco muito combativo em relação à história da arte oficial. ‘Hoje, isso não faz mais sentido. Tenho passado por situações complicadas, de perder amigos e mestres. Depois da pandemia, o que vai sobrar é a reconstrução desse mundo, a partir do nosso conhecimento, que é de compartilhar, curar. Mostrar que asfalto, ferro e poluição, não combinam com saúde’.

Ao mesmo tempo, continua Baniwa, essa revisão sistemática, que ele e seus pares vinham empreendendo, não tem mais volta. ‘Este ano, estaríamos escrevendo novos parágrafos, que dariam mais densidade ao nosso pensamento. Mas, o parágrafo que já escrevemos, não dá mais para apagar’.


Jaider Esbell - 'Malditas e Desejadas, 2013


Jaider Esbell, que num dos trabalhos que exibe na Bienal pretende justamente confrontar essa narrativa oficial da arte, também considera que o lugar que a produção indígena conquistou, até agora, é inegociável. O artista diz que a situação pode servir, na verdade, para sensibilizar o planeta de que, sem os povos indígenas, não há futuro.

‘Todo o mundo foi englobado nessas advertências que viemos fazendo, de que o céu vai desabar. Demorou muito tempo, mas agora estamos diante do abismo, e qualquer movimento em falso pode nos fazer pular ou nos segurar ainda mais. Temos tudo para nos segurarmos. E a questão é exatamente como as pessoas vão construir isso’, completa Esbell.

Enquanto isso, o artista participa da organização de uma série de seminários virtuais para o início de julho, que aproveitam a suspensão da agenda, do que ele chama de sistemão, para ouvir as demandas da comunidade indígena. ‘É um convite para essas instituições também. Ao menos, de escuta’, ele afirma.

Ele ainda trabalha em dois grandes eventos, para 2022, quando se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna e, em 2028, centenário da publicação de ‘Macunaíma’, de Mário de Andrade —o mito que deu origem ao romance é do seu povo, os makuxi, e o artista usa no seu trabalho a ideia de que é neto do herói.

Diretor da Pinacoteca, que abrirá ‘Véxoa – Nós Sabemos’ ainda neste ano, Jochen Volz, diz que é preciso lembrar que a presença da arte indígena no museu foi fruto de um longo processo, que incluiu seminários e atividades como os encontros com líderes, durante a retrospectiva de Ernesto Neto no ano passado. ‘Ela não está vindo do nada, mas de uma pesquisa e uma forma de escuta que o museu tem adotado’.

Tanto é que ‘Véxoa’ será inaugurada junto de uma nova exposição permanente, incorporando trabalhos de artistas, como Esbell e Baniwa, à linha do tempo da arte brasileira, acrescenta Volz.

‘Para nós, não é um evento, é um paradigma de uma ideia de diálogo. Então, não vejo como fazer isso no ano que vem. É essencial que o museu abra a nova montagem de acervo’, afirma o diretor, acrescentando que a exposição, adiada para o final de agosto, teve a duração estendida até março do ano que vem, de modo a garantir a visibilidade que merece.

Sandra Benites também diz que, mais do que fazer uma ou outra exposição, o importante é as instituições pensarem junto com os povos indígenas. ‘Há várias formas de estarmos presentes, enquanto curadores, palestrantes, artistas’, ela diz. ‘São imagens que não estão congeladas, e sim em movimento’.

Impacto da Covid-19 nas mostras de arte indígena em São Paulo 

Histórias Indígenas
Tema que guiaria exposições no Masp em 2021, foi adiado para 2023.

Moquém – Surarî Arte Indígena Contemporânea
Mostra no MAM, que integraria 34ª Bienal de São Paulo, foi cancelada, mas pode ser retomada em novo formato.

Sawé
Exposição sobre lideranças indígenas no Sesc Ipiranga foi paralisada, mas será retomada quando o sistema S reabrir.

Véxoa – Nós Sabemos
Mostra na Pinacoteca organizada por Naine Terena foi adiada para final de agosto, mas durará mais tempo que o previsto.




Fonte: Clara Balbi   |   FSP


(JA, Jun20)


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

‘Amar e Viver São Paulo’

No aniversário da cidade, Nilda Luz abre exposição no Pateo do Collegio


Paulistana apaixonada pela cidade onde nasceu, palco de toda a sua existência, Nilda Luz presta homenagem a São Paulo com a exposição individual Amar e Viver São Paulo, aberta para visitação a partir de 25 de Janeiro.
A exposição acontece no Pateo do Collegio. Uma escolha de local significativa: ali nasceu a cidade, há 464 anos, em 25 de janeiro de 1554.
Sendo a data de aniversário de São Paulo sempre um convite para a redescoberta da cidade, a exposição de Nilda Luz torna-se ainda mais relevante. As três dezenas de pinturas da artista apresentadas em Amar e Viver São Paulo oferecem ao espectador a peculiar visão da artista para diversos recortes da cidade
Flagrantes da cidade – Para Nilda Luz, a exposição é, acima de tudo, expressão de seu amor pela cidade. Seu objetivo, afirma, é “despertar a cidadania e o amor por São Paulo”.
Amar e Viver São Paulo reúne 30 obras, cobrindo um arco de tempo de 1984 a 2018. São pinturas de figurativo espontâneo, não acadêmicas, que mesclam um pouco do abstrato com linhas modernas – essa a marca estilística da artista.
A maior parte das obras são pinturas em acrílica, sobre telas de médias e grandes dimensões. Há ainda cinco painéis com pintura sobre tecido (de 250 cm x 180 cm) e dois grandes painéis com pintura sobre lona de caminhão (400 cm x 300 cm) – estes de produção recentíssima, finalizados agora nos primeiros dias deste ano.
Em todas as obras Nilda Luz capta flagrantes da cidade. A artista retrata pontos históricos de São Paulo – da Estação da Luz ao Largo de São Bento, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco ao Palacete Guanabara na Avenida São João. Retrata também cenas da modernidade da metrópole, dos edifícios grandiosos ao Complexo Viário Água Espraiada.
Em duas telas com o título “Casa da Artista”, Nilda Luz deixa de lado a São Paulo dos cartões postais para registrar a singela e bucólica paisagem florida e arborizada que avista das janelas de sua casa-ateliê, no bairro Jardim São Bento.
Completa a exposição a sugestiva série 'Retrospectiva 1984 – Releitura 2004'. Nela, quatro pequenas pinturas em óleo sobre tela aparecem incrustadas em painéis de madeira e então se expandem – as pinturas originais ganham continuidade através de pintura em acrílica sobre a madeira.
Entusiasmada e curiosa – Palavras da artista Nilda Luz sobre seu trabalho:
‘Sou uma artista entusiasmada e curiosa, que procura ver a beleza das coisas e se propõe a registrar aquilo que vê e sente, razão pela qual o tema urbano é o foco principal de meu trabalho. Mas, antes de tudo, sou uma cidadã paulistana apaixonada pela cidade onde nasci e vivenciei minha própria história. 'Amar e Viver São Paulo' convida a olhar a cidade mais atentamente… Ver a imensa riqueza arquitetônica que se esconde em seus antigos edifícios, em seus monumentos, praças e jardins públicos e nas novas e arrojadas construções que surgem a cada dia e aumentam ainda mais a grandiosidade desta cidade’.
Representante da alma paulistana – Trecho de ‘Nilda Luz e a arte do amor à vida’, texto do curador Carlos Zibel:
“A mostra de Nilda Luz nos oferece a rara oportunidade de avaliar a trajetória de uma artista madura, segura de sua arte e portadora de qualidade pictórica insofismável. A exposição comporta-se um pouco como retrospectiva de suas últimas investigações pictóricas. Colocam-se na sequência de pelo menos duas fases anteriores onde sua técnica adquire linguagem definitivamente própria e surge, em momentos distintos, tanto uma tendência à abstração quanto à afirmação privilegiada da temática histórica, de raiz. (…) A aproximação recorrente aos temas históricos com a calorosa acolhida que tem recebido desde os anos 1980 consagram Nilda Luz como uma artista representante emérita das paisagens e da alma paulistana. (…) [Em seu trabalho] afloram pinceladas rápidas em emplastos generosos de tinta carregados de emoção e sensualidade sem prejuízo, entretanto, do valor estético e do equilíbrio no conjunto pictórico, marcas presentes nas elegantes telas da artista e um dos excelentes atributos advindos de sua formação em arte clássica e modernista.”
A artista – Nilda Luz, nascida em São Paulo, 82 anos completados agora em 6 de Janeiro de 2018, é artista plástica com estudos e formação pela Academia Paulista de Belas Artes, pelo Liceu de Artes e Ofícios e pelo Museu de Arte de São Paulo. É também historiadora, escritora e pesquisadora da cultura gastronômica.
Desde 1979, participou de mais de cinquenta Salões Oficiais de Arte, obtendo inúmeros prêmios – destacando-se os do 42º e do 46º Salão Paulista de Belas Artes, organizados pelo Governo do Estado de São Paulo. Teve trabalhos seus apresentados em diversas exposições coletivas e realizou várias mostras individuais – entre elas ‘Olhar São Paulo’, ‘São Paulo no Planalto’ e ‘Retrospectiva 40 anos de Pintura’.
Entre suas obras adquiridas por colecionadores particulares e entidades públicas e privadas estão 6a coleção ‘Via Sacra’, série de quinze telas expostas na igreja da Consolata no Jardim São Bento, a obra ‘É Madrugada em São Paulo’ exposta na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e ainda a tela ‘Fundação da Cidade’, exposta na Cripta do Museu Anchieta como acervo permanente do Pateo do Collegio, em São Paulo.
Como escritora-pesquisadora lançou os livros ‘Volta ao Mundo da Gastronomia na cidade de São Paulo’, ‘Brasil – Turismo Gastronômico’, ‘Brasil, campeão de copa e cozinha’ e ‘Viver é Fácil’.
SERVIÇO
O Pateo do Collegio fica na Praça Pateo do Collegio nº 2, Centro – Estação Sé do Metrô –, tel.: (11) 3105-6899.
A mostra Amar e Viver São Paulo, de Nilda Luz, acontece na Cripta do Pateo do Collegio, área de exposições do Museu Anchieta. Duas das obras – os painéis pintados sobre lona de caminhão – não estarão na Cripta, mas no átrio coberto do jardim.
A mostra tem abertura em 23 de Janeiro de 2018, das 18 às 21 horas.
E estará aberta a visitação a partir de quinta-feira, 25 de Janeiro, até 3 de Agosto – de terça-feira a domingo, das 9 às 16h30.
Ingressos: R$ 8,00. Maiores de 60 anos e aposentados pagam R$ 2,00. A entrada é gratuita para menores de 7 anos e para pessoas com deficiência.
A exposição Amar e Viver São Paulo tem apoio institucional de Pateo do Collegio, Associação Viva o Centro, CNTur-Confederação Nacional do Turismo, e Abresi-Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo.

Imagem:  Artista plástica Nilda Luz. Foto de José Reis

(JA, Jan18)



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Arte é Arte


 'A artista é mulher e negra, mas arte é arte', diz Sônia Gomes

O ano em que completa 70 anos será corrido: Bienal do Mercosul em abril, retrospectiva no MAC de Niterói em junho, e exposição individual no Masp em novembro.
Para Sônia Gomes, porém, não é tempo que falta. ‘A cabeça da gente vai muito além da capacidade Duas mãos? Precisava de mais, muito mais mãos’, brinca em seu apartamento-ateliê, em Pinheiros (zona oeste de SP), para onde se mudou neste ano.
Na sala, cinco metros de seda pura cor de chantili se abrem para todos os lados, presos ao teto por uma roldana. O vestido de noiva guardado por 60 anos e doado à artista está sendo ‘desconstruído’ para ser exposto em Porto Alegre, em abril.
Outras esculturas menores vão sendo terminadas nas paredes, em gaiolas ou na máquina de costura. ‘Não trabalho sob pressão’, diz Sônia, que expôs pela primeira vez aos 46 anos. ‘Sempre gostei de arte, mas precisava cuidar da sobrevivência antes’.
Órfã aos quatro anos da mãe, negra, foi criada pela família do pai, branco -de quem herdou um forte halo azul ao redor da íris castanha.

Em falta na infância, o afeto está na base da arte de Sônia, que já foi comparada à francesa Louise Bourgeois. Com vendas no exterior que no Brasil, ela diz que ainda há muito racismo no país.
‘Fiquei superfamosa este ano na minha cidade natal, mas por causa do U2’, diz, rindo. Com três obras compradas pelo baixista da banca irlandesa, Andy Clayton, ela foi convidada especial no show em outubro, no Morumbi.


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¨      Repórter - É comum que as pessoas lhe mandem objetos, como este vestido de noiva?
Sônia Gomes - Algumas vão às exposições e veem o trabalho e o material que uso, e aparecem no meu ateliê caixas de coisas. São objetos do afeto das pessoas, que elas não querem descartar. Ficam guardadas na gaveta por anos. Então me encontraram.
¨      Sabe algo da história desse casamento?
Não. Também tive essa curiosidade quando esse vestido chegou. O que será que aconteceu com esses amantes, será que estão juntos ainda? Ou separados? Alguém faleceu? Aí tive a resposta: o filho dela me mandou uma foto e disse que os pais eram aqueles do fundo. Vi que eles ainda estão juntos. Porque a gente fica mesmo com essa curiosidade.
¨      Usa seus próprios tecidos nas suas obras?
Comecei assim, desconstruindo roupas. Sempre tive essa inquietude, não queria ir à loja, pegar uma roupa prontinha e usar. Procurava dar um toque meu. O negócio foi ficando tão maior que não dava para vestir. Tinha virado outra coisa.
¨      Até que alguém lhe disse que aquilo era arte?
Eu não sabia bem o que estava fazendo. Sou do interior de Minas e sempre fiz coisas para mim, bijuterias, coisas que só eu que tinha coragem de usar. Um dia levei bolsas a uma loja de artesanato e não quiseram. Na loja comum, senti preconceito, como se dissessem ‘isso é coisa de negro’. Nunca tive a pretensão de ser uma artista. Queria viver, sobreviver do que eu fazia, e não sabia o que era. Nem por isso deixei de extrapolar nas coisas. Continuava a fazer aquilo de que gostava e não o que o mercado sugeria que eu fizesse.
¨      Quando o que fazia foi reconhecido como arte, sentiu-se mais livre?
Achei ótimo. Senti que a arte me buscou, me resgatou daquele lugar. Se não chegasse nesse patamar da arte, era o que eu gostava de fazer. Gosto da coisa manual. Quando estou fazendo, às vezes entro num estado de meditação. Precisava disso para viver. Não tenho religião. Uma vez me falaram no sagrado, fiquei até brava. Mas hoje faço isso como uma religião mesmo.
¨      Qual é o aspecto religioso?
É um estado de transe, de meditação, de não pensar em nada, de comunicação com o cosmo. Às vezes termino um trabalho, olho para ele e choro. E penso ‘gente, quem fez isso?’. Algo que está além. O processo é pensado, mas muito intuitivo, também. Sigo mais a intuição, e o material escolhe o que vai ser. Nunca sei o que vai ser.
¨      E o que o material do vestido escolheu ser?
A primeira coisa de que senti necessidade quando o vestido chegou foi abri-lo. Eu não sabia bem o que procurava, sou aquela artista que primeiro faz e depois pensa. Se pensar antes, limita. O que quero dele é algo bem fluido, bem livre. É um trabalho com desenho, o volume da escultura e a cor da pintura. Transita nessas linguagens. Quero que o vestido fique no espaço e que a pessoa transite nele. Não vai ter costas nem frente, não vai ter direito nem avesso. A arte é essa liberdade, ela é livre. Algo que transcende. Não é preciso estudar arte, as pessoas mais simples são tocadas por ela e respeitam.
Neste ano foquei a galeria, e estava de mudança. Quando a Bienal do Mercosul me contatou, pensei em fazer uma peça com este vestido. Se não fosse o convite, ele ainda estaria guardado.
¨      Esperando inspiração?
Não, esperando espaço. Quando começo a trabalhar, nunca fecho uma obra, vou fazendo vários, e este trabalho tem que ficar assim, aberto. De repente acordo e antes de tomar café tenho que trabalhar nele. Digo que a casa é um ateliê no qual eu tenho um quarto.
¨      Mudou-se para São Paulo de vez?
Uai, São Paulo estava me chamando há muito tempo, e resolvi atender ao chamado. E acho que agora ela me abraçou. Gosto de cidade grande.
E necessito de vida, por isso vim para São Paulo. E precisava ser um lugar, com cachorro na rua, gente, comércio popular, tudo.
Tem até uma feira na minha rua, e eles consertam panela, gente! A panela está boa de jogar fora, mas eles colocam cabo, desamassam. Isso é maravilhoso! Porque a pessoa pode achar que essa comida só essa panela que faz. E então, ela recupera a panela.
¨      Sua arte também faz isso, pega o que foi usado e dá um significado novo.
Sim. E quando vejo aquele monte de panela, sinto que é o contrário da cultura dos Estados Unidos, em que eles jogam tudo fora. Não têm história, não. Tudo troca por um novo.
¨      Vai ter obras suficientes para tantas exposições em 2018?
No MAC de Niterói, será uma retrospectiva. O curador, Pablo [Leon de La Barra, também curador de arte latino-americana do museu Guggenheim (MY)], deve coletar os trabalhos dos colecionadores e museus. No Brasil tem pouco trabalho meu, então não sei como vai ser.
¨      Por que há mais obras suas no exterior?
As vendas são muito maiores lá fora. Por exemplo, fui convidada para a Bienal de Veneza, mas nunca pela Bienal de São Paulo. O Brasil é um país muito racista. Há poucos negros em galerias, embora haja artistas maravilhosos. O espaço não é o mesmo.
¨      Sente esse racismo mesmo depois de ter exposto na Bienal de Veneza?
Sim. Na galeria em que estou, por exemplo, há só dois negros, eu e Paulo Nazareth. Levando em consideração que este é um país negro, deveria ser pelo menos mais equilibrado. Mas está havendo um movimento.
¨      No cotidiano, sente também preconceito?
Em São Paulo não senti. Não sei se é porque o meu meio é mais de artistas, colecionadores. E São Paulo é uma cidade mais cosmopolita. Mas o meu sentido é o ver. Se vou a uma exposição, olho o público: negro só eu, às vezes. Sinto o preconceito aí. Se você vai a um restaurante e olha, os serviçais são negros e nas mesas só brancos. Não sou militante, nunca fui. Minha militância é mais silenciosa. Eu tinha necessidades mais urgentes, tinha que dar conta de mim para depois dar conta do outro. Acho que minha dor eu transformei em beleza e entrego para o mundo.
¨      Acha que a questão racial está na sua arte?
Tem muito, apesar de nunca ter tido essa preocupação com rótulos: arte negra, arte popular, arte contemporânea. Mas essa questão está muito presente no trabalho: o fazer manual, as cores, as amarrações. Descobri isso depois. Onde eu busquei isso?
¨      Onde?
Na vida. E talvez no sangue, na ancestralidade. Porque fui criada numa família branca, dentro de uma religião católica. Mas essa leitura está no trabalho. A artista é mulher e é negra, está explícito isso, e nunca quis sufocar isso.
¨      Então essa identidade negra não tem uma referência familiar?
Minha mãe era negra, e fui criada com minha avó até os quatro anos, quando minha mãe faleceu. Minha avó, que era muito pobre, me levou para a casa do meu pai, que não era casado com minha mãe. Eles tinham condições de me manter, tinham posses. Saí de um casebre e fui para uma casa enorme. Mas mesmo assim eu queria voltar. Porque nessa casa não tive afeto. E na casa da minha avó eu tinha. É esse afeto que eu busco.
¨      Muitos dos seus trabalhos falam sobre memória e sobre o tempo. Qual o peso que o tempo e a idade têm para a Sra.?
Gosto de coisas que tiveram vida. Acho bonita a pátina do tempo, o que ele deixa no material. Esteticamente, acho bonito. O tempo cronológico, cada um tem o seu. Muitos artistas novíssimos já têm seu trabalho super reconhecido, e o meu só agora. O tempo dele é esse. O meu é agora.
Hoje, numa época de aceitação e desconstrução de um monte de valores, a idade tem que entrar nisso. A pessoa que viveu mais não é para ser descartável. Enquanto há vida, há oportunidades, e temos que agarrar essas oportunidades. E a gente aprende o tempo todo. Aprendo com meu assistente, que é jovem. É uma troca. Acho pequeno dizerem que estou velha para isso, isso nunca me barrou.
¨      Por que é o tecido o seu material de trabalho?
O tecido é muito plástico, sabe? Amo tecido. Nunca fui costureira, mas o tecido sempre me chamou. Gosto da história do tecido, da trama, do tear, e por acaso a cidade em que nasci, Caetanópolis, foi um berço têxtil. Convivi muito com a chita fabricada lá, achava lindo aquele estampado.
Mas acho que é bem pela raça. Quando adolescente gostava de fazer amarrações. Nunca quis ter filho, mas queria um só pra carregar como uma africana, amarrado nas costas ou na frente. Acho lindo aquilo. Tenho essa sedução pelo tecido.
¨      O tecido é feminino?
Por mais que tentam desconstruir, bordar, isso é do mundo feminino. Não quer dizer que o homem não possa bordar, mas é muito do mundo feminino.
¨      Não lhe incomoda o fato de o tecido ser mais perecível, de sua obra ser mais perecível?
Sim, já pensei sobre isso, mas isso é trabalho para os restauradores. Se não só vai ter escultura de metal, fica limitado. E a arte é livre. Que registrem, tirem foto, mas não posso deixar de fazer.
Olha a obra que o Bispo [Arthur Bispo do Rosário] deixou. Ele não se preocupava com nada. Nem com comercializar. E esta aí a obra dele. Ele fez para ir com ele, não fez pensando em ficar nesse mundo. Os restauradores é que vão ter que ver o que eles fazem [risos].
¨      Faz suas próprias roupas?
Não. Quando era jovem tentei, porque não gostava de nada do que estava pronto nas vitrines. Na adolescência, talvez por rebeldia mesmo, sempre procurei ser diferente. Talvez já fosse o apelo da arte, de não querer nada muito massificado.
Eu não fazia minhas roupas, mas desconstruía. Minha primeira expressão foi através do vestir, mesmo.
Até hoje gosto de roupa, gosto de pano. Mas nunca tive recursos para ter roupas bacanas, então comprava no brechó e desconstruía.
Até entrei para uma aula de costura, mas durou um dia. Tinha que usar régua, fazer muita conta, e meu negócio é mais livre, é chegar na máquina e bolar.
Outro dia, na minha cidade, um primo falou: 'Sonia, A Sra. está muito normal, de calça jeans, camiseta'. Eu respondi: 'É que agora está tudo no meu trabalho' [risos].
¨      Antes desviava para a roupa.
Sim. Um professor dizia que eu era uma instalação ambulante, de tanto colar, pano na cabeça.
¨      A Sra. se formou em direito, não é?
Sim, por questão de sobrevivência. Sempre me interessei por arte, seja qual for, mas nunca me vi artista, porque nunca soube desenhar. Escola de arte era caro, eu não tinha condições. Por isso a arte veio mais tarde. Primeiro tive que buscar condições, para depois jogar tudo para o alto e fazer aquilo de que gosto, aquilo em que acredito.
A vida da gente é uma coisa só, temos que trabalhar com o que gostamos para ser bom, seja o que for. O resto é consequência.
¨      Na Bienal de Veneza ou na galeria em São Paulo, como percebe as pessoas vendo sua obra?
Às vezes sinto essa resposta do afeto. Porque eles me entregam depois coisas para eu construir a minha poética. Sinto que gostam, eles vêm, me abraçam, me olham. Não precisa falar muito, é o sentir, mesmo.
¨      Trabalha todos os dias?
Sim, é uma necessidade, e gosto de viajar trabalhando também. Nas viagens eu pesquiso, observo. O trabalho é brasileiro como eu. É o casebre com suas coisas bonitas, o erudito e o popular juntos.
¨      A Sra. não gosta dessa classificação arte popular ou erudita.
É difícil. Como diz o [curador do Masp] Adriano Pedrosa, arte é arte.
Gosto muito da ‘Poética do Espaço’ [livro de Gaston Bachelard]; fala coisas em que me vejo, sobre o tempo, o lugar, o aconchego.
¨      Lê o que escrevem sobre seu trabalho?
Leio. Não gosto de me ver, mas gosto de ler o que escrevem sobre o trabalho.
¨      Alguma crítica de obra sua lhe vez vê-la de forma diferente?
Sempre traz algo novo, uma interpretação nova. Porque a obra guarda segredos demais. Isso de alguém ver coisas que nem eu mesma via Eu penso 'não é que tem isso mesmo?'.

Texto: Ana Estela de Souza Pinto    |   FSP

(JA, Dez17)