sexta-feira, 11 de junho de 2021

Benedito Calixto

 


Benedito Calixto de Jesus foi um pintor, desenhista, professor, historiador e astrônomo amador brasileiro.

Calixto tinha uma inteligência e dotes artísticos verdadeiramente excepcionais, tanto que foi o primeiro ‘aluno de arte’ do Brasil a ser aceito nos célebres ‘ateliers’ de Paris, sem antes ter cursado a Academia Imperial do Rio de Janeiro.

Suas pinturas se encontram nos principais museus do Brasil, incluindo até o Estado do Pará. Várias prefeituras e igrejas também possuem suas telas, e diversos particulares as possuem em suas coleções.


Histórico

Benedito Calixto nasceu no dia 14 de outubro de 1853 na Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém. Quando adolescente se transferiu para Brotas, onde pintou seus quadros iniciais.


Porto de Santos


Em 1881, passa a residir em Santos, cidade que lhe serve de inspiração para vários quadros. Com uma bolsa concedida pela cidade de Santos.

Viaja para Paris, segue até Lisboa, onde por muito pouco tempo recebe aulas de Silva Porto, tendo ainda frequentado o ateliê de Malhoa, onde permanece menos de um ano, trazendo de lá um equipamento fotográfico.


Longe do Lar, 1884


Retornando ao Brasil em 1885, Calixto é rigorosamente o mesmo de quando embarcou: imune a influências, impermeável ao fascínio cultural da capital francesa, permanece até o fim um isolado, praticando um tipo de pintura do qual não se arredaria um milímetro, alheio a qualquer inovação ou renovação. 


Largo da Sé, Igreja Matriz, 1555-1744, 1865


É com o quadro ‘Enchente na Várzea do Carmo’, ~1892, que o artista consegue maior destaque: a crítica da época aponta a exatidão admirável com que representa a cidade de São Paulo, e alguns de seus principais pontos, como o mercado, a rua 25 de março, a fábrica de chitas, e o casario do Brás.

O artista realiza diversas obras para o Museu Paulista da Universidade de São Paulo – MP/USP, sob encomenda de Afonso d´Escragnolle Taunay, 1876-1958, sobretudo cenas da São Paulo antiga e paisagens, sendo que algumas foram baseadas em desenhos de Hercule Florence, 1804-1879, ou em fotografias de Militão Augusto de Azevedo, 1837-1905, entre outros.

 

Fundação de Santos


Para seus quadros históricos e religiosos, como Fundação de São Vicente, 1900, ou Fundação de Santos, 1922, realiza estudos fotográficos preparatórios, para os quais se vale de minuciosa pesquisa histórica.

As paisagens é a temática mais cara ao artista. Nessas obras, apresenta uma pintura lisa, com o uso de veladuras, e um colorido sempre fiel às características locais, embora trabalhado de maneira bastante pessoal no uso dos verdes, azuis e ocres.

Benedito Calixto, que dispunha de amplo conhecimento sobre o litoral paulista, atua ainda como cartógrafo, realizando ensaios de mapas de Santos, e como historiador, escrevendo sobre as capitanias paulistas.

Quando descansa da pintura, é no passado histórico de São Paulo que se refugia, ou então se volta para as estrelas, em sua paixão de astrônomo amador.

Esse amor excessivo à História seria, aliás, nocivo ao artista, que com escrúpulos de documentarista chegou a povoar de indígenas o quintal de sua casa, a fim de mais fielmente pintar.

Para os últimos anos de vida, sobretudo, transformara-se Calixto numa autêntica máquina de fazer quadros, como se pode observar desse trecho de uma carta, remetida em maio de 1919 a um comerciante que se incumbia de lhe vender a produção:

‘Peço-lhe o favor de tomar nota das pessoas que querem outros quadros, a fim de que as mesmas se expliquem sobre o tamanho, e o gênero que desejam, bem como o ponto, ou lugar, que devo reproduzir’.

Na mesma carta, desencantado, acrescenta:

‘Pouco ou nada me adianta, agora que já estou velho, a opinião e conselho dos críticos sobre meus trabalhos. Desejaria apenas, que os jornais dessem notícias dos quadros vendidos etc., e mais nada, pois não preciso de reclame’.

Foi o isolamento em que viveu Calixto que o impediu de participar com frequência do Salão Nacional de Belas Artes, em cujos catálogos o seu nome surge apenas duas vezes, em 1898 (medalha de ouro de terceira classe), e em 1900. Também por isso não tomou parte, senão raramente, de certames internacionais, como a Exposição de Saint-Louis de 1904, na qual conquistou também medalha de ouro.

Calixto foi pintor de marinhas, paisagens, costumes populares, cenas históricas e religiosas. Se durante a sua vida a tendência era considerá-lo acima de tudo como pintor de história e religioso, (gêneros esses nos quais deixou abundante produção, inclusive na Catedral e na Bolsa de Santos; no Palácio Cardinalício do Rio de Janeiro; na Igreja de Santa Cecília em São Paulo; e na Matriz de São João Batista em Bocaina), hoje costuma-se conceder bem maior importância às cenas portuárias e litorâneas, nas quais extravasa um caráter talvez rude, mas pessoal e profundamente sincero, na abordagem dos diversos aspectos da natureza. 



Navio no Porto de Santos


Os quadros em que fixou o desembarque do café, no primitivo porto de Santos, ao lado do seu aspecto puramente documental, revestem-se de força expressiva, apesar da aparência algo dura das embarcações; por outro lado, convém destacar certas cenas litorâneas ou ribeirinhas, em que a um desenho algo ingênuo e a um colorido preciso, aliam-se uma nítida preocupação atmosférica, e um grande respeito ao meio ambiente.

O artista faleceu a 31 de maio de 1927, em São Paulo, tendo sido, porém, enterrado no Cemitério de Paquetá, em Santos. Três anos antes, recebera do Papa Pio IX a comenda e a cruz de São Silvestre Papa, em recompensa aos serviços prestados à Igreja com sua arte.

 

Fonte:  Mercado da Arte – blog

 

(JA, Jun21)

 


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Jean-Baptiste Debret

  

Jean-Baptiste Debret (Paris, França 1768 - idem 1848), foi um Pintor, desenhista, gravador, professor, decorador, cenógrafo.

Frequentou a Academia de Belas Artes, em Paris, entre 1785 e 1789, tendo sido aluno de Jacques-Louis David (1748-1825), seu primo e líder do neoclassicismo francês.

Estudou fortificações na École de Ponts et Chaussée [Escola de Pontes e Rodovias, futura Escola Politécnica], onde se tornou professor de desenho.

Em 1798, auxiliou os arquitetos Percier e Fontaine na decoração de edifícios. Por volta de 1806, trabalhou como pintor na corte de Napoleão (1769-1821). Após a queda do imperador, e com a morte de seu único filho, Debret decide integrar a Missão Artística Francesa, que veio ao Brasil em 1816.

Instalou-se no Rio de Janeiro e, a partir de 1817, ministrou aulas de pintura em seu ateliê, onde teve como aluno Simplício de Sá (1785 - 1839).

Em 1818, colaborou na decoração pública para a aclamação de D. João VI (1767-1826), no Rio de Janeiro.

Por volta de 1825, produziu águas-fortes, que estão na Seção de Estampas da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 


                   Casario, aquarela sobre papel 


De 1826 a 1831, foi professor de pintura histórica na Academia Imperial de Belas Artes - AIBA, atividade que alterna com viagens para várias cidades do país, oportunidades em que retrata tipos humanos, costumes e paisagens locais.

Na AIBA teve como alunos Porto Alegre (1806-1879), e August Müller (1815-~1883).

Em 1829, organizou a Exposição da Classe de Pintura Histórica da Imperial Academia das Bellas Artes, primeira mostra pública de arte no Brasil.

Deixou o Brasil em 1831, e retornou a Paris com o discípulo Porto Alegre.

Entre 1834 e 1839, editou, o livro ‘Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil’, em três volumes, ilustrado com litogravuras que têm como base as aquarelas realizadas com seus estudos e observações.


Sinopse

Jean Baptiste Debret estudou na Academia de Belas Artes, de Paris, entre 1785 e 1789, onde foi aluno do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825), formou-se, portanto, dentro dos ideais neoclássicos.

Pintor de história, trabalhou com arquitetos conceituados na ornamentação de edifícios públicos e particulares.

Em torno de 1806 foi pintor na corte de Napoleão.

Integrou a Missão Artística Francesa, que veio ao Brasil em 1816, cujo primeiro objetivo era promover o ensino artístico no país. Em seu ateliê lecionou pintura e teve como alunos, entre outros, Porto Alegre (1806-1879), August Müller (1815-~1883), e Simplício de Sá (1785-1839).

Realizou em 1818, com o arquiteto Grandjean de Montigny (1776-1850), a ornamentação das ruas da cidade do Rio de Janeiro, para a aclamação de D. João VI (1767-1826).

Na Academia Imperial de Belas Artes - AIBA, a partir de 1826, ensinou pintura histórica. Paralelamente, visitou várias cidades do país, representando suas paisagens e costumes.

Organizou, em 1829, a ‘Exposição da Classe de Pintura de História da Academia’, importante por ser a primeira mostra pública de arte no Brasil, dando origem às Exposições Gerais, com prêmios oficiais.

Trabalhou como pintor da corte, representando acontecimentos ilustres e cenas oficiais. Revelou-se um desenhista atento às questões sociais brasileiras, ilustrando e documentando os acontecimentos da época.

A maioria de suas telas parece ser destinada à gravura. Debret e a corte têm consciência da importância da circulação das gravuras para a divulgação da imagem do Estado. Segundo o historiador Luciano Migliaccio, por esse motivo a pintura de Debret é, em parte, descrição atenta do cerimonial da corte, em formato modesto e apropriado, para fácil compreensão, como ocorre, por exemplo, com os quadros Aclamação de Dom João VI (~1822) e Chegada da Imperatriz Leopoldina (1818).

No quadro Coroação de Dom Pedro I (1822), que teve por modelo a pintura de David, o artista conferiu à obra um caráter cívico, e se preocupou com a necessidade de criação de um imaginário político.

Debret retornou à França em 1831.

Parte das aquarelas feitas no Brasil, litografadas, ilustra a obra ‘Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil’, publicada entre 1834 e 1839.

O livro, em três volumes, trata das florestas e dos selvagens, das atividades agrárias, do trabalho escravo, e dos acontecimentos políticos e culturais.

Destaca-se a preocupação documental do artista, que representa cenas típicas de atividades e costumes do Rio de Janeiro, procurando traçar um painel social da cidade.

Apresenta muitos aspectos relacionados ao trabalho escravo, ora acentuando o lado mais expansivo das relações sociais, ora expondo serviços extenuantes, como os de carregadores e trabalhadores das moendas. Mostra o trabalho dos negros de ganho que percorrem as ruas da cidade, prestando vários tipos de serviços.

O historiador Rodrigo Naves aponta a dificuldade do artista em transpor as ideias neoclássicas para o Brasil, por fatores como o caráter da monarquia instaurada, e a questão da escravidão no país. Para o autor, os desenhos realizados para a Viagem Pitoresca revelam o esforço do artista para lidar com o dilema criado pelo conflito entre sua formação neoclássica e a realidade brasileira.

Nas aquarelas, feitas com agilidade, o artista parece sentir-se mais à vontade, e revela seu domínio técnico: elas apresentam um colorido espontâneo, leve e harmonioso. Segundo Rodrigo Naves, em algumas aquarelas, a forma de representação dos trabalhadores faz com que seus corpos tenham um aspecto vulnerável. Também nas vestimentas ocorre forte ambiguidade: sobrepostas, soltas, meio esgarçadas e rudes, as roupas dos negros não mantêm vínculos com a tradição dos panejamentos.

Na representação dos personagens de Debret, os tecidos transmitem aos corpos sua falta de consistência.

Nas gravuras, as situações dúbias da sociedade revelam-se pela aproximação entre as figuras e seu ambiente. Os contornos são pouco marcados, um meio cinzento aproxima corpos e espaço, como ocorre em Lavadeiras a Beira-Rio (Viagem Pitoresca).

Nas litografias, a sutileza do cinza cria uma espécie de liga que unifica as cenas.

Nas ilustrações da Viagem Pitoresca, por meio da fragilidade das formas e da pressão que os personagens sofrem do espaço, o artista expressa a ambiguidade da sociedade brasileira.

Após o retorno a Paris, o artista retoma o contato com companheiros neoclássicos, volta ao linearismo, às formas incisivas, e à gestualidade acentuada.

 

Retour d'un proprietaire 

 


Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural 


 

(JA, Mai21)

 


segunda-feira, 19 de abril de 2021

Vênus de Milo tem vida de celebridade depois de anos debaixo da terra

 

Escultura achada em escombros é uma das obras mais famosas do mundo

 

‘Vênus de Milo’, Museu do Louvre, Paris - França, 2021 


A obra representa uma mulher com mais de dois metros de altura, vestindo apenas uma túnica na cintura. Sua característica mais marcante, além da beleza, é que seus braços estão faltando —parecem quebrados - um deles pouco acima do cotovelo, e o outro, bem junto ao ombro.

O fazendeiro, de nome Theodoros Kendrotas, avistou primeiro só um pedaço da Vênus, que estava inteira debaixo de escombros. Olivier Voutier, um oficial da Marinha francesa que havia acabado de chegar à Grécia com seu navio chamado Estafette, e que também estava cavando na região, percebeu o movimento de Theodoros.

Olivier procurava antiguidades, e rapidamente entendeu que a escultura encontrada era uma importante obra de arte, que certamente valeria bastante dinheiro. ‘Ele percebeu de cara que a Vênus era coisa de um grande artista’, assegura o historiador e crítico de arte João Spinelli, professor na USP e na Unesp.

Depois de negociações e algumas viagens, a Vênus de Milo hoje mora no Museu do Louvre, o mais famoso de Paris, capital da França. Não há como ter certeza sobre quem foi seu criador, mas as suspeitas são de que ela teria sido esculpida por Alexandros de Antióquia, ou por Praxiteles, dois importantes artistas de diferentes períodos da história.

A estimativa é que ela tenha sido produzida por volta do ano 300 a.C, o que faria dela uma obra com mais de 2000 anos de idade. João Spinelli explica que, nessa época, era comum que os artistas retratassem a mitologia, e por isso existe a certeza de que esta escultura representa uma deusa —Vênus, o nome romano para a grega Afrodite, divindade da beleza e do amor.

Um colega do oficial Olivier Voutier, que também estava presente quando a escultura foi encontrada, deixou um relato por escrito. Nele, ele fala dos braços da Vênus, dizendo que sua mão direita segurava parte da roupa, e a mão esquerda segurava uma maçã.

O professor João Spinelli diz que, mesmo que não seja possível admirar estas partes da obra —que também perdeu parte do coque no cabelo e o pé esquerdo—, todo mundo pode imaginá-las.

‘Uma pessoa que observa algo inacabado tem a capacidade de completar aquela falta emocionalmente. É melhor ter a verdade faltando do que uma mentira acrescentada’, diz ele, sobre a possibilidade de a escultura ser restaurada com novos braços.

‘Através de fragmentos você pode imaginar como seria a beleza daquele braço que está faltando. É preferível deixar fragmentos que você tem certeza de que são do artista, do que acrescentar adereços que comprometam sua qualidade’.

A artista e galerista Maria Montero também sugere um exercício diante de obras como a Vênus de Milo. ‘Quando você olha em um museu uma obra que foi produzida quase 400 anos antes de Cristo, tudo parece muito distante, mas é bacana para a gente pesquisar o que acontecia naquela época’, diz.

‘Um bom exercício é pensar como vai ser daqui a 200 anos, quando alguém encontrar uma obra produzida hoje. Que obra seria essa? Quais pistas ela traria sobre o que estamos vivendo hoje?’, propõe. ‘A arte é uma lupa da sociedade. Pense no que você gostaria que um arqueólogo encontrasse para falar sobre nosso período atual’.

Ainda sobre a ‘Vênus de Milo’, o professor João acredita que ela seja a segunda obra mais visitada do Museu do Louvre, perdendo apenas para a Mona Lisa. ‘Ela caiu no gosto do povo, foi transformada em souvenir, e já foi reinterpretada inúmeras vezes. Virou um símbolo de feminilidade’, resume.

 

                  Turistas observam a ‘Vênus de Milo’


Isso se deve à graciosidade da escultura, explica João. ‘A graça é uma beleza espontânea, singela, não é apelativa. A Vênus de Milo é um perfeito exemplo deste conceito estético’, ensina.

‘Pessoas importantíssimas a estudaram, a questionaram. Obras símbolo da graciosidade mostram mulheres lindas e elegantes, sem afetação. Não há nelas nada que o artista tenha colocado para deixá-las mais imponentes. E a Vênus de Milo é imponente por si só’.

Existem algumas obras de arte que pode até ser que a gente não saiba o nome, mas que todo mundo já viu alguma vez na vida e reconhece de longe. É o caso da ‘Mona Lisa’, por exemplo, pintada por Leonardo da Vinci, ou de ‘O Grito’, criado por Edvard Munch.

Na última quinta-feira (8), foi comemorado o aniversário de descobrimento de uma obra dessas: a ‘Vênus de Milo’. Há 201 anos, um fazendeiro estava escolhendo boas pedras para construir um muro em sua casa, na ilha grega de Milos, quando se deparou com a hoje famosa escultura soterrada.

 


 

Fonte: Marcella Franco   | FSP

 

(JA, Abr21)

 


quarta-feira, 14 de abril de 2021

Jeanne Hébuterne

A trágica história de amor de dois pintores talentosos

A artista amou Amedeo Modigliani até a morte

 


Jeanne Hébuterne sacrificou seu talento e toda sua vida pelo amor ao conhecido pintor Amedeo Modigliani. Não foi uma história com final feliz. Apesar dos brilhantes dons artísticos de ambos, sua vida foi cheia de vícios, doenças, problemas financeiros... e amor excessivo.

Jeanne Hébuterne, apesar de ser uma prolífica pintora, entrou para a história apenas como esposa do famoso artista Amedeo Modigliani, naquela que é lembrada como uma das mais trágicas histórias de amor do mundo da arte.

Infelizmente, as produções de Jeanne Hèbuterne foram totalmente ofuscadas para ceder à proeminência de seu esposo. Ela, que tinha um talento notável, teve que abandonar seu gênio para homenagear seu companheiro de vida.


 


Sua vida progrediu em uma evolução agonizante que a levou à abnegação e submissão, à destruição pela relação tortuosa e, em última instância, à mitologização de um amor romântico inexistente, cujo fim foi a depressão, a alienação e o suicídio. Uma vida triste e dramática da qual, ainda hoje, devemos aprender.

Quem foi Jeanne? Ela era uma menina que nasceu em 6 de abril de 1898 em Meaux, Seine-et-Marne, na França. Filha de família simples, austera, católica e trabalhadora - seu pai trabalhava como contador em um armarinho no centro comercial da cidade - seus dons apareceram muito cedo.

Seu irmão André, que queria ser pintor, apresentou-a à comunidade artística de Montparnasse onde conheceu alguns artistas com os quais aprendeu, e até posou.

Jeanne era uma jovem gentil, tímida e calma. Adorava música, tocava violino e criava designs de roupas com influências orientais.

 

Retrato de Jeanne por Modigliani

.

"É uma das histórias de amor mais trágicas do mundo da arte.”

 

Dois jovens artistas

Sua pintura, por outro lado, era fresca, colorida e de traços firmes, sendo muito apreciada pelo círculo de artistas da época. Aos 19 anos ingressou na Academia Calarossi, onde conheceu o homem por quem se apaixonou, que na altura tinha 33 anos, e já tinha uma reputação duvidosa de depravado, alcoólatra e extravagante. 


Uma das turmas da Academia Calarossi 

Era Amedeo Modigliani, nascido em 1884 em Livorno, Itália, de onde partiu rumo à boêmia Paris, aos 21 anos. Na capital francesa conviveu com alguns dos pintores mais importantes da época: Picasso, Renoir, Gauguin, Utrillo, Gertrude Stein...

Foi aqui que Amedeo se tornou um artista extravagante, sempre com o lenço de seda ao pescoço. Logo ficou conhecido pelo apelido de Modi, que nada mais era do que um jogo de palavras entre um diminutivo de seu sobrenome e a expressão ‘pintor maldito’, que em francês se diz ‘peintre maudit’.

 

Óleo assinado por Hébuterne 


Modi exerceu um poderoso magnetismo sobre as mulheres, despindo seus corpos para retratá-las e suas almas a serem entregues a ele. Entre suas inúmeras conquistas estão a poetisa russa Anna Ajmátova, Simone Thiroux, Lunia Czechowska, a pintora inglesa Nina Hamnett, a pintora russa Marie Vassilieff ou a escritora inglesa Beatrice Hasting, com quem teve uma relação tempestuosa durante dois anos. 


Um dos retratos pintados pela jovem artista


"A pintura de Jeanne era fresca, colorida e firme nos traços e muito apreciada pelo círculo de artistas da vez.”

 

Mas Hébuterne e Modigliani se conheceram na primavera de 1917, à luz da ilusão de estudar na escola de arte e se tornar grandes artistas.

Os dois se apaixonaram profundamente, e sem esperar muito, no outono de 1918, e depois que sua primeira exposição foi encerrada devido a inúmeros retratos de nus, o casal mudou-se para a tranquilidade de Nice.

O agente de Modigliani esperava que ele pudesse aumentar seu perfil ali, vendendo algumas de suas obras para ricos conhecedores de arte que passaram o inverno na cidade da Riviera Francesa. Tudo isso, apesar das fortes objeções dos pais de Jeanne, que viam no pintor uma influência perigosa para a jovem. Na verdade, sua família decidiu cortar seu subsídio financeiro.

 

Retrato de Modigliani de Jeanne Hébuterne 


Uma grande tragédia

Em Nice, eles tiveram sua primeira filha. Mas os demônios de Modigliani não demoraram a aparecer: ele era alcoólatra e viciado em drogas. Ao regressar a Paris, a situação económica precária que atravessavam, praticamente sufocada por dívidas e vivendo num quarto húmido e frio, tornava tudo muito mais insustentável.

Os chamados ‘amantes de Montparnasse’ tinham pouco para comer. Como se isso não bastasse, Modigliani escondeu sua tuberculose de praticamente todos que conhecia. Essa doença foi a principal causa de morte na França na primeira metade do século 20. Não havia cura, e quem sofria era temido, marginalizado e miserável.

 

Modigliani em seu estúdio 


"Ao voltar para Paris, os chamados ‘Amantes de Montparnasse’, apenas tinham o que comer.”


Em janeiro de 1920, Modi ficou imóvel em sua cama, tentando se agarrar aos seus últimos momentos de vida. Jeanne a seu lado, grávida de oito meses do segundo filho do casal, veio retratá-lo, numa vã tentativa de fazê-lo ficar. Finalmente, Modigliani morreu em 24 de janeiro de 1920 aos 35 anos.


Autorretrato da pintora 


Seu amigo e vizinho, o pintor chileno Manuel Ortiz de Zárate, surpreso por não ter notícias deles em poucos dias, foi quem os descobriu em seu apartamento sombrio, onde os amantes sobreviveram por vários dias com latas de sardinhas e inúmeras garrafas de vinho. Infelizmente para Modi, era tarde demais. Eles o transferiram para o hospital, onde morreu naquela mesma noite devido a uma meningite tuberculosa.


Jeanne revisando um de seus trabalhos 


Jeanne, prestes a trazer seu segundo filho ao mundo, estava vazia, incompleta sem o amor de sua vida. Seus pais a levaram para casa, mas ela sentia que não pertencia mais a este mundo. Na mesma noite em que chegou, enquanto os pais conversavam com o irmão sobre o futuro de Jeanne e dos filhos, ela se jogou pela janela do apartamento do quinto andar. Tinha então 22 anos.

A família dela culpou Modigliani por sua morte e não quis enterrá-la ao lado dele. Mas quase dez anos depois, em 1930, graças aos esforços do irmão mais velho do pintor, a família foi convencida a permitir que os restos mortais de Jeanne ficassem ao lado dos de Modi, no cemitério Père Lachaise.

O epitáfio de Modigliani diz:

   ‘Chamado pela morte quando havia alcançado a glória’

E o de Jeanne:

   ‘Companheira devotada até o sacrifício extremo’

 

O suicídio (presságio de uma pintura a óleo da jovem artista) 


Modigliani foi enterrado quase como um príncipe, após um cortejo fúnebre formado por toda a comunidade de artistas, que acompanharam o caixão pelas ruas de Paris, até chegarem ao cemitério. Por outro lado, ela foi enterrada em segredo, na mais absoluta vergonha, e na mais estrita privacidade, no cemitério de Bagneux.

 

Retrato impactante de Jeanne 


Após a morte de Jeanne, a irmã de Modigliani adotou a única filha que sobreviveu à tragédia, a pequena Jeanne Hébuterne Modigliani, que anos depois publicou uma das biografias mais importantes sobre seu pai, Modigliani: o homem e o mito. Por sua vez, as obras de Jeanne permaneceram no esquecimento, até que um especialista em arte, apoiado por sua filha, decidiu dar-lhes acesso público.

Em 2000, suas pinturas foram apresentadas em Veneza, na Fundação Giorgio Cini.

 

A filha do casal, autora de uma biografia essencial de seu pai 


Jeanne Hèbuterne é mais um exemplo da invisibilidade de uma mulher brilhante e de grande talento, que decidiu sacrificar a sua vida profissional e mesmo pessoal, neste caso até à morte, em busca do protagonismo do seu cônjuge. 

 


Fonte: Mundo Yold

 

(JA, Abr21)

 


terça-feira, 13 de abril de 2021

Calipígia

A preferência nacional ao longo dos tempos


A mania não é recente: desde os tempos de Caminha, Anchieta e Nóbrega que esta terra abençoada cultiva suas taras -o que deu muito trabalho aos jesuítas. Já no início do século 17, quando o Brasil tinha a idade do nosso Barbosa Lima Sobrinho, um viajante que andou pelo Brasil notou que éramos chegados a uma perversão sexual. O pudor da época impediu que ele fosse mais claro a respeito dessas taras, mesmo assim deixou algumas dicas ao notar que as nossas mulheres tinham ‘ancas e nádegas enxundiosas que convidavam à luxúria’.

No início do século que está acabando, houve um incidente que ia criando um ‘casus belli’ entre o Brasil e a Argentina: uma brasileira quebrou a cara de um argentino na Calle Florida, usando uma daquelas sombrinhas do tempo de Marcel Proust que, abertas, pareciam um abajur.

Motivo: o argentino insinuara alguma coisa abominável. Na mesma época, as marafonas portenhas fizeram um abaixo-assinado às autoridades locais pedindo que a polícia impedisse os visitantes brasileiros de terem acesso aos lupanares. Motivo: os brasileiros só queriam aquilo.

Daí que, sendo ou não preferência nacional, a bunda é mais nossa do que a Petrobrás -que anda ameaçada nesses tempos neoliberais de globalização. Não sendo recente, a mania não pode ser considerada uma exclusividade nossa. A Bíblia e o Alcorão mencionam esse tipo de obsessão que acompanha o homem desde a caverna. Daí a prodigalidade com que a estatuária consagra essa preferência. Os livros que se dedicam ao assunto destacam duas vênus dos tempos mais remotos: a de Laussel, que é uma espécie de baixo relevo, e a de Willemdorf, esta última podendo ser confundida com uma brasileira de nossos dias, dessas que desfilam nas escolas de samba.

Em tempo: chamar de vênus essas imagens ou estátuas é uma metáfora: a Grécia sequer existia e seus deuses não haviam sido criados. Usou-se o recurso para facilitar a coisa, num tempo em que a suficiente palavra ‘Vênus’ tinha carga erótica e patológica, uma vez que logo produziria o adjetivo ‘venéreo’.

A posteridade adotou a nomenclatura e passou a chamar de ‘Vênus’ qualquer figura, esculpida ou desenhada, que realçasse as formas da mulher. Até a finada Josephine Baker foi catalogada como a ‘Vênus de Ébano’ -e olha que merecia, tinha um corpão.

Mas nem mesmo as vênus resistem aos movimentos de vanguarda que periodicamente bagunçam o coreto de nossas preferências. A bunda foi declarada ‘la bête noir’ das artes abstratas que nasceram na virada do século. Os dadaístas repudiavam os museus acadêmicos porque eles não passavam de ‘uma coleção de bundas’ -o que era uma generalização apressada: nem a Mona Lisa, de Leonardo, nem as madonas de Rafael entraram nos museus por serem bundudas. Os dadaístas odiavam sobretudo a Vênus Calipígia, que ao contrário da de Milo, não foi encontrada numa ilha com esse nome. Calipígia significa exatamente o que o nome diz: boa de bunda. Desculpem a erudição de almanaque: calipígia vem do grego ‘kalos’, que expressa a ideia do belo, como em caligrafia, que significa boa letra. O ‘pígia’ é fácil de adivinhar.

Pulando da mais remota antiguidade para a Renascença, a bunda prosseguiu inspirando artistas de gênio. Há magníficas bundas até mesmo na Capela Sistina, local acima de qualquer suspeita. Mais tarde ainda, ao longo do século 19, Ingres e Renoir deixaram-nos excelentes espécimes. Esse último, não contente em desenhar bundas com generosidade, procurou nelas a essência da carne por meio das complicadas cores que o tornaram notável.



O fotógrafo americano Man Ray, 1890-1976, que pode ser considerado um artista de vanguarda, deixou-nos, em 1924, o ‘Violino de Ingres’; uma boazuda nua e sentada, de costas, provando que o redondo dos violinos, como o dos vasos gregos, teve a mesma inspiração. E para o meu gosto pessoal temos Velásquez, mais antigo do que Renoir, que nos deixou a ‘Vênus ao Espelho’, com um ângulo estupendo, o volume exato, a posição perfeita. Nenhuma dessas meninas que aparecem nas revistas especializadas de hoje podem a ela ser comparadas, donde se conclui que os espanhóis também passavam bem.

Quem passou mal foi a turma da estrada, aí pelos meados do século. As moças da paz e do amor não davam importância a esses detalhes cafonas, eram achatadas, tábuas de passar roupa, usavam uns vestidões folgados e encardidos. E os rapazes preferiam outras coisas, faziam sexo para contrariar o sistema e protestar contra a guerra do Vietnã, não para obterem prazer, que ficava por conta do rock e da droga -o que vem a ser um pleonasmo.

Basta dizer que os modelos mais em evidência naqueles tempos cáusticos eram Veruska e Twiggy. Apesar dos belos rostos, elas não fizeram sucesso na abençoada Terra de Vera Cruz. Daí o famoso brado do cronista José Carlos de Oliveira da varanda do Antonio's, num fim de noite e de bebedeira, clamando:


Prefiro a metade de uma Wilza Carla a duas Veruskas juntas!’ 


Venus of Willendorf (réplica), Age: Around 25,000 BCE 


Estátuas Calipígias

 

No Parque da Luz – um jardim público de 1825, o mais antigo de S. Paulo – ao lado da Pinacoteca, fica localizada a discreta, porém exibida, ‘Ilhota das Estátuas Calipígias’. Basta caminhar pelas sinuosas alamedas de pedestres para chegar até ela. Parece uma miragem nas manhãs ensolaradas.

Um paraíso de moças de curvas sestrosas contrastando com dezenas de esculturas angulosas e arrevesadas que se manifestam como enigmas a serem decifrados.

A menina de braços elevados está ‘À Procura da Luz’ (Maria Martins, 1940). Luz que é fácil encontrar - nas primaveras e verões jorra farta nas manhãs paulistas, antigamente só depois da neblina.

A outra deidade fofa é uma ‘Carregadora de Perfumes’ (Victor Brecheret, 1924 - fundição 1998). A beldade rechonchuda já foi uma grande dama, participou do pomposo ‘Salon d’Automne’ de Paris, em 1924. Muita de sua carga de fragrâncias ainda hoje escapa de seus cântaros, e enche de aromas silvestres o bosque encantado.

As ‘Vênus Calipígias’ são recorrentes no acervo clássico, representam a deusa apreciando seu próprio bumbum, como se o avaliando. Um momento íntimo, mágico e comum. Afinal, quantas infinitas vezes as mulheres não fazem o mesmo diante dos espelhos?

‘Calipígia’ é uma palavra de origem grega, porém, a tradução em português fica especialmente bonita, eufônica e inspirada: ‘bela bunda’. Carregando ressonâncias africanas, essa paixão nacional foi decantada até por Carlos Drummond, no poema ‘A Bunda, que engraçada’.



Outra beldade de 'bunda bela' (portanto cidadã da ilhota) que enfeita a cidade é a indiazinha apaixonada, concebida pela poeta Olavo Bilac e esculpida por William Zadig (1920). Sonhadoramente entretida no idílio de um beijo eterno defronte à Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Não devem jamais movê-la, é embaixatriz da Ilhota, e merece descansar onde está, protegida pelos estudantes e pelas tábuas da lei, depois de ter sido mal falada, repudiada e expulsa de tantos lugares de S. Paulo. Exatamente porque tinha a bundinha empinada e maliciosa.




 

Fonte: Paulistando, Blog  |  Carlos Heitor Cony,  FSP Ilustr

 

(JA, Abr21)




Vicente Caruso, o pintor das ‘pin-ups’ paulistas

Vicente Caruso, 1912-1986, nasceu na cidade de São Carlos. Morou por muitos e muitos anos na Aclimação e no Ipiranga, mas tinha seu ateliê na Rua Augusta.

Vicente foi o grande responsável por adaptar o estilo americano ‘pin-up’ para a realidade brasileira. Seu trabalho ficou famoso por aparecer em calendários de grandes marcas entre os anos de 1940 e 1970. Uma de suas obras mais notáveis, fica por conta das pin-ups do IV Centenário da cidade de São Paulo.

Um pequeno registro sobre as pin-ups fica por conta de que elas foram criadas durante a Segunda Guerra Mundial, e estampavam calendários que eram carregados pelos soldados. Combinando inocência e volúpia, elas passaram a ocupar as casas e estabelecimentos comerciais brasileiros anos mais tarde.                     

 




           

Além das pin-ups, Caruso também pode ser considerado um ‘famoso anônimo’. É dele uma linda pintura, uma figura de Cristo, que muitos brasileiros exibem em suas casas até os dias de hoje.

 

‘Complacência’, obra mais conhecida de Vicente Caruso 

 

Esse cenário, claro, se deve pela ‘pirataria’, já que muitas pessoas imprimem e excluem a assinatura do pintor de suas obras, e vendem essa reprodução artística sem a autorização e remuneração aos herdeiros.    

 

Fonte:   Abrahão Oliveira, São Paulo In Foco   |   Pintores Caruso


 

(JA, Abr21)