quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Regina Duarte




Regina Duarte, no início de sua trajetória em novelas ainda na TV Excelsior


Depois de ocupar o estrelato por décadas, ela estava sumida, aqui e ali, esporadicamente aparecia na mídia, principalmente de alguns anos para cá, quando o Brasil passou a viver intensos embates políticos e então, com extrema coragem, passou a dar sua cara a tapa e, nesse ano, voltou a ocupar o noticiário, só que agora numa outra posição, não mais na parte de cultura e entretenimento, onde permaneceu por décadas, mas no noticiário político. Hoje, a atriz e produtora cultural, e secretária nacional da Cultura do governo Jair Bolsonaro, Regina Duarte, completa 73 anos de idade.

Natural da cidade de Franca, interior de São Paulo, em 5 de fevereiro de 1947, era filha do militar cearense, Jesus Nunes Duarte, e da pianista Dulce Blois, natural de Pelotas, Rio Grande do Sul. Era a sexta dos cinco filhos do casal: Maria Lúcia, Cláudio, José, Flávio e Teresa.

Viveu dos seis aos dezoito anos em Campinas. Sua carreira teve início aos quatorze anos de idade como atriz amadora no grupo TEC (Teatro do Estudante de Campinas). Estreou interpretando a Compadecida em Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Participou da montagem de Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, Rapunzel, Natal na Praça e O Tempo e os Conways, de Priestley, e Via Sacra, de Ghéon.

Em 1964 apareceu em cartazes para uma campanha de sorvetes. Em seguida, fez anúncio para a televisão de uma marca de refrigeradores. Sua formação incluía aulas de balé clássico com Mozart Xavier, declamação com Maria Silvia Ferraz Silva, e um curso de três meses com Eugênio Kusnet sobre o método Stanislavski.



Regina, ao lado de Tarcísio Meira, em A Deusa Vencida, na TV Excelsior, em 1965


Regina estreou em 1965 na TV Excelsior, atuando na telenovela ‘A Deusa Vencida’, de Ivani Ribeiro, sob a direção de Felipe Duarte de Jesus, e no teatro, no mesmo ano, sob a direção de Antunes Filho na montagem de ‘A Megera Domada’, de Shakespeare.

Durante sua carreira na TV Excelsior, 1965-1969, interpretou personagens marcantes, como a jovem Inezita, sua primeira protagonista, em ‘As Minas de Prata’, telenovela, 1966; a dócil e ingênua Carolina em ‘O Terceiro Pecado’, 1968; ou a extraterrestre Melissa em’ Os Estranhos’, 1969, seu penúltimo papel na emissora.


Regina em sua primeira novela na TV Globo, Véu de Noiva, em 1969


Em 1969, devido uma grave crise financeira, a TV Excelsior foi obrigada a dispensar diversos atores, incluindo Regina, sendo que a emissora faliu meses depois. Naquele mesmo ano a atriz assinou com a Rede Globo para protagonizar ‘Véu de Noiva’, sob a direção de Daniel Filho. Em seguida, em meados de 1970, interpretou a doce Ritinha, em ‘Irmãos Coragem’, um marco em sua carreira.

Ganhou a alcunha de ‘Namoradinha do Brasil’ quando fez a telenovela ‘Minha Doce Namorada’, em 1971, interpretando a órfã Patrícia, na TV Globo. Em seguida interpretou a escultora Simone Marques, em ‘Selva de Pedra’, 1972. Um grande marco em sua carreira, principalmente por ser a primeira trama a bater 100% de audiência em todo o país.

Depois, vieram outras mocinhas, como a aeromoça Cecília em ‘Carinhoso’, telenovela. No meio da trama, Regina descobriu estar grávida de Gabriela Duarte, porém teve que esconder sua gravidez da imprensa, já que não era conveniente para sua personagem engravidar. Por isso, sua personagem passou a aparecer apenas em plano fechado, e a trama foi encurtada em dois meses.

Na época, Regina estava insatisfeita com a alcunha de ‘Namoradinha do Brasil’, já que este título a aprovisionava apenas em interpretar as heroínas das novelas, não a possibilitando interpretar outros papéis. Em 1975, disposta a romper o título que era vinculado à sua imagem, fez a prostituta Janete em ‘Réveillon’, um divisor de águas em sua carreira teatral. Nessa peça, que estreou no Teatro Sesc Vila Nova, na Vila Buarque, em São Paulo, Antonio Rudolf, fez o cenário. A imagem de ‘Namoradinha do Brasil’ foi se rompendo os poucos.

A ruptura que se propôs a fazer para romper com o rótulo de namoradinha do Brasil teve início com sua atuação na telenovela ‘Nina’, em 1977, consolidando-se de vez o fim da imagem de ‘Namoradinha do Brasil’ com o seriado ‘Malu Mulher’, de 1979, onde interpretava uma mulher divorciada e independente, levando diversos grupos conservadores a protestarem.

Em 1979 apresentou o especial ‘Mulher 80’, que trazia entrevistas e musicais sobre o papel feminino na sociedade.

Entre 1984 e 1985 deixou a Globo para protagonizar o seriado ‘Joana’ na Rede Manchete, uma vez que desejava há muitos anos trabalhar com Manoel Carlos, o autor da obra.


Interpretando a marcante Viúva Porcina, em Roque Santeiro em 1985, com Lima Duarte


Viveu personagens antológicos na TV como a Simone Marques de ‘Selva de Pedra’, 1972, a Malu do seriado ‘Malu Mulher’, 1979-1980; a dupla personalidade Luana Camará/Priscila Capricce em ‘Sétimo Sentido’, 1982; a politicamente correta Raquel Accioli em ‘Vale Tudo’, 1988, a espalhafatosa Maria do Carmo de ‘Rainha da Sucata’, 1990; a extravagante Viúva Porcina em ‘Roque Santeiro’, 1985; além de ter sido a atriz que mais deu vida às Helenas de Manoel Carlos, nas novelas ‘História de Amor’, 1995;  ‘Por Amor’, 1997; e ‘Páginas da Vida’, 2006.

Em 2008, viveu a cômica Waldete Maria, uma mulher despachada, divertida, pragmática e sem papas na língua, na novela ‘Três Irmãs’.


Em cena na peça ‘Volta ao Lar’, do dramaturgo Harold Pinter, ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura


Em 2011, Regina retornou à TV em um papel de destaque, a enigmática e fútil ricaça Clô Hayalla no remake de ‘O Astro’. De acordo com a própria Regina, Clô é um dos papéis mais marcantes e importantes de sua carreira, já que foi uma das poucas vilãs que a atriz interpretou em novelas.

Em 2014, a atriz foi anunciada no elenco de ‘Boogie Oogie’, porém desistiu do papel na novela. A expectativa era que a atriz interpretasse a avó da protagonista - papel de Ísis Valverde -, e repetisse par romântico com Lima Duarte, com quem contracenou em ‘Roque Santeiro’.

No mesmo ano, fez uma participação especial em ‘Império’, novela de Aguinaldo Silva, no papel de Maria Joaquina, uma compradora de diamantes que participa dos quatro primeiros capítulos da trama. Ainda, em 2014, foi anunciada no elenco de ‘Sete Vidas’, num papel muito diferenciado na sua longeva carreira, a de uma homossexual.


No Teatro ao lado de Leopoldo Pacheco em cena de 'O Leão no Inverno'


Em 2017, fez uma participação especial como ela mesma na novela ‘Pega Pega’. Viveu a personagem Madame Lucerne na novela ‘Tempo de Amar’.


Regina com a sua filha, a atriz Gabriela Duarte


Regina foi casada entre 1969 e 1975 com o engenheiro Marcos Flávio Franco Cunha, com quem teve dois filhos: o diretor André Duarte, 1970, e a atriz Gabriela Duarte, 1974.

Regina atuou com a filha em três ocasiões: nas telenovelas ‘Por Amor’ e ‘Top Model’, onde interpretaram igualmente mãe e filha, e na minissérie ‘Chiquinha Gonzaga’, onde dividiram o mesmo papel em fases diferentes.

Em 1976 começou a namorar o diretor Daniel Filho, com quem foi casada entre 1978 e 1979. Entre 1980 e 1982 namorou o publicitário argentino Daniel Gómez, com quem teve seu terceiro filho, o cineasta João Gomez.

Em 1983 se casou com o diretor Del Rangel, permanecendo até 1995 Em 2000 começou a namorar o fazendeiro Eduardo Lippincott, com quem mantém uma união estável desde então.



Discursando na Avenida Paulista defendendo o impeachment de Dilma Roussef, em 2015


Em paralelo a sua carreira, Regina sempre se notabilizou, notadamente nos últimos 30 anos pelo seus constantes posicionamentos políticos, concordando com suas posições ou não, sempre deu a sua cara a tapa, como quando em 2002, revelou o medo da eleição de Lula, revelando durante um bom tempo estar mais alinhada ao PSDB, sem necessariamente ser militante, e até por isso, sem jamais se furtar a mudar de opinião.

Com o PT no poder, rapidamente foi claramente sendo isolada por grande parte da classe artística que causou alguns prejuízos na sua carreira, mas nem por isso, Regina, demonstrando muita personalidade, recuou. Nesse período com o envolvimento do PSDB em esquemas de corrupção revelados pela Lava Jato, Regina foi buscando se alinhar ao conservadorismo que começou a se formar na sociedade brasileira e na defesa intransigente do combate a corrupção, dando seu testemunho varias vezes a favor dessa causa, sendo aliás uma das poucas vozes declaradas do meio artístico nessa direção infelizmente.




Atualmente, como secretaria da cultura


Em janeiro desse ano, de maneira um tanto inusitada, foi convidada para ocupar a Secretaria da Cultura do Governo Bolsonaro, Sua decisão foi confirmada em 29 de janeiro de 2020, e passou a ocupar o cargo de secretária especial da Cultura do Brasil do governo de Jair Bolsonaro. 

Em função de exercer uma secretaria de governo, o contrato com a Rede Globo foi suspenso. Aos 73 anos de idade, com uma carreira consagrada, e já estando no imaginário e na história afetiva de milhares de pessoas de diversas gerações de brasileiros, certamente, enfrenta o maior desafio de sua vida. As poucas semanas que está no cargo já demonstram claramente o imenso desafio que terá pela frente. Parabéns Regina Duarte.



Fonte: Antonio Marcos Rudolf



(JA, Fev20)





Antigo Egito, do Cotidiano à Eternidade



Esfinges, caixões e até uma múmia estão entre as 140 peças emprestadas ao CCBB-SP  pelo Museu Egípcio de Turim


Estela funerária de Mekimontu 18ª dinastia, 1550-1295 aC 


Quem entrasse numa pirâmide no Antigo Egito, mais ou menos 4000 anos atrás, atravessaria um longo corredor até chegar a uma antessala de paredes decoradas. Numa mesa baixa, deixaria oferendas: pão, azeite, vinho.

Afinal, o faraó, cuja câmara ficava depois da antessala, separada por uma porta baixinha, poderia estar com fome mesmo depois da morte. Se assim fosse, sua alma poderia comer petiscos e perambular por aí, assumindo a forma de um pássaro com cabeça humana, enquanto aguardava o julgamento final.

Apesar de estarem dispostos de forma diferente, todos esses objetos —mais uma múmia— podem ser vistos, entre réplicas e originais, em ‘Egito Antigo: Do Cotidiano à Eternidade’, que chega ao CCBB paulista agora.

Finalizada no início deste mês, sua versão carioca bateu recordes de público, tendo recebido 1,4 milhão de visitantes. É mais do que o surrealista espanhol Salvador Dalí ou Yayoi Kusama, japonesa fascinada por bolinhas, obtiveram no mesmo centro cultural no ano de 2014.

Por aqui, os números devem ser mais discretos, uma vez que o espaço paulistano é cerca de quatro vezes menor do que o do Rio de Janeiro.

O máximo que o CCBB paulista já recebeu numa exposição foram 381 mil pessoas. É menos, por exemplo, do que o recorde do Masp, que registrou 402 mil visitantes com ‘Tarsila Popular’ no ano passado.


Modelo de embarcação barqueiros Asyut, período intermediário, 2160-2055 AC, tumba Mentuhotep


A redução do espaço não significou, porém, menos peças, afirma o curador holandês Pieter Tjabbes. Assim, também por aqui estarão cerca de 140 objetos, entre papiros, estelas e outros. Todos emprestados pelo Museu Egípcio de Turim, na Itália, lar da segunda maior coleção egiptológica do mundo —com 40 mil artefatos, ele só perde para o Museu do Cairo.

Os itens são expostos em três seções, que guiam o percurso da mostra. Na primeira, estão utensílios típicos do dia a dia no antigo Egito. Depois, ficam peças que mostram a relação dos egípcios com o sagrado, como miniaturas de templos e estatuetas de deuses.


Modelo de sarcófago para shabti de Amennakht, período Ramessida, 1295-1069 aC


A última parte é dedicada a tradições funerárias. É ela que abriga uma múmia humana verdadeira, apelidada de Tararó pelos pesquisadores. Como os hieróglifos não têm representações de vogais, seu nome é, na verdade, Trr.

Apesar dessa divisão em seções, quase todos os artefatos reunidos foram descobertos em tumbas. É o caso das paletas utilizadas para preparar o kohl, usado para delinear os olhos, ou dos vasos de azeite e de vinho exibidos na primeira parte da mostra.

Isso porque os egípcios achavam que tudo o que era necessário no dia a dia, também deveria estar à mão na vida eterna.

Daí não só os utensílios e tesouros serem sepultados com eles, mas também as ilustrações coloridas que enfeitavam seus caixões e as paredes das pirâmides, mostrando servos, familiares, alimentos. Elas faziam as vezes dos itens e pessoas reais que representavam.

Diretor do Museu Egípcio em Turim, Christian Greco explica que há ainda outros motivos para essa origem fúnebre dos objetos.


Modelo templo nubiano 19ª dinastia, 1292-1190 aC

Primeiramente, os egípcios só usavam pedras para os templos, moradas dos deuses, e para as tumbas, moradas da eternidade. Suas casas eram construídas com materiais menos duráveis.

Além disso, grande parte das escavações arqueológicas que aconteceram no Egito nos séculos 19 e 20 se concentraram nas necrópoles do oeste do país, no deserto do Saara. De lá vieram 90% de todas as peças que hoje compõem os acervos de egiptologia dos museus, diz o pesquisador.

Greco rebate, no entanto, a ideia de que os egípcios eram obcecados pela morte.
‘Eles eram tão apaixonados pela vida que faziam de tudo para perpetuá-la’, afirma.

Ao menos, isto é, aqueles que pertenciam à nobreza. Afinal, eram eles que, junto dos sacerdotes e dos faraós, podiam bancar os altos custos da mumificação e da construção das pirâmides, afirma o curador Pieter Tjabbes.

‘Eles eram muito práticos’, diz o holandês, radicado no Brasil há mais de 30 anos. Em tom de brincadeira, ele compara as muitas estratégias às quais os egípcios recorriam para assegurar uma eternidade sem sobressaltos a sucessivas apólices de seguro.

A mumificação era só uma delas. O processo, que envolvia a retirada dos órgãos internos e a posterior desidratação do corpo, que buscava evitar sua decomposição. Nem sempre dava certo, vide um caixão manchado no CCBB.

Outras táticas incluíam esconder joias debaixo das ataduras e contratar seguranças para proteger a tumba, de modo a dificultar a ação de possíveis ladrões, ativos desde os tempos dos faraós, segundo Tjabbes.

Mas de nada adiantava investir nisso se, na hora do juízo final, diante de Osíris, a alma do morto pesasse mais do que uma pena de avestruz. Seu destino seria então ser devorado por monstros.

A cena do julgamento é ilustrada num exemplar do Livro dos Mortos, papiro de cerca de três metros de extensão que integra a mostra.

A mitologia, tão distante da tradição judaico-cristã, insinua uma pergunta. Como uma civilização tão diferente da nossa atraiu tanta gente ao CCBB carioca?

Tjabbes atribui o sucesso a um tripé que a sua empresa, Art Unlimited, usou em outras mostras bem-sucedidas que montou no CCBB, como as de Mondrian e de Basquiat.

Além de parcerias com instituições respeitadas, ele afirma que uma de suas preocupações centrais é conversar com todo tipo de público. Isso inclui não só planejar um percurso didático, com textos e legendas claros, como também criar atividades específicas para as redes sociais.

‘É um esforço se deslocar para uma exposição sobre a qual você não sabe nada. Se fazemos com que imagens bacanas dela circulem, já é um primeiro passo para convencer um visitante potencial’, afirma.

De fato, a oferta de brincadeiras voltadas para o Instagram é ampla. Com a ajuda de espelhos especiais, os visitantes podem se ver usando a máscara funerária de Tutancâmon, ou como uma múmia, se levantando de um sarcófago. Quem não quiser tirar selfie com a réplica de pirâmide erguida na rotunda do CCBB pode optar por um cenário com a esfinge de Gizé ao fundo.

Greco, por outro lado, tem uma resposta mais filosófica sobre o interesse do público.

‘Às vezes, penso que somos tão fascinados pelo Antigo Egito porque nos perguntamos qual é nosso objetivo na Terra. E olhando para esses objetos, vemos que os egípcios se faziam a mesma pergunta’.

DESTAQUES DA MOSTRA

Retorno


Múmia que ficou conhecida como 'Homem de Gelo', e foi batizada de Oetzi em Bolzano

Uma múmia humana de verdade integra a exposição. O curador Pieter Tjabbes conta que funcionários do CCBB-RJ não entravam sozinhos na sala em que ela foi exibida.

Deus feio

Entre as estatuetas de deuses, chama atenção uma de um anão barbudo. Chamado de Bes, ele não era cultuado em templos, mas nas casas, e resolvia problemas domésticos.

Gato por lebre

Não só os humanos eram mumificados. Animais também podiam ter seus corpos preservados, e viravam objetos votivos, como as múmias de gatos na mostra. Tjabbes ressalta, porém, que quando pesquisadores as analisaram, descobriram que em geral elas não tinham traços de animais em seu interior. Ou seja: quem as comprou, foi enganado.

Felinos


Estátua em bronze deusa Bastet, período tardio, 722-332 aC

Outras deusas que ganham destaque são Sekhmet e Bastet. A primeira tem cabeça de leoa e aparece numa estátua de dois metros de altura. Já a segunda mistura uma cabeça de gato ao corpo feminino.



EGITO ANTIGO: DO COTIDIANO À ETERNIDADE
Quando Domingo à segunda, das 9h às 21h. Até 11/5. Abertura nesta quarta (19)
Onde CCBB-SP, r. Álvares Penteado, 112
Preço Grátis

PALESTRA COM CHRISTIAN GRECO, DIRETOR DO MUSEU EGÍPCIO DE TURIM
Quando Quarta (19), às 14h
Onde CCBB-SP, r. Álvares Penteado, 112
Preço Grátis; distribuição de senhas uma hora antes do evento


Fonte: Clara Balbi   |   FSP



(JA, Fev20)



sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Exposição sobre o Egito antigo chega a São Paulo


Mostra que já atraiu mais de 1 milhão de pessoas no Rio inclui uma múmia que data de 700 anos A.C.


Estela funerária de Mekimontu Deir el-Medina XVIII, Dinastia 1550-1295 a.C.


O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em São Paulo se prepara para inaugurar a exposição ‘Egito Antigo: Do Cotidiano À Eternidade’, no dia 19 de fevereiro. A mostra, que ocupará seis pisos instituição, contará com 140 itens.

Pieter Tjabbes, um dos curadores da exposição, conta que a múmia a ser exibida data de 700 anos A.C. Trata-se do corpo de uma senhora que se chamava Tararo.

Ela pertencia a 25ª dinastia, que ficou conhecida como Dinastia Núbia, ou Faraós Negros. Eles eram oriundos da Núbia, área que corresponde ao atual Sudão. O corpo da mulher virá acompanhado por um baú-caixão, onde se encontram hieróglifos e pinturas. ‘Eram espécies de fórmulas mágicas, que davam orientações para alma encontrar o corpo mumificado. Um modo lúdico de proteção do espírito contra os perigos da passagem da vida para morte’, explica Tjabbes.

Em cartaz na unidade carioca do CCBB até 27 de janeiro, ‘Egito Antigo: Do Cotidiano À Eternidade’ já atraiu mais de 1 milhão de visitantes. ‘Aqui, esperamos pelo menos a metade, 500 mil pessoas’, afirma Claudio Mattos, gerente da instituição em São Paulo. Ele recomenda que os paulistanos agendem suas visitas à exposição para que não sofram com as filas. A pré-venda de ingressos pelo site da Eventim tem previsão de início para 1º de fevereiro.




Outra peça que deve chama atenção do público, acredita o curador, é uma estátua de uma divindade chamada Sekhmet. Ela tem a cabeça de leoa e é associada à guerra. Sua representação em granito tem mais de 2 metros e pesa cerca de 500 quilogramas. Ela tem cabeça de leão, e é associada à guerra. Fará parte do núcleo sobre religião.

Outras seções presentes na exposição serão eternidade e dia a dia. Também haverá por lá a reprodução de um documentário e de uma pirâmide.



Esfinge de Gizé: um dos monumentos egípcios que serão reconstruídos em 3D na exposição sobre o CCBB 


Para quem nunca foi ou conhece pouco do Egito, uma vídeo introdutório no começo da exposição trará projeções tridimensionais de importantes monumentos de lá, a exemplo do templo de Karnak e a esfinge de Gizé.  ‘O legal vai ser ver todas essas construções com as suas cores originais’, conclui Tjabbes, que se prepara para ocupar todos os andares do CCBB São Paulo com a exposição sobre essa civilização








Fonte: Tatiane de Assis  |  Veja SP



(JA, Jan20)


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Livro póstumo de Tunga é testamento visual que traça panorama de sua obra



Publicação, que demorou quase 20 anos para ser concluída, era promessa de Charles Cosac ao artista


'Trança Humana', performance de Tunga replicada por dançarinos da Lia Rodrigues Companhia de Danças, no CCBB São Paulo, 2001
Tunga era um escultor de flores estranhas, algumas de carne e osso, outras de cristal, bronze ou ferro fundido. Mais do que todas, o artista gostava de mandrágoras, plantas de pétalas escuras e raízes que lembram a forma de um corpo humano, tal qual um ex-voto enterrado.

Há quase quatro décadas, ele criou dentro de um túnel no Rio de Janeiro o que chamou de jardim dessas flores —dois manequins pendurados pelo pescoço orbitavam uma mulher de verdade, deitada de bruços direto no asfalto.

O contraste da pele branca da atriz com o negror do pavimento à sombra dos enforcados, era o clarão que Tunga buscava nas trevas, como fez em quase toda a sua obra de choques orquestrados entre formas puras e seus duplos perversos, luz e breu. Era a visão de que ‘as cavernas mais profundas da mente brilham com esplendor’.

Essa ideia marcou a britânica Catherine Lampert, uma das críticas mais interessadas na obra do artista.

Ela batizou com essa frase um ensaio que entende como resumo do trabalho difícil, impenetrável de Tunga, um dos maiores nomes das artes visuais do país.

Depois de quase duas décadas, seus escritos intimistas sobre o tempo que passou ao lado do escultor vem à tona, num livro que disfarça no formato simples sua enorme ambição.

Tunga, que morreu há quatro anos, viu quase tudo reunido para o volume, uma espécie de testamento visual que, além de ensaios críticos de Lampert, e do também britânico Guy Brett, pela primeira vez tenta construir um glossário de sua obra. As formas mais recorrentes do vocabulário de suas esculturas —tranças, cálices, garrafas, sinos, tacapes— ressurgem analisadas ali como assuntos de uma enciclopédia.

O esforço de juntar num único livro quase cinco décadas de obras, que muitas vezes não passaram de rituais fechados encenados pelo artista com seus amigos, exigiu tempo. No meio do caminho, Tunga foi ficando cada vez mais doente, e as duas editoras que publicariam a obra acabaram fechando as portas, silenciando o estudo.

‘Era muito difícil voltar a trabalhar com algo que havia escrito há tanto tempo sem querer jogar tudo fora e começar de novo’, lembra Lampert. ‘Mas depois vi que era cada vez mais importante trabalhar essa lista do repertório de formas dele, um repertório que, em muitos casos, era uma extensão de seu corpo'.

Foi só nos últimos meses de vida do artista que o livro enfim ganhou forma. Tunga trocara o Rio por São Paulo para tratar o câncer de pulmão que tiraria sua vida, e foi morar no apartamento do amigo Charles Cosac, que acabava de encerrar as operações da Cosac Naify, casa que publicou outros quatro livros sobre Tunga.

‘Ele só piorou desde o dia em que ele pôs os pés em casa’, lembra o editor. ‘Foram sete meses de tristeza, e a gente não tinha como disfarçar isso. Não sabia o que dizer para ele, não dava para falar nada. O livro então era uma promessa que fiz ao Tunga. Existia essa dívida e tinha que terminar’.

O cuidado de Cosac e Lampert com o livro, explícito nos mínimos detalhes, como elencar os nomes de quase todos os atores e atrizes que participaram das performances mais radicais do artista, em museus, galerias, ruas e até capelas pelo mundo, não deixa dúvidas que a obra foi pensada como o último ato, mesmo que póstumo, de um artista incendiário.

Tunga, do mesmo jeito que entrelaçou cobras sedadas em tranças vivas ou pediu a bailarinos nus que imitassem essas formas, juntou dois lados irreconciliáveis na arte do país —a secura do impulso geométrico e a vibração de corpos vivos.

Sua obra muitas vezes fuliginosa e escura, construída com ímãs, fios de cobre, couro e feltro, por mais distante que pudesse parecer do calor da pele, na verdade sempre se deu como reencarnação da matéria, a ideia de devolver a vida a elementos minerais, fossilizados.

Numa das passagens mais reveladoras do livro, Tunga descreve uma escultura de feltro da fase em que ele ensaiava os primeiros passos de sua tentativa de ruptura com a herança concretista, que marcou todos artistas do país, desde a metade do século passado. Escrevendo sobre ‘Albinos’, um trabalho dos anos 1980, Tunga fala em criar ‘uma possível geometria, um caminho entre as camadas de carnes do feltro’.

Não espanta que décadas mais tarde o artista levaria a carne real ao contato mais extremo com as formas roliças, irregulares de suas esculturas, criando uma série de performances em que mulheres nuas lambuzavam de maquiagem suas peças de vidro e alumínio, ou dançarinos sem roupa se banhassem em geleia cor de sangue, entre ampolas e frascos pendurados de cruzes no teto.

Outra ação, também envolvendo maquiar as peças, terminava com um ritual destrutivo, com belas mulheres estilhaçando objetos de vidro na nave de uma capela, à luz pálida de holofotes atrás das cortinas.

O poder destrutivo de suas performances, oposto da limpeza contida das vanguardas construtivas, fez de Tunga talvez o primeiro artista contemporâneo do país a ostentar uma vontade barroca na raiz de seus trabalhos, uma dramaticidade confessa, teatral que parecia espelhar melhor a carnificina brasileira do que qualquer outro trabalho de toada cerebral ou asséptica.

‘Reinventar as formas clássicas era o que ele fazia de melhor’, lembra Catherine Lampert. ‘Mas é também por isso que muitos dos especialistas em arte latino-americana rejeitavam o aspecto barroco desenfreado de seus trabalhos’.

Ela, que comandou a Whitechapel, um dos grandes templos da arte contemporânea em Londres, lembra como foi difícil, por exemplo, convencer os historiadores da Tate Modern a comprar peças de Tunga para um acervo que já abria as portas aos artistas latinos.

‘É difícil penetrar na obra do Tunga. A gente gosta dela, mas não sabe por quê’, diz Charles Cosac, que retomou sua editora só para publicar o livro derradeiro. ‘O discurso dele é muito erudito, e ele era uma pessoa difícil de lidar. Trabalhar com ele significava se subjugar ao temperamento, e ao humor dele. Foi ali que percebi que nenhum artista quer revelar a sua obra por inteiro’.

Mesmo arredio e famoso por dar entrevistas sem responder as perguntas, Tunga morreu consagrado como um dos maiores nomes de sua geração. Lampert, aliás, acompanhou de perto o momento em que ele atingiu o auge da fama, ao instalar uma enorme escultura debaixo da pirâmide de vidro do Louvre, em Paris.

Lá, um gigantesco esqueleto sem cabeça repousava numa rede negra sustentada em balanço por bolsas cheias de caveiras negras e douradas, a morte refestelada à luz do sol filtrada pela estrutura cristalina, a coroar o saguão do museu.

Tunga chamou o trabalho de ‘À la Lumière des Deux Mondes’, ou à luz de dois mundos. Mais uma vez, polos opostos se chocavam numa alegoria a um só tempo tétrica e sedutora.


'À Luz de Dois Mundos', (detalhe), museu do Louvre, Paris


‘Ele foi um artista de extremos, no bom sentido. Tunga era borderline, no limite’, diz Lampert. ‘Mas, convivendo com ele, era possível absorver seu vocabulário e sua sensibilidade. Ele compartilhava algumas coisas às vezes’.

Muitas dessas coisas eram visões, sonhos e pesadelos, mais tarde traduzidos em esculturas e performances. Também podiam ser mitos herdados da tradição ocidental, ou inventados pelo artista, como base narrativa para suas obras quase operísticas.

O trabalho em que ele arremessa uma réplica da própria cabeça ao mar surgiu de uma dessas visões. Nas palavras dele, o ‘troféu mórbido’ lançado às ondas por seus longos cabelos, era uma forma de atrair a atenção das sereias.

Essa imagem de cabeleiras fartas ecoa os cachos das ‘Xifópagas Capilares entre Nós’, ação do começo da década de 1980, em que garotas idênticas, presas pelos cabelos, circulavam pela galeria onde fios de cobre atravessavam enormes pentes metálicos no chão.

Tranças nunca desapareceram de suas obras. Noutra encarnação, elas estavam em ‘Tereza’, performance em que homens costuravam cobertores para formar uma longa corda, alusão à tática de detentos que escapavam da prisão usando lençóis amarrados, que em galerias de arte tinham o efeito oposto, ao cercear o movimento do público.

Tunga, nesse ponto, estava atento a duas realidades, cindido entre sua cosmovisão particular, e a realidade de um país mergulhado na violência. No fundo, radiografava uma angústia, muitas vezes asfixiante, um mal-estar inescapável.





Na curva escura do mesmo túnel Dois Irmãos onde pendurou seus manequins, aliás, Tunga filmou um looping infinito, a sensação de rodar e rodar sem nunca encontrar uma saída. A trilha sonora era ‘Night and Day’, na voz de Frank Sinatra —luz e trevas inseparáveis.

‘Tunga quebrou a ideia que eu tinha de escultura’, diz Cosac. ‘Ele cria tensão e movimento, uma obra que nunca pode ser estática. É como se fosse a visão de um vaso de flores vivas, com a diferença que essas são flores perpétuas’.


Tunga
De Catherine Lampert, Editora Cosac Naify








Fonte: Silas Marti   |   FSP



(JA, Jan20)