domingo, 6 de setembro de 2020

Arte Naif

 

Henri Rousseau, 1844-1910    -^-  Jardins do Luxemburgo (Luxembourg-Gardens), 1909

 

Se traduzirmos ao pé da letra, naif em francês significa ingênuo, inocente. E esses adjetivos muito revelam sobre essa arte. Para entendermos o contexto das criações, um pouco de história: o termo Arte Naif foi empregado pela primeira vez no virar do século 19, para identificar a obra de Henri Rousseau.

Nessa época, a Europa vivia a realidade gerada pela Revolução Industrial. Novos produtos eram produzidos em maior quantidade, de forma mais rápida e com melhor qualidade.

Grandes populações migravam da área rural para as periferias dos grandes centros urbanos, como Londres na Inglaterra, e Paris na França. Essas pessoas iam em busca de trabalho e melhores condições de vida, algumas migravam para ainda mais longe, indo para as ex-colônias nas Américas. 

Com novos materiais produzidos pela indústria, as técnicas tiveram que evoluir também. Era cada vez mais comum que os pintores utilizassem a tela como suporte, e não mais a antiga tábua de madeira, e até as tintas eram fabricadas - não sendo mais necessário que o artista produzisse a sua tinta de forma artesanal, como era costume até pouco tempo antes. 

A chamada ‘Arte Acadêmica’ chega ao seu auge de perfeição, o que  permite ao artista transferir para a tela a realidade que vê. Agora consegue produzir mais rápido, pois tem seu material pronto e facilmente disponível para a compra. 

Por volta de 1860, a arte ocidental dá sinais de uma crise, pois surgem as primeiras câmeras fotográficas, que pintava com a luz, e, em pouco tempo, cai no gosto da elite, e depois do povo.

Contratar um artista para pintar um retrato, ou uma paisagem passou a não ser tão necessário. A pintura teria que se renovar,  buscar novos resultados.

Surge então o movimento mais popular da história da pintura, o movimento dos pintores Impressionistas, que passaram a pintar, não apenas a realidade que as pessoas viam, mas a impressão que o artista tinha da realidade e das cores.

Dentro dessa linha, os artistas que se definiam como naif, não tinham a obrigação de utilizar técnicas elaboradas, e abordagens temáticas e cromáticas convencionais. Logo, tal escola se caracterizou pela simplicidade, e pela liberdade que o autor tinha para relacionar elementos considerados formais, como a inexistência de perspectiva e a irrealidade dos fatos.

Outro ponto marcante nesse tipo de arte foi o uso de cores fortes e chocantes. A arte naif exprime alegria, felicidade, espontaneidade e imaginários complexos. 

Por algum tempo as pessoas continuaram a procurar os artistas para pintar retratos e paisagens, pois, de início, a fotografia não tinha cor. Mas, logo surgiram alguns fotógrafos que pintavam partes das fotos, para torná-las mais realistas. Todos sabiam que não demoraria muito para o surgimento da fotografia colorida. 

Os organizadores dos Salões de Arte Oficial de Paris não tinham a visão da evolução natural que estava acontecendo, e selecionavam as obras com critérios já estabelecidos e estáticos.

Formar um movimento paralelo foi inevitável. O movimento de arte Impressionista escandalizou a Paris da Belle époque, 1871-1914, pelos temas e pela pintura.

O terreno estava pronto para que a arte desse mais um passo, para o movimento dos artistas independentes, chamados de Pós- Impressionistas, que viria a seguir.  Por volta de 1884, pintores franceses como George Seurat e Paul Sinac, com apoio de outros artistas, fundaram o Grupo dos Independentes, e começaram a organizar exposições coletivas, paralelas ao Salão de Arte oficial.

O ‘Salon des Refusés’, ou salão dos recusados, foi o mais importante organizado pelo grupo. Nele qualquer artista poderia participar - era só pagar uma taxa de 15 francos, e já estava participando, sem a necessidade da avaliação da obra inscrita por um júri -  algo incomum na época. A maioria dos artistas que participavam, realmente haviam sido recusados do Salão de Arte Oficial. Entretanto, muitos deles acabaram ficando mais famosos do que aqueles que puderam participar.

Como temática desse estilo de arte, vemos muito o dia a dia de cidades, o cotidiano de crianças e pessoas nas ruas, temas bucólicos com árvores e campo, e o retrato da vida simples.




Fonte: História da Arte

 

(JA, Set20)

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Conforto pela Arte

 Em momentos de crise, obras podem trazer consolo e aprendizado

 


Em 2015, uma cena comovente circulou pela imprensa mundial: um serviço de assistência médica holandês levou uma senhora em estado terminal para uma visita privada ao Rijksmuseum, em Amsterdã, onde ela pôde realizar seu último desejo: apreciar de perto um famoso autorretrato de Rembrandt.

Recentemente, o mestre holandês foi o centro de uma nova ação na cidade.

Desta vez, para contornar as restrições do momento, foi o próprio museu que fez circular, entre trinta casas de repouso da região, uma reprodução em tamanho real da pintura ‘A Ronda Noturna’, tida como uma das grandes realizações do Barroco europeu.

 

                                           Edward Hopper  -^-  ‘Room in Brooklyn’
 

No início da pandemia, em março, o Museu de Belas Artes de Boston compartilhou em suas redes sociais uma delicada pintura de autoria do americano Edward Hopper, 1882-1967, em que uma mulher, de costas para o espectador, observa a rua através de uma janela.

A postagem vinha acompanhada da seguinte mensagem:

‘Hopper é o poeta inesperado do nosso momento. Sabemos o que é ser aquela figura sentada, a olhar pela janela para os telhados vazios do outro lado da rua. Há solidão e isolamento em ‘Room in Brooklin’, mas também há esperança. Hopper sugere toda uma promessa de primavera: sol entrando pelas janelas, um buquê de flores frescas, novas possibilidades ao virar da esquina’.

O que esses relatos, que envolvem legados artísticos tão distintos, têm a nos dizer? Talvez a principal resposta seja a de que a arte pode ser uma importante fonte de consolo para enfrentarmos momentos de crise.

Não se trata de reduzi-la a uma lógica meramente utilitária, mas de ampliar as suas possibilidades, para melhor lidarmos, como nos exemplos acima, com questões como a proximidade da morte, a solidão ou a falta de respostas para o futuro.

No livro ‘Arte Como Terapia’ (lançado no Brasil pela editora Intrínseca), os filósofos contemporâneos, Alain de Botton e John Armstrong, aprofundam-se ainda mais nessa questão.

Os autores defendem a ideia da arte como ferramenta terapêutica, que pode nos ajudar a enfrentar angústias e dilemas cotidianos.

A publicação originou uma plataforma (artastherapy.com), na qual o usuário seleciona o seu problema específico e, a partir de então, tem acesso a obras de arte que, ao serem apreciadas com um texto de apoio, buscam ajudá-lo a compreender seu sofrimento.

Essa possibilidade de usar a imaginação para visualizar algo novo ou interpretar uma situação sob um ponto de vista diferente tem relação com a descrição que o historiador britânico Simon Schama faz em seu livro ‘O Poder da Arte’ (Companhia das Letras).

Nele, o autor lembra a capacidade que certas obras têm de causar na audiência uma ‘surpresa perturbadora’, substituindo o que há de conhecido no mundo visível, por uma nova realidade ‘que é toda dela’.

Não é de hoje que as pessoas recorrem à arte em busca de consolo.

Ao longo dos séculos, os próprios artistas incorporaram em suas produções as angústias vivenciadas em seus contextos históricos.

A historiadora da arte Laura Ferrazza usa como exemplo um artista do século 17, o pintor flamengo Antoon Van Dyck, 1599-1641, que precisou ficar em quarentena na Itália.

Logo após a sua chegada em Palermo, onde passaria uma temporada, a cidade foi tomada pela peste.

Van Dyck isolou-se em seu ateliê, onde passou a pintar obras bem diferentes dos retratos da aristocracia a que estava habituado.

O resultado foi uma série de quadros dedicados a Santa Rosália, padroeira da cidade.

‘Ele nunca tinha feito quadros religiosos, mas aquilo talvez fosse uma forma de falar em esperança’, avalia.

Laura ressalta que o interessante dessa relação com a arte é que, mesmo quando um espectador não é religioso, por exemplo, ele pode apreciar as qualidades de uma obra sacra.

‘É possível olhar para homens e mulheres de outros tempos, em contextos difíceis como o nosso, e sentir uma identificação. Esse caráter atemporal é o mais importante da arte’.

Como ela explica, as imagens carregam a marca do contexto em que foram produzidas, mas também ‘projeções do futuro’. Isso explica por que as pessoas podem ter diferentes interpretações a respeito de uma mesma criação.

‘Existe uma ideia de que, quando você olha para uma obra, ela também te olha. Há uma troca entre a obra e o observador. Ela mexe em coisas próprias de cada pessoa, com conhecimentos até mesmo inconscientes’.

 Como forma de estimular essa troca, diferentes iniciativas têm apostado em levar arte para dentro dos hospitais.

Foi o caso da Galleria Continua, de atuação internacional, que tinha planos de inaugurar em agosto as atividades de sua filial brasileira no Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Acabou, no entanto, adiantando parte de seus trabalhos.

Em abril, seu espaço foi transformado em uma espécie de almoxarifado do hospital de campanha, adaptado ali pela Prefeitura.

‘Quando vi a logística, pensei: vamos dar uma força para os médicos', conta Akio Aoki, sócio e diretor da operação da galeria no Brasil.

‘Todos precisavam retirar o uniforme e os EPIs aqui; tinha, inclusive, uma máquina de ponto na porta da galeria’, diz Aoki.

Nesse ambiente de fluxo intenso, os profissionais da saúde ganharam a oportunidade de deixar de lado o estresse por um momento, e assistir a vídeos produzidos por artistas contemporâneos como Jonathas de Andrade, Lia Chaia, Gisela Motta e Leandro Lima.

‘Cada um vê a arte de uma forma; não existe um roteiro programado, e é por isso que é uma experiência individual, que traz um benefício único’.


Pós-pandemia

Não surpreende, assim, que um recente levantamento virtual realizado pelo Masp tenha revelado o anseio do público em voltar aos museus.

Realizado com 1363 pessoas que compraram ingressos ao menos uma vez em 2019 - ano em que o museu bateu recorde de público com a mostra sobre Tarsila do Amaral -, o estudo revela uma maior predisposição, quando a quarentena acabar, para visitas a museus e instituições culturais (38%), do que a bares e restaurantes (25%), por exemplo.

Enquanto o fim da pandemia ainda é incerto, a instituição busca amenizar a distância com atividades online.

Toda semana, um artista do acervo é escolhido como tema da ação #maspdesenhosemcasa, em que o público é convidado a compartilhar a própria versão de uma obra.

Outros museus pelo mundo têm apostado também nesse tipo de iniciativa.

Afinal, com o distanciamento social, as pessoas têm passado mais tempo na internet - uma possibilidade inexistente para a humanidade durante outras crises de saúde na história.

Na visão de Laura, esse incentivo traz um ‘lado lúdico’ para a arte, aproximando a produção artística das pessoas de uma forma ‘dessacralizada’.

‘Isso mostra que a arte pode estar no cotidiano, trazendo o conhecimento de imagens que antes estavam esquecidas e mostrando como aquelas expressões podem ser parecidas com as de nossa época’.


ARTE ONLINE

·        Smart History

O canal do YouTube aposta em vídeos de 5 a 10 minutos de duração, com explicações didáticas sobre a história da arte. Os conteúdos são em inglês, mas muitos têm legenda: youtube.com/smarthistoryvideos

 

·        Google Arts & Culture

Fruto de parceria do Google com diversos museus do mundo, a plataforma, que pode ser acessada pela internet (artsandculture.google.com) ou pelo app de mesmo nome, permite que o usuário navegue por coleções por meio da tecnologia de Street View. Entre as opções no Brasil está o Museu Nacional, no Rio - antes do incêndio.

 

·        The Great Gallery Tours

Com o fechamento dos museus pelo mundo, o historiador britânico Simon Schama propôs um tour virtual por instituições como a Courtauld Gallery (Londres), o Rijksmuseum (Amsterdã), o Museu do Prado (Madri), e o Whitney Museum (Nova York), destacando preciosidades de seus acervos. Os episódios, em inglês, estão disponíveis no site da BBC Radio 4 (bbc.in/31IxoCl).

 

·        Marco Mansi

Em sua página do Instagram, o jornalista e historiador da arte italiano Marco Mansi (@marco_mansi) faz uma seleção criteriosa e propõe um grande mosaico de imagens inspiradoras para a rotina dos seguidores, entre reproduções de pinturas e fotografias dedicadas à arquitetura.

 

·        Vivi eu Vi

De forma bastante descontraída, a brasileira Vivi Villanova mantém o canal do YouTube ViviEuVi (youtube.com/vivieuvi), no qual revela curiosidades sobre os artistas e suas obras. Ela publica novos vídeos sempre às segundas e sextas-feiras.

 

 



Fonte:  Júlia Corrêa  |  OESP  | Guarulhos Web

 

(JA, Set20)

 


segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Arte de Paul Gauguin

 

I. Paul Gauguin

Eugène-Henri-Paul Gauguin foi um pintor francês cujo trabalho, junto com Van Gogh e Paul Cézanne, se caracterizou como pós-impressionismo. Gauguin nasceu em Paris, 7 de junho de 1848 e faleceu nas Ilhas Marquesas em 8 de maio de 1903.

Apesar de ter nascido em Paris, Gauguin se mudou com três anos para Lima, Peru, onde viveu até os sete anos. Seu Pai era um jornalista republicano, e sua mãe, Aline Chazal, era descendente de espanhóis, proprietários de terras  na América do Sul.

Com a chegada de Napoleão III ao poder, e com medo da perseguição, a família embarcou, em 1851, com destino ao Peru, onde seu pai pretendia trabalhar. Entretanto, durante a terrível viagem de navio, o pai teve complicações de saúde, e faleceu. Assim, o futuro pintor desembarcou em Lima, apenas com sua mãe e irmã.

Quando voltou para seu país natal, em 1855, Gauguin estudou em Orléans e, aos 17 anos, ingressou na marinha mercante, e correu o mundo. Trabalhou em seguida numa corretora de valores parisiense e, em 1873, casou-se com a dinamarquesa Mette Sophie Gad, com quem teve cinco filhos.

 

                                                                  Autorretrato, 1875 a 1877 

II. Vida Adulta e início de carreira

Aos 25 anos, após a quebra da Bolsa de Paris, tomou a decisão mais importante de sua vida: dedicar-se totalmente à pintura.

Começou, assim, uma vida de viagens e boemia, que resultou numa produção artística singular e determinante das vanguardas do século 20.

Ao contrário de muitos pintores, não se incorporou ao movimento impressionista da época. Expôs, pela primeira vez, em 1876. Mas não seria uma vida fácil, tendo atravessado dificuldades econômicas, problemas conjugais, privações, e doenças.

 

III. Camile Pissarro e os impressionistas, 1884 - 1886

De janeiro a novembro de 1884, mudou-se para Rouen, onde Camille Pissarro, que o havia guiado na sua abordagem ao Impressionismo, também vivia. Durante esses 10 meses em Rouen, ele produziu cerca de quarenta pinturas, principalmente vistas sobre a cidade e seus arredores.

Isso não era o suficiente para viver, e ele se mudou com sua esposa e filhos para casa dos parentes dela em Copenhagen.

A convivência  com os sogros não funcionou. Seu negócio não foi bem.

Então, em 1885, ele retornou a Paris para pintar em tempo integral, deixando sua esposa e filhos da Dinamarca e, sem meios de lhes sustentar, sentia-se dilacerado por isso. Ele participou, entre 1879-1886, das últimos cinco exposições do Grupo de impressionistas.

 

                                   ‘As lavadeiras em Pont Aven’, 1886, Musée d'Orsay, Paris 

IV. Cloisonnisme / simbolismo /sintetismo - Pont Aven, 1886

Em 1886 , a conselho de Armand Marie Felix Jobbé Duval, Gauguin fez sua primeira estada em Pont-Aven, na Bretanha, onde se encontrou com Émile Bernard, defensor do Cloisonnisme. De volta a Paris, em novembro do mesmo ano, ele conheceu pela primeira vez Vincent van Gogh.

Em abril de 1887, ele partiu com o pintor Charles Laval para o Panamá , onde eles foram trabalhar na perfuração do canal . Eles enfrentaram condições de vida particularmente difíceis, e decidiram sair, uma vez que tinham dinheiro suficiente para ir a Martinica, lugar que Gauguin tinha descoberto quando era um marinheiro.

Ele permaneceu na  Martinica, em Anse Turim Carbet, a  dois quilómetros de São Pedro, em condições precárias, de junho a outubro 1887. Lá, existe hoje, um museu   dedicado a Gauguin. Excitado pela luz e pelas paisagens, pintou doze pinturas durante sua estadia. Lá, ele teve uma filha natural. 


As ceifeiras, Emile Bernard, 1888, Met New York

Cloisonnisme

O cloisonnisme é um estilo da pintura pós-impressionista, caracterizado por cores lisas, delimitadas por contornos escuros. O termo foi utilizado pelo crítico Édouard Dujardin por ocasião do Salão dos Independentes, em Março de 1888.

Os artistas Émile Bernard, Louis Anquetin, Paul Gauguin, Paul Sérusier, e outros, começaram a pintar com este estilo no final do século 19.

O nome remete para a técnica de cloisonné, onde arames (cloisons ou ‘compartimentos’) são soldados ao corpo da peça, enchidos com pó de vidro e, em seguida, colocados no meio de chamas - a altas temperaturas, numa técnica semelhante à do vitral. Muitos daqueles pintores descrevem os seus trabalhos como sintetismo, um movimento com algumas semelhanças.


V. Episódio de Arles, 1888

Gauguin reuniu-se a Vincent van Gogh, que o havia convidado  para vir para Arles, no sul da França, em 1888, graças ao irmão deste, Theodorus van Gogh (negociante de arte).

 

                                Autorretrato ‘Os Miseráveis’, 1888, Museu Van Gogh, Amsterdã 

Gauguin que estava na Bretanha, e se julgava um bandido em uma sociedade que o impedia de renovar o impressionismo, pintou um autorretrato, com Émile Bernard ao fundo, que intitulou de ‘Os Miseráveis’. Antes de se reunir a Van Gogh, ele enviou esse quadro de presente para o pintor, onde escreveu: ‘Então, aqui vai a minha imagem pessoal, mas  também um retrato de todos nós, pobres vítimas dessa sociedade, de quem nos vingamos fazendo o bem’.

Reunidos por um interesse comum na cor, os dois pintores entraram em conflito pessoal e artístico. Van Gogh não gostou quando Gauguin pintou o quadro ‘Van Gogh pintando girassóis’, o qual ele se vê e exclama: ‘Este sou eu, mas louco’. A coabitação deteriorou-se, e terminou no famoso episódio da orelha cortada de Van Gogh, em 23 de dezembro de 1888.


VI. Sintetismo em Pont-Aven, 1888 - 1890

De retorno à França, ele vive em Paris, antes de partir, no começo de 1888, para a Bretanha, onde ele é o centro de um grupo de pintores experimentais conhecidos como a escola de Pont-Aven. Em uma carta de 1888 escrita à Emile Schuffenecker, Paul Gauguin exprime seu credo que será o cerne das crenças artísticas que se seguirão.

‘Um conselho, não copie muito da natureza, a arte é uma abstração, pegue da natureza, sonhando antes e pensando mais na criação do que no resultado.  Esta é a única maneira de subir a Deus, fazendo como nosso Mestre Divino, criando’.

Sob a influência do pintor Émile Bernard , seu estilo evolui, torna-se mais natural e sintético. Ele encontra inspiração na arte exótica, vitrais medievais e gravuras japonesas. Naquele ano ele pintou A Visão depois do Sermão, que irá influenciar Pablo Picasso, Henri Matisse e Edvard Munch.

Escola de Pont-Aven

Os trabalhos são caracterizados pelo uso marcante de cores puras e uma temática simbolista: o uso livre  da cor (pode pintar a grama de vermelha se quiser), o que se aplica em grandes manchas e cores especiais. Eles usam cloisonnism. O resultado é, geralmente, uma obra de arte altamente decorativa. Existe uma vontade de sintetizar as formas: síntese entre o estilo impressionista e simbolista - por isso podem ser considerados simbolistas, pelo seu espírito.

Paul Gauguin acabou se tornando um dos expoentes da escola de Pont-Aven e, reunindo vários artistas em torno dele. Ele ficou nessa região no períodos 1886, 1888 -1890, e 1894. 


             ‘La ronde de las petites bretones’ (a dança das pequenas bretãs), 1888, National Gallery, WashingtonDC 


VII. Vida na Polinésia, 1891 - 1902

Em 1891, arruinado, Gauguin mora uns tempos em Paris, e depois, inspirado pela obra de Jacques-Antoine Moerenhout, ele embarca para a Polinésia, graças à venda de uma de suas obras que tinha recebido dois artigos entusiasmados de Octave Mirbeau.

Ele se instalou em Taiti onde ele esperava poder fugir da civilização ocidental, e tudo que seria artificial e convencional. Ele passa toda a sua vida em regiões tropicais, primeiro Taiti e depois a ilha de Hiva Ao, no arquipélago de Marquises. Ela volta a cidade somente uma vez.

As características essenciais de sua pintura (que são a utilização de grandes superfícies de cores vivas) não mudam muito. Ele presta atenção especial na expressividade das cores, na procura da perspectiva correta, e na utilização de formas sólidas e volumosas.

 Ele faz também algumas esculturas em madeira, mas sobretudo pinta seus mais belos quadros nessa fase.

Duas Mulheres do Taiti

‘Como combinar forma sólida e padrão plano? - isso parece o problema que os pós-impressionistas costumavam se colocar. Nestas pinturas, Gauguin, que frequentemente usa a composição do friso fluente para esse mesmo fim, juntou a solidez e a superfície por outros meios.

A visão de cima encurta as figuras e elimina o horizonte, trazendo assim o plano de fundo. As próprias figuras, perto dos olhos, criam um padrão de formas curvas que contrasta com as linhas retas e simples da costa além. Sendo tão perto, preenchendo tanto da área, ambos estão na superfície, e em profundidade, ambos planos e modelados.

A fusão dos dois é especialmente clara na mulher à esquerda, cujo perfil e braço fazem um contorno vertical contínuo, pois a perna e a saia estendidas fazem uma horizontal, ambas também funcionando como diagonais recuadas, enquanto ao mesmo tempo o pé equilibra a Mão próxima no canto. Assim, as grandes áreas de cores, unidas por grandes contornos que, por sobreposição, criam um padrão abstrato, também são usados ​​para modelar e dar peso aos corpos’. 


                                       'Duas Mulheres do Taiti', 1892, Galeria Neue Mester, Dresden 

Em 1891 Gauguin pintou ‘Duas mulheres do Taiti na praia’ que está no Museu d'Orsay. Um pouco depois, em 1892 ele pintou um segundo quadro ‘Duas mulheres do Tahiti’, trocando apenas a figura da moça da direita. Esse quadro está exposto em Dresden.

Mulher com uma Flor

‘Melancólica e sensual, esta bela polinésia toca o espectador pela vibração de suas cores vivas e pelos contornos intensos. Embora a pose seja tradicional, o artista evitou as regras usuais da arte ocidental.

As formas são simples, as cores são chocantes, e não há profundidade de perspectiva.

Em seu livro ‘Noa Noa’, sobre sua vida naquele lugar, escreveu: ‘Fugi de tudo o que é artificial e convencional. Aqui penetro na Verdade, integro-me na natureza’.

 

‘Vahine no te tiare’ (La femme a la fleur), 1891 


O terreno da frente e do meio estão construídos em áreas de verde, amarelo e azul. Uma moça tradicionalmente vestida, estabelece o limite entre a parte da frente e de trás. A flor branca atrás de sua orelha esquerda indica que ela procura um marido. Atrás dela, uma segunda figura está vestida em estilo ocidental cobrindo até o pescoço representando uma ameaça ou aviso.

A historiadora de arte Nancy Mowll Mathews escreveu que Gauguin ‘retratava os nativos [tahitianos] como vivendo apenas para cantar e fazer amor. Foi assim que ganhou dinheiro com seus amigos, e aumentou o interesse do público na sua aventura. Mas, é claro, ele sabia que na verdade, o Taiti era uma ilha,  com uma comunidade internacional, ocidentalizada'.


‘Nafea faa ipoipo’ (Quando te casarás?), 1892 - KurnsterMuseum, Basel 


Em fevereiro de 2015, a pintura Nafea Faa Ipoipo, que pertencia  ao colecionador suíço Rudolf Stechelin, foi adquirida pela Autoridade de Museus do Qatar por 300 milhões de dólares estadunidenses (263 milhões de euros), e converteu-se assim na obra de arte mais cara da história.

Why are you Angry?

‘A estrutura e o ritmo de composição das pinturas de Gauguin tendem em duas direções. Por um lado, ele emprega a curva de fluido, reforçando as linhas de figuras dobradas, com áreas de fundo com contornos contínuos semelhantes. Por outro lado, ele usa uma forma semelhante a um friso, construída em torno de horizontes rítmicos e verticais.

Nesta imagem estão as verticais repetidas das casas, das árvores e das figuras, Dando origem a linhas tão relacionadas que levam o olho através da tela, dando-lhe amplitude. E também estão as horizontais, que começam na parte inferior direita, e retém a distância. Os pés, o olhar, toda a pose da figura do primeiro plano, os remendos verdes na terra vermelha, a superfície amarela da parede da casa, e a casa menor à distância, estabelecem planos, a intervalos que medem um espaço profundo.

Ao contrário de muitas pinturas de Gauguin, onde o espaço é negado, ou apenas sugerido, essa imagem, com seu contraste de sólido e vazio, a apresentação consciente de um continuo espacial, que liga e separa os elementos dentro dele, é uma concepção clássica de que ambos, Paul Cezanne e Seurat, teriam entendido. 


Why are you angry ?,  1892, Art Institute of Chicago 


VIII. Últimos tempos de Gauguin - Ilha de Iva Oa, Marquises

Durante a sua vida, Gauguin admirou Degas, como ele próprio escreveu, em janeiro e fevereiro de 1903 (apenas alguns meses após a execução desta imagem).

Nesse mesmo manuscrito, Gauguin também escreveu: ‘Estude a silhueta de cada objeto, a distinção do esboço é o atributo da mão que não está enfraquecida por qualquer hesitação da vontade’. Foi, de fato, por tal incisividade de visão (bem como de sagacidade e vontade tão própria) que ele admirava Degas.

Esta imagem, pintada naquela margem de Atuana, que ele podia ver de sua última casa nativa, parece criada a partir de uma reminiscência das pinturas de Degas, e exemplifica o poder que Gauguin manteve até o fim. Pois, embora sua configuração seja tão diferente das elegantes cenas de Degas na trilha de ‘Longchamps’, por exemplo, seu espaço, o isolamento das figuras, a sua clareza de contorno - que faz de cada cavalo uma forma fechada, e a sensação de intervalo rítmico, tudo é semelhante.

‘Eu desejei estabelecer o direito de ousar qualquer coisa...’.

’O público não me deve nada, uma vez que minha conquista na pintura é apenas relativamente boa, mas os pintores - que hoje lucram com essa liberdade – eles sim me devem algo’. 


                             Cavaleiros na praia, 1902, Starvros Niarchos Collection, Greece 


‘Gauguin morreu em 8 de maio de 1903, em sua residência. Ele tinha dado a seu lar o nome de ‘Casa de Contentamento’, e mandara entalhar acima da porta as frases: ‘Seja misterioso’ e ‘Ame e será feliz’. Era o seu adeus ao mundo’.



IX. Influência na pintura de Gauguin, e os desenvolvimentos a partir dela.

Quando Paul Gauguin encontrou Emile Bernard, em Pont-Aven pela primeira vez, ele já tinha 42 anos, e Bernard somente 18 anos.

Bernard já tinha criado a técnica nova: le cloisonisme. Os pintores da academia Julian (Denis, Serusier, Scuffenecker, Laval) se inspiraram ainda no grupo dos Nabis.

Emile Bernard é visto como o fundador da escola de Pont-Aven.

Gauguin conservou antes de sua partida para o Taiti uma relação amigável com ele e sua irmã Madeleine.

Gauguin seguiu as experiências de Emile sobre a cor, e a função da luz e da sombra. O conjunto de sua obra influenciou a evolução da pintura da época, notadamente o fauvismo do século 20.


 



Referências: História das Artes  |   WP  | Valiletaratura  |

 

(JA, Ago20)

 


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Masp e MAM se rendem ao virtual

Exposições de Hélio Oiticica e Antônio Dias estavam em montagem quando coronavírus fechou museus em São Paulo

Na semana em que começou a quarentena em São Paulo, dois dos principais museus da cidade de São Paulo, o Masp e o MAM,  planejavam abrir mostras cercadas de expectativa.

 

                                        Museu de Arte  de São Paulo – av. Paulista

A do Masp era ‘Hélio Oiticica: A Dança na Minha Experiência’, que articula o tema da programação deste ano, a dança, e o incontornável artista carioca, um dos maiores nomes do neoconcretismo.

A do MAM, a primeira retrospectiva do paraibano Antonio Dias desde a sua morte, há dois anos, com o subtítulo de ‘Derrotas e Vitórias’.


Museu de Arte Moderna de São Paulo – Parque do Ibirapuera


Quase seis meses depois, elas enfim podem ser vistas pelo público, em prévias virtuais —os museus ainda não têm data para retomar as atividades, embora a prefeitura paulistana estime que isso possa acontecer entre o final de setembro e o início de outubro.

No caso do Masp, esse aperitivo consiste numa seleção de imagens das obras e da exposição montada no subsolo, e de um vídeo de uma visita guiada por ali com o curador-chefe da instituição, Tomás Toledo. Ainda foi lançado um catálogo caprichado, à venda no site do museu.


      Réplicas de parangolés que podem ser vestidos pelo público na mostra 'Hélio Oiticia - A Dança na Minha            Experiência', no Masp 


Toledo afirma que a proposta da exposição era partir dos parangolés - icônicas capas criadas por Oiticica para serem vestidas pelo público -, mas sem se limitar a isso.

Desse modo, ali estão reunidos vários dos ‘Metaesquemas’ do artista, em que formas geométricas e traços coloridos parecem bailar sobre o papel. Também estão lá seus ‘Núcleos’, ‘Penetráveis’ e ‘Bólides’, peças que traduzem as preocupações cromáticas e geométricas para um espaço tridimensional e que marcam o início da busca de Oiticica pela aproximação com o corpo do visitante.

Os últimos, caixinhas com pigmentos e outros materiais que originalmente podiam ser manuseadas pelo público, inauguram o momento em que o carioca começa a tratar de temas políticos e sociais na sua obra. ‘São trabalhos que trazem a rua para dentro de si’, diz Toledo.

Ele lembra o ‘Bólide’ em homenagem ao bandido carioca Cara de Cavalo, executado à queima-roupa pela polícia nos anos 1960. Ou aquele que, abrigando um espelho, reflete os passantes e o local onde estão.

 


É, porém, um outro ‘Bólide’ da mostra que talvez melhor resuma a busca do artista no momento anterior à invenção dos parangolés, diz o curador. É uma caixa cheia de água, que tem no fundo a inscrição ‘mergulho no corpo’.

Já a mostra do MAM reúne trabalhos encontrados no próprio ateliê de Dias, no Rio de Janeiro, cidade onde ele viveu seus últimos oito anos. O peso deles, aliado ao fato de que o artista chegou a comprar alguns dos itens de outros colecionadores, podem indicar como Dias enxergava suas criações, diz Felipe Chaimovich, à frente da mostra. ‘É um museu que ele fez da própria obra’.

Da seleção original de quase 70 peças, porém, só dez estão na prévia que o museu inaugurou no ‘Google Arts and Culture’. A maioria delas é acompanhada de trechos de entrevistas de Dias que, na exposição original, estariam decalcadas nas paredes. ‘Quis muito dar voz ao artista, já que era a coleção dele’, justifica Chaimovich.

 

                                'Nota Sobre a Morte Imprevista', de Antônio Dias, de 1965


A mostra online constrói, assim, uma espécie de panorâmica da trajetória do artista, passando das referências aos quadrinhos de obras como a seminal ‘Nota sobre a Morte Imprevista’, da época da ditadura, até chegar à sua produção dos anos 2000 com ‘Seu Marido’, figura saltitante que, coberta por franjas amarelas, lembraria um personagem infantil, não fosse a aparência fálica.


                              'Eu Marido', obra de Antonio Dias, 2002, em colaboração com a Coopa-Roca RJ 


Segundo Chaimovich, são trabalhos marcados por uma certa incompletude, não só em termos de composição como num sentido ético. ‘Sempre há algo que falta, e de certa maneira essa falta costura toda a obra. É um artista que lidou com a ideia da finitude humana’, afirma o curador.

Mesmo que a reunião de obras do ‘Google Arts and Culture’ seja uma boa porta de entrada para o trabalho de Dias, a transposição para a tela do computador deixa alguns prejuízos.

Exibida numa fotografia, imóvel, ‘Seu Marido’ perde parte do humor e da surpresa. A série de vídeos ‘The Illustration of Art/Gimmick’, em geral mostrada em três televisores, foi reduzida a um único frame.

Isso sem falar nos trabalhos que usam pigmentos minerais, que, na visão de Dias, operavam como condutores de energia. ‘A representação virtual é sem dúvida didática, mas, para o próprio artista, o sentido de várias de suas obras é físico’, diz Chaimovich.

Na mostra de Oiticica, a maior perda será da mostra física. As réplicas de parangolés que o museu produziu para serem usadas pelos visitantes, a princípio, não poderão ser manuseadas, por causa do risco de transmissão do coronavírus, conta Toledo.

 

HÉLIO OITICICA: A DANÇA NA MINHA EXPERIÊNCIA

Onde Site do Masp

Link   https://masp.org.br/exposicoes/helio-oiticica-a-danca-na-minha-experiencia

 

ANTONIO DIAS: DERROTAS E VITÓRIAS

Onde Página do MAM-SP na plataforma ‘Google Arts and Culture’

Link https://artsandculture.google.com/partner/museu-de-arte-moderna-de-sao-paulo

 

Curadoria Felipe Chaimovich

 



Fonte: Clara Balbi   |   FSP

 

(JA, Ago20)