sábado, 7 de dezembro de 2019

Para os pequenos fãs de arte! Exposição em cartaz no Farol Santander




Um passeio para apresentar, de maneira lúdica, as obras de uma de nossas maiores artistas! O “Farol Santander” recebe a partir do dia 26 de novembro a mostra Tarsila para Crianças. A exposição é totalmente imersiva e a garotada vai poder se sentir dentro dos quadros! A atração fica por lá até 2 de fevereiro de 2020 e os ingressos custam R$25 e a entrada é grátis para crianças até 2 anos e 11 meses.

A mostra é toda instagramável e utiliza de recursos cenográficos como almofadas e lustres, em um espaço de cerca de 490 metros quadrados. São sete estações temáticas, divididas entre os andares 19 e 20 do prédio.


Confira as estações



1.      Vila dos Sentidos – a exposição começa com um cenário bucólico que remete à infância de Tarsila na fazenda São Bernardo, onde cresceu brincando com seus mais de 40 gatos e fazendo bonecos de mato. Uma mini vila caipira será formada por quatro casinhas tridimensionais, rodeadas por cestos de frutas, com inspiração no quadro A Feira. Cada casinha apresentará uma característica marcante relacionada à infância da pintora, como o quarto com sua caixinha de música e bonecas de mato, a sala de estar com piano, foto de família e seus gatos de estimação, e até seu perfume e sabonete preferido.

2.      Toca da Cuca – Inspirado no quadro A Cuca, o público encontrará um espaço com uma projeção com os bichos divertidos inspirados nos seres imaginários presentes na obra de Tarsila do Amaral, que passarão em uma espécie de tapete imersivo, projetado dentro da Toca da Cuca cenográfica, com acesso pelo túnel da lagarta.

3.     Universo Tarsila – Tendo como referência a obra Cartão Postal, os visitantes poderão colorir diferentes elementos encontrados em sua obra e os animais imaginários que habitam o extraordinário e colorido universo de Tarsila, que ganham vida em uma parede interativa instalada no andar.



4.     Floresta Negra – Com uma cenografia e ambientação sonora do que seria a floresta onírica do quadro Floresta, o público poderá se aconchegar no ninho de almofadas que simulam os famosos ovos rosa arroxeados de sua pintura. No mesmo local, baseado na obra Urutu, será possível encontrar um ovo onde os visitantes despertam a curiosidade, observando através de buraquinhos as possíveis criaturas que habitam dentro do ovo. A floresta ainda esconde um guardião, o touro preto (O Touro), que protege com seu mugido quem pensar em fazer mal à natureza. Os visitantes poderão tirar fotos no instapoint do touro. Uma reprodução tátil do quadro Floresta foi criada especialmente para que deficientes visuais conheçam a obra de Tarsila do Amaral.

5.     Jardim Afetivo – Os visitantes serão convidados a embarcar em uma viagem sensorial, com animações e sons, como por exemplo, os ruídos da estação de ferro, da caixinha de música, o coaxar do sapo, os grilos, que remetem diretamente a 4 quadros de Tarsila.

6.      As Cores de Tarsila – Neste ambiente estarão expostos reproduções de diversos quadros impressos e as principais cores da paleta de Tarsila (Cores Caipiras: azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo e verde cantante) para a pintura brasileira e internacional. Ao centro, duas redes coloridas penduradas do teto até quase o chão, representando pinceis. Os visitantes serão convidados a se posicionar nas redes-pinceis, e percebem que no chão há uma projeção que repercute o movimento de cada pincel e vai misturando as cores e dando origem a uma infinidade de pinturas digitais aleatórias.




7.      Papo com o Abaporu – A mais famosa obra de Tarsila,  Abaporu, divide espaço com as obras Sol Poente e A Lua, em uma sala repleta de cactos cenográficos e flores holográficas. O cenário do Sol Poente é pensado para boas fotografias, com diversos pufes espalhados em frente a uma série de círculos laranjas. Nessa sala também há o espaço Papo Com Abaporu, com dois totens touchscreen com perguntas que poderão ser respondidas pelo enigmático personagem via inteligência artificial, através da plataforma Watson.


A exposição é assinado pela YDreams Global, que foi responsável pela em exposição inspirada em Van Gogh, que ficou em cartaz no shopping Pátio Higienópolis. A curadoria é de Patrícia Engel Secco, Karina Israel e da sobrinha-neta da artista, Tarsilinha.


Tarsila para Crianças
Recomendado: Todas as idades
Quando: de 26/11 a 02/02 nas terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos. Horários: das 9h às 20h
Preços: Adultos: R$ 25 Crianças: R$ 12,50  Meia: R$ 12,50
Onde: Farol Santander – Rua João Brícola, 24, Centro - São Paulo
Informações: (11) 3553-5627              Site: ter.li/farolsantander              


Fonte: São Paulo para Crianças



(JA, Dez19)




domingo, 1 de dezembro de 2019

Anita Malfatti





A Estudante, 1915-1916


Anita Catarina Malfatti (São Paulo, 2 de dezembro de 1889 — São Paulo, 6 de novembro de 1964) foi uma pintora, desenhista, gravadora, ilustradora e professora ítalo-brasileira. 

Filha do engenheiro italiano Samuele Malfatti e de mãe norte-americana Eleonora Elizabeth ‘Betty’ Krug, Anita Malfatti nasceu na cidade de São Paulo, em 2 de dezembro de 1889. Segunda filha do casal, nasceu com atrofia no braço e na mão direita.

Aos três anos de idade foi levada pelos pais à cidade de Lucca, na Itália, na esperança de corrigir o defeito congênito. Os resultados do tratamento médico não foram animadores e Anita teve que carregar essa deficiência pelo resto da vida.

Voltando ao Brasil, teve à sua disposição Miss Browne, que a ajudou no desenvolvimento do uso da escrita e no aprendizado do desenho com a mão esquerda. Essa Miss Browne deve ter sido a educadora norte-americana Márcia P. Browne que assessorou Caetano de Campos na reforma que empreendeu no ensino primário e normal em São Paulo, nos primórdios da República. Miss Browne organizou e foi a primeira diretora da Escola Modelo anexa à Escola Normal.

Iniciou seus estudos em 1897 no Externato São José de freiras católicas, hoje não mais existente, outrora localizado na Rua da Glória, onde foi alfabetizada. Logo depois passou a estudar em escolas protestantes: na Escola Americana, em 1903 e, pouco depois, no Mackenzie College onde, em 1906, recebe o diploma de normalista.

Surge a pintora

Nesse meio tempo morreu Samuele Malfatti, esteio moral e financeiro da família. Sem recursos para o sustento dos filhos, Betty passou a dar aulas particulares de idiomas, e também de desenho e pintura. Chegou a pedir orientações do pintor Carlo de Servi para ela com mais segurança ensinar suas discípulas. Anita acompanhava as aulas que tomavam a maior parte de seu tempo - foi portanto sua própria mãe quem lhe ensinou os rudimentos das artes plásticas.

Na Alemanha

Anita Malfatti, aos 22 anos, 1912

Anita pretendia estudar em Paris, mas sem a ajuda do pai parecia impossível, tendo em vista que sua avó vivia entrevada numa cama, e sua mãe passava o dia dando aulas de pintura e de idiomas.

Anita tinha umas amigas, as irmãs Shalders, que estavam prestes a viajar à Europa para estudar música. Assim surgiu a ideia de acompanhá-las à Alemanha e seu tio e padrinho, o engenheiro Jorge Krug, aceitou financiar a viagem.

Anita e as Shalders chegaram a Berlim em 1910, ano marcante na história da Arte Moderna alemã. Berlim era então o grande centro musical da Europa. Acompanhando suas amigas às aulas no centro musical, ali recebeu a sugestão para estudar no ateliê do artista pintor Fritz Burger.

Fritz Burger era um retratista que dominava a técnica pontilhista ou divisionista. Foi o primeiro mestre alemão de Anita. Nessa época ela ingressou na Academia de Belas Artes de Berlim.

Durante as férias de verão, Anita e as amigas foram às montanhas de Harz, em Treseburg, região frequentada por pintores. Continuando sua viagem, visitou a 4° Sonderbund, uma exposição que aconteceu em Colônia na Alemanha, na qual conheceu trabalhos de pintores modernos e famosos, incluindo-se Van Gogh.

Teve aulas também com Lovis Corinth, nome mais conhecido do que seu primeiro mestre. Alguns anos antes Corinth sofrera um acidente vascular cerebral (AVC) que, como sequela, tal como a aluna, lhe deixara alguma dificuldade motora na mão direita. Anita estava cada vez mais interessada pela pintura expressionista. Desejava aprender seu conceito e sua técnica.

Em 1913, inicia aulas com o professor Ernst Bischoff-Culm da mesma escola de Corinth. Com a instabilidade política e social causada por uma guerra que se mostrava iminente, Anita Malfatti resolve deixar Berlim e passando rapidamente por Paris, retorna ao Brasil.

Primeira exposição individual – 1914

Em 1914, Anita tinha 24 anos e, depois de quatro anos de estudo na Europa, voltava para o seio familiar. Anita ainda tinha o desejo de partir mais uma vez em viagem de estudos. Sem condições financeiras, tentou pleitear uma bolsa junto ao Pensionato Artístico do Estado de São Paulo. Por essa razão, montou no dia 23 de maio de 1914, uma exposição com obras de sua autoria, exposição essa que ficou aberta até meados de junho..

O senador José de Freitas Valle foi visitar a exposição. Dependia dele a concessão da bolsa. Mas o influente político não gostou das obras de Anita, chegando a criticá-las publicamente.

Entretanto, independentemente da opinião do senador, a bolsa não seria concedida. Notícias do iminente início da guerra na Europa fizeram com que o Pensionato as cancelasse. Foi aí que, mais uma vez, financiada pelo tio, o engenheiro e arquiteto Jorge Krug, Anita embarca para os Estados Unidos.

Nos Estados Unidos

No início de 1915, Anita Malfatti já se encontrava em Nova Iorque e matriculada na tradicional Art Student's League. Nessa escola, Anita ia de um professor a outro na tentativa de encontrar o caminho que sonhava para seus trabalhos.

Após três meses de estudos, desistiu de qualquer curso de pintura ou desenho nessa instituição, reservando-a apenas para os estudos de gravura. Anita ficou sabendo de um professor que deixava os alunos pintarem à vontade - ele lecionava na Independent School of Art e se chamava Homer Boss.


O Farol


Nas férias de verão, Homer Boss levou os alunos para pintar na costa do Maine, na ilha de Monhegan. Esse Estado litorâneo mais ao nordeste, fronteira com o Canadá, tornara-se há muito o refúgio dos artistas. Foi nessa ilha que Anita pintou, entre outras, a paisagem intitulada O farol. Passado o verão, Anita voltou à Independent School of Art. Em meados de 1916, preparava-se para voltar ao Brasil.

De volta ao Brasil e segunda exposição individual - 1917

Em 1917, Anita resolveu promover sua segunda exposição.

Após a crítica de Lobato, publicada em O Estado de S. Paulo, edição da tarde, em 20 de dezembro de 1917, com o título de ‘A propósito da exposição Malfatti’, as telas vendidas foram devolvidas, algumas quase foram destruídas a bengaladas.

Nem as palavras mas afáveis, ou menos agressivas, despejadas ao final do artigo, nem os elogios ao seu talento, colocados no início, poderiam desfazer tamanho estrago sobre a personalidade tímida e irresoluta de Anita, que caiu em forte depressão, vivendo um período de desorientação total e de descrença, um sentimento que carregou pelo resto da vida.

Anita foi tomar aulas de natureza-morta com o mestre pintor acadêmico Pedro Alexandrino. 1856-1942,  no ano de 1919, e também com o alemão George Fischer Elpons, um pouco mais avançado do que o velho mestre das naturezas mortas. Foi nessa ocasião que conheceu Tarsila do Amaral que tinha aulas com os mesmos professores, dando início a uma longa e proveitosa amizade.

Apesar da mágoa, mais tarde, Anita ilustrou livros de Monteiro Lobato e, na década de 40, participou de um programa na Rádio Cultura chamado ‘Desafiando os Catedráticos’, juntamente com Menotti Del Picchia e Monteiro Lobato. Os ouvintes telefonavam fazendo perguntas para que o trio respondesse.

Depois do pai, o tio Jorge Krug, que a havia ajudado tanto, também faleceu, e Anita precisou buscar caminhos para vender suas obras. Pedro Alexandrino já era um pintor de renome e vendia com facilidade seus trabalhos.

A Semana de Arte Moderna de 1922


Mário de Andrade (sentado), Anita Malfatti (sentada, ao centro) e Zina Aita (à esquerda de Anita), em 1922

Após o período de recesso, a Semana de Arte Moderna, mais uma vez, movimentou a vida artística insípida de São Paulo. Anita participou dela com 22 trabalhos. Uma vez que o círculo modernista vinha ao encontro de suas aspirações artísticas, ela entraria também para o grupo dos cinco.

A Europa nos loucos anos 20

Anita embarcava mais uma vez, em viagem de estudos para Paris. Seriam cinco anos de estudos pela bolsa do Pensionato. Este seria o último e o seu mais longo período fora do Brasil. Em agosto de 1922, ela tinha 33 anos e embarcava no vapor Mosella rumo à França.

Mário de Andrade que não conseguiu chegar a tempo da partida de Anita e enviou-lhe um telegrama de desculpas. Apesar das muitas dúvidas que ainda tinha em relação a que caminho seguir na sua arte, não deixou de produzir.

Brasil, 1928

No final de setembro de 1928, Anita já se encontrava no Brasil. O ambiente artístico encontrado por Anita na volta era diferente do que deixara em 1923; o grupo inicial evoluíra, surgiam novos adeptos e novos movimentos. O número de artistas plásticos também crescera. Na chegada, Mário de Andrade noticiou imediatamente sua chegada, relembrando quem ela era.

Em 1929 abria em São Paulo sua quarta individual.


Anita Malfatti, ~  1930



Depois de fechar sua exposição, até 1932, Anita dedicou-se ao ensino escolar. Retomou suas aulas na Escola Normal Americana e foi trabalhar também na Escola Normal do Mackenzie College.

Em 1933, muda-se para a Rua Ceará, no bairro de Higienópolis, onde instala seu ateliê e dá aulas, inclusive para Oswald de Andrade Filho, onde permanece até 1952, com a venda da casa, em razão da morte de sua mãe.

Considerada por Pietro Maria Bardi como a maior pintora brasileira, ela jamais se recuperou do golpe sofrido. Como diria mais tarde Mário de Andrade: Ela fraquejou, sua mão, indecisa, se perdeu.

Já com idade madura, Anita mudou-se, com sua irmã Georgina, para uma chácara em Diadema-SP), onde morreu em 6 de novembro de 1964, alienada do mundo, cuidando do jardim e vivendo seus próprios devaneios.  Está sepultada no Cemitério dos Protestantes, na Rua Sergipe, número 117, bairro da Consolação, São Paulo.







Fonte:  WP,  Escritório de Arte, Dvs




(JA, Dez19)



Franz Weissmann: o Vazio como Forma






O escultor, pintor e desenhista Franz Weissmann, 1911-2005, ganha uma exposição de três andares no Itaú Cultural. Com curadoria de Felipe Scovino, ‘Franz Weissmann: o Vazio como Forma’ traz um olhar panorâmico sobre a produção do artista, apresentando várias fases de sua criação, e abrange, além de esculturas, 50 desenhos inéditos. Como diz o texto curatorial, a mostra ‘é um passeio por tamanhos, formas e cores’.


Franz Joseph Weissmann (Knittelfeld, Áustria 1911 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005)



Escultor, desenhista, pintor e professor. Por meio da aplicação de técnicas do figurativismo e do construtivismo – movimento do qual foi um dos precursores no Brasil –, consolida-se como importante criador de esculturas em espaços públicos do país. Sua obra tem como traços característicos os contornos de espaços vazados e a valorização das formas geométricas.

Após chegar ao Brasil em 1921, a família de Weissmann se estabelece, inicialmente, no interior de São Paulo. Em 1927, ele se muda para a capital do estado, onde leciona português a estrangeiros e entra em contato com as artes plásticas em visitas a exposições.

Em 1929, a família se transfere para o Rio de Janeiro e ele começa a frequentar o curso preparatório para a Escola Politécnica. Decide ingressar na Escola Nacional de Belas Artes (Enba) em 1939.

Franz Weissmann frequenta a Escola de Belas Artes durante dois anos, passa pelos cursos de arquitetura, pintura, desenho e escultura, mas não se adapta ao ensino acadêmico, e acaba expulso por não se alinhar com as práticas da instituição. ‘Academia é academia, você tem que copiar’, comenta. ‘Eu não sabia copiar, então [o diretor] me expulsou e escondeu os meus trabalhos para não corromper os alunos’, lembra o artista, que, depois disso, envereda pela escultura e se torna um dos grandes nomes do movimento neoconcreto.

Atraído pela tridimensionalidade e pela possibilidade de criar espaços, ocupados ou vazios, Weissmann se dedica à criação de suas esculturas geométricas, de formas econômicas e cores fortes. ‘Eu até cheguei a pintar e furava a tela para procurar um outro espaço. Acharam um absurdo, mas eu tive a necessidade de criar o terceiro espaço, que a pintura não me deu’, conta. Para Weissmann, as obras de arte devem estar acessíveis, ocupando espaços na cidade e mantendo um diálogo direto com o público
.
De 1942 a 1944, estuda desenho, escultura, modelagem e fundição no ateliê do escultor polonês August Zamoyski, 1893-1970, com quem aprende as técnicas tradicionais do campo.

Entre o fim de 1944 e o início de 1945, como forma de ‘retiro voluntário’ para se libertar ‘do peso acadêmico’, Weissmann transfere-se para Belo Horizonte, cidade onde seu irmão, Karl, residia desde 1932. Na capital mineira, ele ministra aulas particulares de desenho e escultura, bem como continua com trabalhos que seguem a linha figurativa, os quais tendem a uma crescente simplificação.
Em 1946, é convidado a realizar uma exposição, a sua primeira individual, no diretório dos estudantes da Enba, no Rio de Janeiro.

Dois anos depois, a convite de Guignard, 1896-1962, começa a dar aulas de modelo vivo, modelagem e escultura na primeiro escola de arte moderna de Belo Horizonte, a Escola do Parque – a qual, posteriormente receberia o nome de Escola Guignard –, onde permaneceu até 1956. Entre seus alunos, contam-se Amilcar de Castro, 1920-2002, Farnese de Andrade, 1926-1996 e Mary Vieira, 1927-2001.




Numa busca pela essência da figura, o artista realiza esculturas com formas cada vez mais geometrizantes, nas quais o espaço vazado já aparece como um elemento definidor. No decorrer da carreira, o ‘vazio ativo’ – como o artista costuma chamar tais espaços –, torna-se uma obsessão. É do jogo entre o plano e as suas articulações com o elemento vazado que nasce a tridimensionalidade aberta para o mundo das esculturas de Weissmann.

A partir da década de 1950, ele começa a abandonar o estilo figurativo ao passo que, gradualmente, elabora um trabalho de cunho construtivista, com a valorização das formas geométricas e a submissão delas a recortes e dobraduras, por meio do uso de chapas de ferro, fios de aço, alumínio em verga ou folha. As primeiras experiências construtivistas, determinantes para o desenvolvimento e a consolidação dessa estética no Brasil, culminam na obra Cubo Vazado (1951), um dos marcos iniciais do estilo.




Em 1954, Weissmann vence diversos concursos de projetos para esculturas em espaços públicos. Destes, apenas o Monumento à Liberdade de Expressão do Pensamento, encomendado pela Associação das Emissoras de São Paulo, com patrocínio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), é edificado na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. O monumento, no entanto, é destruído em 1962, em virtude de ‘reformas urbanísticas’ no local onde se encontrava.

Ainda nos anos 1950, de volta ao Rio de Janeiro, ele integra o Grupo Frente, importante referência do construtivismo no Brasil, formado por artistas como Ivan Serpa, 1923-1973, Lygia Clark, 1920-1988, Décio Vieira, 1922-1988, e Aluísio Carvão, 1920-2001. Nesse período, ele realiza experiências com fios de aço, na série de ‘esculturas lineares’, e com as formas modulares, procedimentos que eliminam qualquer tipo de base para as esculturas.

Em 1957, a polícia mineira resolve transformar o ateliê que ele mantinha no subsolo da Escola do Parque Municipal em uma penitenciária. Sem que o artista estivesse presente no momento, todos os estudos feitos durante os anos em Belo Horizonte foram jogados fora. Com isso, quase todo o trabalho das décadas de 1940 e 1950 é destruído.

Após participação na Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1957, ele recebe o prêmio de viagem ao exterior com a obra Torre no 8º Salão Nacional de Arte Moderna (SNAM), em 1958. No ano seguinte, junto a outros artistas, funda o Grupo Neoconcreto e assina o Manifesto Neoconcreto. No mesmo ano, depois de uma viagem com a família pelo  Extremo Oriente  – em razão do interesse em conhecer melhor a filosofia oriental –, estabelece-se na Europa, onde fica até o final de 1964. 




Os trabalhos realizados nesse período, conhecidos como amassados, abandonam momentaneamente a construção geométrica, o que é apontado pelos críticos como um ‘interregno expressivo’ em sua pesquisa, quando a preocupação com a materialidade toma o primeiro plano. Um exemplo é a série Amassados, elaborada com chapas de zinco ou alumínio trabalhadas a martelo, porrete e instrumentos cortantes, alinhando-se temporariamente ao informalismo.


Praça da Sé – São Paulo


Volta ao Brasil em 1965, momento em que retoma a aproximação com as vertentes construtivistas e reinicia as suas experimentações com formas geométricas e modulares. Em 1967, ele apresenta Arapuca na 9ª Bienal Internacional de São Paulo, peça na qual a cor, como elemento determinante do espaço da escultura, se faz presente pela primeira vez. A partir de então, serão raras as esculturas sem aplicação de cor.

Nos anos de 1970, recebe o prêmio de melhor escultor da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), participa da Bienal Internacional de Escultura ao Ar Livre – em Antuérpia, Bélgica – e da Bienal de Veneza. Ao longo do tempo, mantém-se fiel ao seu processo de criação, sobretudo o trabalho direto com o material e a manufatura de modelos com cortes e dobraduras, os quais são posteriormente ampliados numa metalúrgica.

Ao priorizar a exploração dos limites da forma e a realização de esculturas que dialogam com o público, Franz Weissmann torna-se um importante personagem do movimento construtivista no Brasil.








Franz Weissmann: o Vazio como Forma
Itaú Cultural - Avenida Paulista 149 São Paulo SP 01311 000 [estação Brigadeiro do metrô] Fone: 11 2168 1777
De 27/11 a 09/02/2020




(JA, Dez19)
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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Eletricista ocultou por 40 anos obras de Picasso em sua garagem



Segundo Pierre Le Guennec, o pintor espanhol o presenteou com 180 obras


Two Women running on the Beach

Certo dia de setembro, em 2010, um homem que disse ter trabalhado como eletricista para Pablo Picasso foi ao escritório que administra o espólio do artista, em Paris, levando uma mala que continha 271 obras de arte do espanhol.

O eletricista, Pierre Le Guennec, havia viajado de sua casa no sul da França a Paris, acompanhado por sua mulher, Danielle. Ele disse que desejava autenticar 180 aquarelas, litogravuras e colagens cubistas, bem como dois cadernos contendo 91 desenhos.

O tesouro estava em sua garagem havia quase 40 anos, disse Le Guennec -Picasso o havia presenteado com as obras décadas antes.

Assim começou uma saga que durou quase dez anos e que envolveu um processo judicial que afirmava que as peças eram ‘bens roubados’; a polícia iniciou uma investigação; os tribunais ouviram depoimentos contraditórios; e múltiplos recursos e audiências conduziram os réus e os herdeiros de Picasso ao mais alto tribunal da França.


Pierre Le Guennec deixa tribunal em Lyon, em foto de setembro de 2019

Tudo isso culminou na semana passada em uma decisão por um tribunal francês, que confirmou a condenação de Le Guennec e sua mulher por receptação e ocultamento de obras de arte roubadas de Picasso.

Foi a terceira condenação para o casal, mas Le Guennec e sua mulher, que têm 80 e 76 anos, respectivamente, não cumprirão sentenças de prisão. Os dois receberam sentenças de prisão de dois anos, mas seu cumprimento foi suspenso.

Eles não estavam presentes para ouvir o veredicto final. Le Guennec declarou em entrevista por telefone no sábado que o casal havia sido informado da decisão por vizinhos, e por um artigo de jornal.

O casal sempre negou ter roubado as obras. Le Guennec trabalhou como eletricista e fazendo serviços gerais em diversas das casas de Picasso no sul da França, no começo da década de 1970, consertando um forno e instalando um sistema de alarme em pelo menos uma propriedade, entre outras tarefas.

Danielle Le Guennec disse ao The New York Times em 2010 que ‘meu marido estava se preparando para ir embora’, certo dia, quando Picasso lhe deu ‘uma caixa’. Ela acrescentou que o artista ‘nunca explicou coisa alguma’.

Entre as peças estavam nove raras colagens cubistas, uma pintura da renomada fase azul de Picasso, aquarelas, litogravuras e dezenas de desenhos em cadernos. Seu valor foi estimado em dezenas de milhões de dólares, ainda que não tenha acontecido uma avaliação precisa, de acordo com Jean-Jacques Neuer, advogado do filho de Picasso. As obras agora estão alojadas no Banque of France.

Le Guennec disse que foi ao escritório em Paris em 2010 porque havia sido informado recentemente de que tinha câncer, e queria garantir a proveniência das obras de arte para seus dois filhos.

O filho do artista, Claude Ruiz-Picasso, e o administrador do espólio de Picasso ficaram espantados e intrigados, disse Neuer à imprensa, na época.

Contemplando as obras não assinadas e percebendo que eram trabalhos do famoso artista espanhol, os dois logo desenvolveram suspeitas.

Ruiz-Picasso sabia que seu pai, um gênio temperamental, que morreu em 1973, havia sido um colecionador inveterado que só dava de presente obras produzidas recentemente, e que costumava assinar as peças que presenteava.

‘Se você procura os administradores do espólio de Picasso e lhes diz que essas 271 obras dele caíram do sótão, ou que as encontrou numa feirinha, ninguém acreditará’, disse Neuer em entrevista por telefone no sábado.

Ele disse que a decisão judicial da semana passada representava ‘o fim do acobertamento’.

As obras de arte levadas por Le Guennec aos administradores do espólio foram realizadas entre 1900 e 1932, de acordo com estimativas.

Anne Baldassari, ex-presidente do Museu Pablo Picasso em Paris, disse no primeiro julgamento do casal, em 2015 que ‘o Picasso que conheci não abriria mão de suas obras. Seria como arrancar a própria pele’.

Le Guennec mais tarde mudou sua história, dizendo que Jacqueline Roque, a última mulher de Picasso, e não o artista, lhe havia dado as obras.

‘Foi em 1971, Madame me chamou quando eu estava indo embora da casa de Picasso’, ele disse no sábado, se referindo a Roque. ‘E ela disse: leve isso; são para você’.

Danielle Le Guennec acrescentou na entrevista que o casal declarou inicialmente que havia recebido as obras de Picasso por instrução de Roque.

Eles também disseram que as obras ficaram intocadas em sua garagem por mais de quatro décadas. Mas Neuer argumentou no tribunal e na entrevista do sábado que, como as obras estavam em ótimo estado de conservação, não poderiam ter passado muito tempo armazenadas em uma garagem no sul da França, onde provavelmente teriam se deteriorado.

Segundo Neuer, mais contradições se seguiram, e Guennec afirmou ter catalogado todas as obras sozinho. Mas Baldassari afirmou que as descrições e comparações tinham ‘nível acadêmico’.


Arlequim Pensativo,  1901

No caso de um desenho, por exemplo, Le Guennec traçou um paralelo com ‘Arlequim’, um quadro a óleo de Picasso que hoje faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

Mas quando Neuer pediu a Le Guennec, no julgamento do casal em 2015, que citasse a peça mais famosa de Picasso no acervo do MoMA, o ex-eletricista não sabia o que era o museu nova-iorquino.

Ele e a mulher foram condenados naquele ano.

Uma instância superior sustentou o veredicto em 2016, mas a decisão foi mais tarde derrubada pela Corte de Cassação, o mais alto tribunal francês. O casal Le Guennec não pode recorrer do veredicto final, que foi pronunciado na terça-feira pelo tribunal de recursos de Lyon.

Neuer especulou que comerciantes de arte, provavelmente radicados na Suíça, usaram Le Guennec da mesma forma que traficantes empregam pessoas para carregar drogas.
Le Guennec definiu esse cenário como ‘ridículo’, e se declarou decepcionado pelo veredicto.

De sua experiência como homem de serviços gerais para Picasso, ele disse que ‘ainda assim foi fabuloso e extraordinário que alguém como eu, uma pessoa comum, tenha podido conhecer gente como aquela’.



Fonte:  Elian Peltier|  NYT / FSP



(JA, Nov19)



sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Arte Representa



São Paulo - Uma joia rara, em pleno bairro da Moóca



Mural do Ateliê Artístico Moral inspirado na obra do artista plástico José Washt Rodrigues





Douglas, dirigia seu carro pela Avenida Paes de Barros, no bairro paulistano da Moóca, quando, ao parar no semáforo, deparou com um magnífico mural sobre São Paulo, na parte interna de um edifício.


Como estava parado no trânsito, observou bem a entrada do edifício cujo nome é São Raphael, um prédio entre tantos outros desta movimentada avenida. O que viu foi uma bela pintura no corredor que leva à garagem.


O semáforo abriu, os carros que estavam atrás começaram a buzinar e Douglas teve que seguir seu caminho.

Encantado com o que viu, na mesma semana voltou ao local caminhando a pé, e observou que ali não havia apenas uma pintura. Existia, isso sim, uma verdadeira obra de arte dedicada a São Paulo.

Tocou o interfone e pediu ao porteiro para conversar com o responsável e conhecer o espetacular mural.

Foi gentilmente recebido pela síndica, Sonia Elias Vidal que prontamente contou a ele um pouco da história deste enorme painel de azulejos, colocado dentro de um edifício residencial.

Inaugurado em 1959, o edifício São Raphael é um dos mais antigos da Moóca, tendo sido construído pelo espanhol Raphael Jurado que fez o prédio pensando na moradia de suas cinco filhas e mais um único filho.

Disse a síndica ter sido este o primeiro prédio daquela avenida a ter elevador, motivo que inspirou o construtor a marcar presença com algo inusitado que chamasse a atenção dos visitantes.

Raphael Jurado então contratou os serviços em azulejos produzidos pela Ateliê Artístico Moral, cujas obras estão espalhadas em outros locais cidade de São Paulo e pelo interior paulista.

O mural mostra uma mulher apresentando a capital paulista em duas épocas, tendo do lado esquerdo a São Paulo antiga, cuja inspiração é uma das famosas aquarelas de José Wasth Rodrigues, mostrando a antiga igreja do então Largo da Sé em 1859.

Pelo lado direito do mural, se avista a São Paulo moderna na época em que o prédio foi inaugurado - cem anos depois da primeira imagem, mostrando o Viaduto Santa Ifigênia, o Vale do Anhangabaú e seus arredores, tudo isso entrelaçado pela bandeira paulista.

A magnífica obra está muito bem cuidada pelo condomínio do edifício São Raphael, cuja síndica dá uma atenção especial para que ela se mantenha sempre limpa e preservada.

Douglas Nascimento, como paulistano, agradece ao construtor Raphael Jurado pela inspiração de ornamentar seu edifício com uma obra artística de tamanha beleza, que releva a importância desta grande cidade para todos os brasileiros, e enfatiza: ‘Pessoas como ele é que nos fazem amar ainda mais a nossa cidade’.


‘São Paulo sempre nos surpreende’






Fonte: Douglas Nascimento, 2013, jornalista, fotógrafo, memorialista e pesquisador independente | Portal São Paulo Antiga



(JA, Nov19)