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quinta-feira, 9 de abril de 2020

Santa que deteve epidemia na Itália está de quarentena no Metropolitan, em NY


'Santa Rosália Intercedendo pelas Vítimas da Praga de Palermo' foi uma das primeiras aquisições da instituição


Anthony van Dyck, 1599-1641   -^-  Autorretrato, 1613-1614, na Academia de Belas-Artes de Viena


Ele se veste bem, e sorri com a confiança da juventude; seu temperamento não é o de alguém que buscaria abrigo. A data é a primavera de 1624, e Anthony van Dyck, 25, navega rumo ao sul, para a Sicília, em resposta a um convite para pintar o retrato do vice-rei espanhol.

Ele está se estabelecendo como retratista internacional dos ricos e famosos. Agora, em Palermo, sente estar à beira de um grande avanço. O retrato é pintado durante a primavera, mas chega o desastre.

Em 7 de maio de 1624, Palermo reporta os primeiros casos de uma praga que mataria cerca de 10% da população da cidade. De quarentena, o jovem pintor flamengo observa o fechamento do porto, a superlotação do hospital, e os gemidos dos doentes na rua.

Enquanto a emergência prossegue, um grupo de franciscanos encontra numa caverna uma pilha de ossos, que podem ter pertencido a santa Rosália, aristocrata de séculos passados. As relíquias são carregadas pelas ruas, e a epidemia se abate. Os cidadãos passam a cultuá-la como a salvadora da cidade.

Van Dyck apanha um autorretrato meio concluído, e o altera para retratar a protetora, flutuando sobre a cidade.



O quadro Santa Rosália Intercedendo pelas Vítimas da Praga de Palermo, de Anthony van Dyck, 1599-1641, hoje no acervo do Met, em Nova York


‘Santa Rosália Intercedendo pelas Vítimas da Praga de Palermo’, hoje parte do acervo do museu Metropolitan, de Nova York, foi uma das primeiras aquisições da instituição, comprado em 1870.

Agora, é claro, Rosália está ela mesma de quarentena, com a intensificação da epidemia do coronavírus. O Met não antecipa reabrir suas portas antes de julho.

Tive a oportunidade de visitar o museu na semana passada, entrando pela porta de serviço, para uma conversa com Max Hollein, o diretor do Met, e Quincy Houghton, diretor assistente para exposições. Rosália continua no lugar escolhido para ela na mostra ‘Making the Met’, cuja montagem estava praticamente concluída.

Rosália parece estar ascendendo com a ajuda de quase uma dúzia de querubins, e feixes de luz atravessam as nuvens escuras que existem no topo do quadro, e iluminam seu rosto.

Van Dyck decidiu retratá-la como uma jovem de cabelos longos, loiros e cacheados, com bochechas coradas, e olhos arregalados de êxtase. Sob ela, fica o porto de Palermo, e como pano de fundo, o monte Pellegrino, onde as relíquias foram encontradas.

Parece certo que Van Dyck viu a primeira dessas procissões, e elas continuam acontecer a cada mês de julho.

O curador Xavier Salomon, que em 2012 organizou uma mostra sobre a estada siciliana de Van Dyck (e hoje é o curador chefe da Coleção Frick), diz que os governantes da Palermo atingida pela praga confiaram tanto em intervenções médicas, quanto em intervenções religiosas, para conter o contágio.

Os moradores oravam aos restos de Rosália, na catedral da cidade, sim, mas observavam o distanciamento social. As pessoas só podiam visitar a igreja um dia por semana, em uma escala determinada por seus endereços.

O jovem Van Dyck, que poderia ter usado suas conexões com a realeza para escapar, ficou na cidade até o fim do surto. Encontrou, em meio à pestilência, um tema mais urgente do que os retratos da realeza que lhe valeriam fama.

Tendo suportado uma quarentena, criou uma encarnação da beneficência em meio ao caos. Pragas são aleatórias e implacáveis. São, como estou descobrindo, especialmente aterrorizantes por não sabermos quanto tempo durarão.

Mas Rosália, flutuando por sobre a Sicília como um balão, promete que o horror da epidemia terminará, um dia. Em momentos sombrios, é preciso acreditar -se não em santos, ao menos na arte.

Ela tem o poder de afirmar a capacidade humana de invenção, mesmo que a morte esteja rondando.

Rosália estará lá nos esperando quando ‘Making the Met’ puder começar, e em julho, assim devemos esperar, nos fará recordar uma Palermo na qual a quarentena acabou.

Por enquanto, o site do Metropolitan pode ajudar. Na Sicília, os fiéis podem orar a Santa Rosália pelo WhatsApp.







Fonte: Jason Farago  | NYT -  FSP




(JA, Abr20)


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domingo, 5 de abril de 2020

A experiência de levar os museus para dentro de casa

Os grandes espaços fecharam as portas, mas 'Mona Lisa', e outros tesouros da humanidade podem ser admirados no isolamento, sob perspectivas surpreendentes


Mona Lisa: folga mesmo só no Louvre

Chegar perto da Mona Lisa, envolta em vidro numa parede só para ela no Louvre, em Paris, exige paciência e traquejo para furar o bloqueio de uma multidão, sempre muito bem paramentada com suas câmeras e smartphones.

Cerca de 10 milhões de pessoas passam por ali todos os anos para reverenciar a obra-prima de Leonardo da Vinci, um ícone renascentista que, para ser apreciado com todas as suas nuances de sfumato (a técnica de borrar o fundo da qual Da Vinci é o mestre), demanda tempo — e a fila não dá trégua. Pois a Mona Lisa anda solitária, trancada dentro do Louvre, que, como todos os mais extraordinários museus do planeta, fechou suas portas pelo necessário esforço para frear a contaminação pelo coronavírus. E, como não poderia deixar de ser, La Gioconda virou meme, de pernas para o ar, e o semblante leve de quem está em pleno dolce far niente.

Isso significa que o quadro ficará no limbo e que a humanidade será privada da arte quando mais precisa dela? De jeito nenhum, garantem os curadores de acervos portentosos como o do Metropolitan, de Nova York. ‘Compartilhamos nossos tesouros para que sirvam de inspiração a gente de todos os cantos que enfrenta esse período tão difícil’, diz Daniel Weiss, presidente do Met.

Muitas iniciativas estão fazendo uso de tecnologia para levar arte às pessoas no confinamento do lar. Não está sendo tudo erguido do zero: nesta era ultra conectada, os grandes museus já promovem há algum tempo passeios virtuais por seus valiosos acervos — mais de 2000 deles, inclusive, podem ser assim ‘visitados’ com a boa ferramenta Google Arts & Culture, que oferece visão de 360 graus e imagens de resolução elevada.

Mas há novidades — e a ideia é compensar em alguma medida a impossibilidade de estar frente a frente com uma pincelada nervosa de Van Gogh, ou com a grandeza cubista de um quadro como Guernica, apresentando novos ângulos de observação a distância e informação de primeira dada pelos próprios curadores.

O Museu Van Gogh, em Amsterdã, preparou roteiros temáticos para quarentenados de todos os tipos — crianças, leigos e especialistas — e criou um aplicativo que permite ir removendo, a cada clique, uma camada de célebres telas do mestre holandês, de modo a revelar segredos por trás delas que a olho nu jamais se alcançariam.

No caso de Guernica, o Reina Sofía, de Madri, disponibiliza uma ferramenta que disseca detalhes da tela, em que Pablo Picasso expôs a carnificina da Guerra Civil Espanhola, em 1937, parte do projeto #ElReinaEnCasa.







Consumir arte no laptop, ou na tela de um celular, evidentemente, é uma redução da experiência estética que só a presença da obra — sua textura, seu ritmo, seus dégradés — pode trazer. A sensação de ir se afastando pouco a pouco de uma tela de Monet até entender a inteireza da imagem impressionista, é única e ninguém pretende substituí-la por um tour virtual. 

A questão que se impõe agora é que, mesmo reclusa, a população mundial tenha acesso à boa arte, e o faça do jeito mais rico possível. Por força das circunstâncias, pode-se acabar extraindo daí algo desejável: na santa paz de suas casas, as pessoas atentam para ângulos que, não raro, escapam ao olhar devido à pressa. ‘Elas estão sendo provocadas a ver a arte de maneiras diversas. Isso provavelmente deixará o senso de observação mais aguçado’, reflete o filósofo Francisco Raz­zo. Quando os museus voltarem à ativa em todo o seu esplendor, o passeio pelas galerias poderá vir a se tornar um programa ‘mais pleno’, acredita.

Filósofos da arte a definem como a expressão da busca humana por dar significado à existência, pensamento enunciado primeiro por Platão. Em sua tortuosa e brilhante caminhada, Van Gogh dizia: ‘Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas’.

A arte também é uma maneira de a civilização deixar viva a memória, retratando o caminhar da história, como enfatizou o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831). Uma terceira face dela pode se revelar bastante útil neste mundo, posto do avesso pela pandemia do coronavírus. 

Uma análise de 3000 pesquisas sobre os benefícios da arte para os indivíduos, conduzida pela University College de Londres, concluiu que, naqueles que têm contato constante com alguma forma de expressão artística, os níveis de ansiedade baixam consideravelmente, e até as respostas imunológicas melhoram. Mais uma razão para não dar vida boa à Mona Lisa.



Mona Lisa em época de coronavírus




Fonte: Ernesto Neves   |  Veja




(JA, Abr20)




sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Pintura que se tornou a mais cara do mundo de um artista vivo


Retrato de um artista (Piscina com duas figuras)’, pintado pelo britânico David Hockney nos anos 1970, desbancou escultura de Jeff Koons



Na quinta-feira (15), uma pintura de 1972 do artista David Hockney foi vendida em Nova York no leilão da empresa Christie’s, um dos principais do mundo da arte. O valor pago por ela foi o recorde de preço alcançado por um artista vivo na história: US$ 90 milhões (cerca de R$ 336.528.000).
Desde 2013, o posto era ocupado por uma das esculturas da série ‘Balloon Dog’, do americano Jeff Koons, vendida por US$ 58,4 milhões. Já era esperado que a pintura de Hockney desbancasse a marca.
O quadro em questão, chamado ‘Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)’ – ‘Retrato de um artista (Piscina com duas figuras)’, é considerado um dos trabalhos mais misteriosos do artista britânico.
A pintura de Hockney, que é gay, alude à vida afetiva dos homens homossexuais. Traz, como muitos dos quadros do artista, aspectos de sua própria vida à tela.
Foi pintada em Londres, após o término de um relacionamento, baseada em fotografias de uma piscina no sul da França, de acordo com uma reportagem do jornal The New York Times. A figura parada em pé, do lado de fora da piscina, vem de outras fotografias tiradas por Hockney de seu ex-namorado no parque londrino Kensington Gardens.
‘Em um mercado de arte movido por troféus, Portrait of an Artist é possivelmente o melhor Hockney de todos’, comenta Nate Freeman Repórter especial do site Artsy
Ao New York Times, o curador de uma retrospectiva recente da obra de Hockney no Museu Metropolitan, em Nova York, Ian Alteveer, disse que a pintura foi salientada no catálogo da exposição por ‘demarcar uma mudança na representação da água pelo artista’, e por representar o auge dos retratos duplos de Hockney.
Para Alteveer, a pintura é, além disso, uma despedida do relacionamento que havia terminado, e uma grande demonstração do interesse de Hockney ‘na psicologia entre duas pessoas que ele vinha tentando capturar’.
Quem é o artista
Pintor, desenhista e cenógrafo, Hockney despontou no meio artístico do Reino Unido no início da década de 1960. Embora seja hoje, aos 81 anos, um artista de popularidade expressiva, Hockney nem sempre teve seu trabalho de cores fortes e formas realistas, levado a sério.
Hockney perdeu a audição, mas continua a pintar e a fazer experimentações com arte digital.
O resgate da reputação e do valor comercial de sua obra se deve a retrospectivas recentes de sua produção em grandes museus, incluindo o já mencionado Metropolitan e o Tate Modern, em Londres.

Com o leilão da Christie’s, a pintura de David Hockney se tornou o artista vivo mais caro do mundo

Antes do quadro arrematado no dia 15 de novembro no leilão da Christie’s, a pintura a ser vendida pelo preço mais alto entre as obras do artista fora ‘Pacific Coast Highway and Santa Monica’, por US$ 28,5 milhões, em maio de 2018. A marca de US$ 10 milhões por um quadro de Hockney foi ultrapassada em 2016.
Comprovando a valorização que os trabalhos do britânico vem sofrendo, a venda de ‘Retrato de um artista’ é seu quarto recorde em leilões em um período de dois anos.
 Leilões mais inclusivos
O preço alcançado por determinado tipo de obra ou artista é importante porque valoriza obras do mesmo artista e de outros artistas que façam parte de uma mesma tendência, geração, gênero ou grupo racial.
O leilão de obras contemporâneas e do pós-guerra realizado pela Christie’s em 15 de novembro também sinalizou para a valorização de artistas mulheres e negros.
Com poucas obras-primas à venda e preços estratosféricos de nomes já estabelecidos no mundo da arte, colecionadores expandiram, em leilões recentes, o interesse por nomes menos consagrados.
Os preços das obras de mulheres e afro-americanos, que também vem sendo mais expostas nos museus americanos, também tiveram alta recorde nos leilões da Christie’s e da Sotheby’s, outra das casas de leilão de arte mais importantes do mundo.
 O quadro ‘Cultural Exchange’, de Robert Colescott, primeiro artista negro a representar os EUA na Bienal de Veneza, foi vendida por US$ 912.500, o triplo o valor máximo alcançado por uma obra de Colescott até então.



Fonte: Juliana Domingos de Lima     |       =Nexo

(JA, Nov18)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Exposição no Metropolitan mostra poder da igreja na moda



Evento reúne peças de estilistas feitas sob influência do catolicismo e tesouros do Vaticano


Manto de seda dourada de Yves Saint Laurent veste a Virgem
 A Virgem veste Yves Saint Laurent. Na ala de esculturas medievais do Metropolitan, seu manto de seda dourada brilha sob os holofotes, um dos pontos altos da exposição do museu nova-iorquino sobre como o imaginário católico influenciou a moda.


O look extravagante criado por esse estilista francês foi mesmo desenhado para vestir a imagem da santa no altar de uma igreja, mas ressurge agora entre outras representações de Maria ao longo dos séculos e criações de outros gigantes da moda para fins menos divinos, dos desfiles nas passarelas às noites na boate.

Na maior mostra de vestimenta de toda a sua história, com 150 looks dos maiores estilistas do último século e 40 peças que jamais haviam deixado a sacristia da Capela Sistina, em Roma, o Met parece querer provar que os papas, como os artistas, são os mais fervorosos devotos da beleza.

Não é uma beleza sem culpa. É fato que alguns homens no comando do Vaticano já declararam indecentes certos luxos excessivos na indumentária, mas esse nunca foi um problema para esses estilistas.

Nem para o museu, que arma em torno de ‘Heavenly Bodies’, corpos celestiais, como batizou a exposição, um dos maiores espetáculos. É desses momentos —deslumbrantes e cafonas— que só a união do marketing das maisons, a indústria das celebridades e uma coleção de arte estonteante pode orquestrar.

Toda organizada em torno do baile de gala anual comandado por Anna Wintour, a todo-poderosa editora da Vogue americana, o evento tem como espécie de embaixatrizes a cantora pop Rihanna e a estilista Donatella Versace.
Criação do estilista Gianni Versace


São do irmão desta última, aliás, os looks reluzentes que abrem a mostra. No alto de pedestais, manequins com peças metalizadas que Gianni Versace desenhou há duas décadas inspirado pelos mosaicos de antigas igrejas italianas são como sentinelas de olho nas peças de arte bizantina naquela ala do Metropolitan.

Jaqueta com cruz de couro dourado cravejada de cristais sobre o peito, do francês Chirstian Lacroix


Mais adiante, uma jaqueta de couro do estilista tem cruzes douradas com pedras preciosas que lembram os objetos de culto dos altares. Outra peça parecida, criada por Christian Lacroix, está exposta logo ao lado, com uma cruz de couro dourado cravejada de cristais sobre o peito.


Mas o que surge nas galerias seguintes é bem mais memorável. Peças do francês Jean Paul Gaultier, um dos nomes mais irreverentes da moda, dominam uma ala da exposição estruturada como uma procissão, criando um paralelo entre rituais católicos e o aspecto teatral das passarelas.

Lá está um vestido de seda preto com um ícone bordado que abre e fecha, como os relicários dos altares ou trípticos medievais. Quando abertas, as abas de tecido revelam uma imagem de Cristo ao mesmo tempo em que emolduram os seios de quem veste, criando um decote sagrado e profano.
Vestido criado por Pierpaolo Piccioli para a Valentino, 2017


No centro da galeria, como bispos e cardeais desfilando pela nave da igreja, estão modelos mais etéreos, como um vestido criado no ano passado por Pierpaolo Piccioli para a Valentino, uma enorme onda de tecido vermelho que lembra rubros mantos clericais.




Toda essa leveza, no caso, tem a ver com a ascensão —no sentido religioso— da Virgem Maria. Noutro ponto dramático da exposição, um manequim preso no alto de um arco na entrada da galeria veste um look branco e azul-celeste de Thierry Mugler.

Nos anos 1980, o estilista francês vestiu uma modelo com a peça e a pendurou do teto sobre uma nuvem de gelo seco como o fim triunfal de um de seus desfiles em Paris.

Mas, enquanto vestidos se esforçam para construir uma sensação de riqueza, o verdadeiro núcleo duro do luxo na mostra está em duas galerias no subsolo do Metropolitan.

Nessa espécie de cripta, estão as joias do Vaticano —tiaras e crucifixos de ouro cravejados de diamantes, pérolas, safiras, esmeraldas e cristais.



Mais impressionante das peças, a tiara papal usada por Pio 9º tem 19 mil pedras preciosas em três níveis de adornos, um bolo de noiva a traduzir todo o poder eclesiástico.

Os mantos bordados de seda colorida feitos no século 19 para o mesmo papa têm efeito visual parecido, com fios reluzentes que dão um aspecto quase holográfico aos episódios bíblicos retratados neles.

Mesmo peças menos extravagantes ilustram a relação do Vaticano com os estilistas. Entre elas, a túnica e os marcantes sapatos vermelhos usados pelo papa João Paulo 2º, sinal de que moda e religião permaneceram entrelaçadas.



Texto: Silas Marti   |   FSP



(JA, Mai18)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Mostra em Nova York traça retrato íntimo de Michelangelo


Vermelho talvez seja a cor mais lembrada pelos que saem da mostra de Michelangelo agora no Metropolitan. Não um vermelho vivo, mas o tom opaco do giz, algo entre a carne e o mármore. Seus anjos, homens e monstros tomam forma aos poucos, em traços vaporosos, nos mais de cem desenhos dessa exposição.

Em grande parte estudos e esboços, essas obras reunidas até o mês que vem, em Nova York, revelam os métodos e a arquitetura secreta por trás dos trabalhos de um dos maiores artistas da história.
Suas figuras ali mudam de posição e escala -montanhas de músculos sobre a folha de papel que lembram às vezes deslizamentos de terra quando o artista mudava de ideia sobre seus contornos e não apagava versões anteriores.
Nesse sentido, estar diante desses trabalhos é como observar o mestre renascentista em seu ateliê, uma intimidade reforçada pela escala das obras. Esses pequenos desenhos ficam quase na penumbra –frágeis demais para aguentar um holofote– e exigem que os espectadores cheguem muito perto deles.
É esse contato com os mínimos detalhes que acaba revelando a monumentalidade de sua obra. Morto aos 88, em 1564, Michelangelo atravessou um momento de transformação na história da arte em que o desenho e a perspectiva se tornavam os alicerces inabaláveis de um universo retratado à base da fricção entre a anatomia e a geometria.
Escultor, arquiteto e anatomista, Michelangelo trabalhava sobre a folha de papel como quem construía um mundo real e físico, os traços como linhas mestras de algo que poderia ter vida própria.
E essa mostra deslumbrante do Metropolitan revela os momentos em que as figuras deixam de ser abstrações ou coisas mentais para respirar pela primeira vez –músculo por músculo, fibra por fibra.
Em sequências quase cinematográficas, em que um traço se sobrepõe a outro até as linhas tomarem corpo em esboço atrás de esboço, surgem figuras como o Adão do teto da Capela Sistina, um jovem arqueiro, os soldados amontoados da batalha de Cascina e coleções de braços, pernas, mãos, pés e olhos, como um catálogo de corpos infinitos.
Michelangelo, que desenhava seus homens começando pelas pernas fortes como colunas de sustentação de um templo, não escondeu o desejo que sentia pelo corpo masculino, um encanto por formas e volumes robustos que frequentam sua obra dos primórdios até o fim.
O número estonteante desses desenhos reforça essa impressão, mas outra ala belíssima da mostra, onde estão retratos de alguns dos homens pelos quais Michelangelo se apaixonou, revela como o artista também se deixou levar por emoções e sentimentos que vão além de um estudo anatômico cerebral.

Seu retrato do jovem aristocrata Andrea Quaratesi, que parece olhar para o artista que o desenha, é de uma força sublime. Em vez de músculos, é um rosto delicado, de espontaneidade chocante, que domina o quadro.
Toda a dureza arquitetônica de Michelangelo se dissolve nesses retratos ao mesmo tempo firmes e reticentes, como se fosse mais fácil desenhar deuses musculosos em torções dramáticas do que fixar o poder desarmado do olhar desses jovens amantes.
Tanto que em seus esboços quase nunca aparecem rostos. Enquanto pernas, braços, costas e peitorais têm contornos nítidos, nunca há uma face que possa dizer seu nome. É como se Michelangelo estivesse mais à vontade com a pedra do que com a carne que tentava imitar no mármore.


MICHELANGELO
QUANDO de dom. a qui., 10h às 17h30; sex. e sáb., 10h às 21h; até 12/2
ONDE Metropolitan, 1.000 5th Ave., Nova York; informações em www.metmuseum.org
QUANTO US$ 25 (ou R$ 78,50)
AVALIAÇÃO ótimo


Texto: Silas Marti
Imagens:   ‘Retrato de Andrea Quaratesi’, esboço concluído em 1534 por Michelangelo
                  ‘Punição de Tício’
                  ‘Estudos para a Sibila Líbia no Teto da Capela Sistina’



(JA, Jan18)