sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Novos puritanos não entendem a natureza simbólica da arte



            Detalhe da tela 'Hilas e as Ninfas' (1896), de J.W. Waterhouse

Viver é aprender: o Museu de Arte de Manchester removeu das paredes a pintura de J.W. Waterhouse, 1849-1917, onde vemos Hilas (o mitológico companheiro de Jasão) tentado pelas ninfas do lago. Motivos?
Sim, aqui entre nós, a minha paciência para os pré-rafaelitas já deu o que tinha a dar. Mas as razões para a remoção não são estritamente estéticas. Como lembra o ‘The Guardian’, Waterhouse representou as divindades com ares pubescentes (e seios destapados, naqueles tempos pré-sutiã), convidando o jovem Hilas para um ‘rendez-vous’ nas águas.
O diretor do museu, cujo nome nem me interessa, disse que o objetivo nunca foi censurar. Pelo contrário: ele quer despertar uma discussão sobre como exibir e interpretar certas obras de arte no museu da cidade, sobretudo à luz dos movimentos Times Up e #MeToo. As opiniões, como sempre, dividiram-se. E a minha?
A minha, lamento, não. À primeira vista, interpreto o gesto do diretor como uma forma inteligente de publicitar o museu. É mais barato do que pagar uma campanha: durante uns dias, meio mundo fala do quadro e o quadro, previsivelmente, regressa ao lugar do crime depois da missão cumprida.
Mas, apesar do meu optimismo assaz atípico, não consigo deixar de suspeitar que o diretor fala a sério. E que o quadro foi mesmo removido por oferecer aos visitantes a representação das ninfas ‘au  naturel’. Será possível?
Possível é. Mas, em caso afirmativo, estamos na presença de um ‘novo’ capítulo na história da arte, embora a palavra novo seja discutível. Já no século 8 metade da cristandade também entendeu que certas imagens deviam ser destruídas. A ‘iconoclastia bizantina’, promovida no Oriente por Leão 3º, 717-741, procurava impedir a adoração de imagens religiosas.
A questão durou um século -um século de fanatismo e violência brutais- até ao segundo concílio de Niceia, em que a igreja fixou doutrina para a posteridade: contrariamente a outras religiões, a adoração de figuras sacras era parte da cultura da fé católica. Essa decisão permitiu, sem exagero, toda a história da arte ocidental.
Passaram 12 séculos. As discussões bizantinas são, precisamente, bizantinas. Mas na histeria contemporânea sobre imagens-que-podem-ofender-sensibilidades é impossível não escutar uma ressonância pseudo religiosa, mesmo em cabeças que se julgam modernas e ateias e progressistas.
Fatalmente, não são. Em nome de uma ‘religião ideológica’, esses ‘crentes’ também querem destruir certos ‘ícones’ que ‘ofendem’ as suas doutrinas. Os novos puritanos são, como os iconoclastas do passado, literalistas, ou seja, incapazes de entender a natureza simbólica, iconológica, de uma imagem.
Para eles, as ninfas não são figuras mitológicas; são adolescentes contemporâneas que ali se encontram para contemplação de ‘predadores’. O mesmo, imagino, deve servir para anjos ou querubins, que serão em breve removidos de tetos ou catedrais para não promoverem a pedofilia.
Claro que, para sermos delirantes, podemos levar a farsa ainda mais longe. E dizer que o problema das ninfas não está na carne; está no espírito: as ninfas representam a submissão da mulher ao desejo do homem; na literatura greco-latina, elas existem para servir o ‘hétero patriarcado’.
O problema dessas leituras anacrônicas (e ignaras) é que elas permitem tudo e o seu contrário. Um exemplo: será preciso lembrar que, no episódio de Hilas e das ninfas, há versões em que a verdadeira vítima é ele? E que, assim sendo, Hilas pode ser elevado a símbolo do abuso sexual sobre os homens?
Eis a ironia da história: quando lemos a arte com os nossos próprios preconceitos, é possível projetar sobre as coisas belas a sombra viscosa dos nossos fantasmas.

Texto: João Pereira Coutinho   |   FSP
Imagem:  Detalhe da tela 'Hilas e as Ninfas' (1896), de J.W. Waterhouse


(JA, Fev18)


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