segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Mostra de Lasar Segall evidencia obras raramente vistas pelo grande público

Transformações cromáticas da carreira do modernista lituano dão o tom a recém-inaugurada exposição no Sesc 24 de Maio

Bananal', óleo sobre tela de 1927

Pintor lituano formado dentro do expressionismo alemão, Lasar Segall desembarcou no Brasil em 1924 para se tornar um dos nomes mais importantes do primeiro modernismo.
Sem abandonar os princípios europeus que o formaram, desenvolveu uma trajetória em que temas e tipos brasileiros convivem com questões de ordem universal, como angústia, migrações e destruição, num percurso marcado pelo impacto das duas guerras mundiais.
É um pouco dessa conversa entre Brasil e Europa, local e universal, que o Sesc 24 de Maio apresenta, com uma reunião de 87 pinturas e seis desenhos, além de fotos e documentos. Quando o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, autor do edifício do Sesc, comemora 90 anos, seu filho Pedro assina uma expografia que divide a mostra em quatro grandes blocos, pensados como quarteirões de uma cidade. A herança moderna está em festa.
Voltando a Segall: modernista da chamada fase heroica, ao lado de Anita e Tarsila,  ele foi um dos responsáveis por transformar a cena paulista, rompendo com o naturalismo e a tradição acadêmica.
Menino com Lagartixas, 1924,

Mãe Negra Entre Casas, 1930

Dez anos depois da última grande exposição do pintor (no Centro Cultural Fiesp, com curadoria de Tadeu Chiarelli), a curadora Maria Alice Milliet desenvolveu uma retrospectiva em que o uso da cor está no foco de atenção. São as transformações cromáticas ao longo da trajetória de Segall e seu caráter fortemente emocional que a levaram aos quatro núcleos que compõem a mostra.
‘Com a vinda ao Brasil, Lasar Segall sofre o impacto do sol, da luz tropical que aquece sua pintura’, explica Milliet. Para ela, os deslocamentos populacionais retratados pelo artista nos anos 1940 conversam diretamente com a atualidade do centro em sua diversidade e convivência de imigrantes coreanos, africanos, bolivianos e paraguaios.
Aldeia Russa, realizado entre 1917-1918
‘A atualidade, infelizmente, mora também nas cenas de populações sem rosto, vítimas de perseguição, intolerância e de regimes totalitários’, completa a curadora.
Dois Nús, 1930
Preocupada em criar uma narrativa acessível ao público de mais de 10 mil pessoas que circulam por dia pelo Sesc, Milliet encomendou um vídeo, projetado em grandes dimensões na parede, que detalha em alta resolução os esquemas cromáticos utilizados pelo pintor.
Se a pintura requer um tempo mais distendido de contemplação, o vídeo, para ela, é a mídia ‘de hoje’ que garante uma empatia mais imediata.
Desenvolvida em parceria com o Museu Lasar Segall, a mostra conta com boa parte do acervo da instituição, mas também com pinturas de coleções particulares raramente expostas ao público. Desde que Segall se tornou um dos nomes mais valorizados do mercado de arte, seus colecionadores costumam guardar o tesouro a sete chaves.
Ao longo da exposição estão ainda pinturas pinçadas a dedo de outros modernistas —Portinari, Anita, Tarsila—, que ajudam a mostrar os diálogos estabelecidos na época.

Desenhos originais do caderno Visões de Guerra, realizado entre 1940-1943

Entre as obras mais delicadas está a série de desenhos de cenários, com fantasias e elementos decorativos que desenvolveu para os bailes de Carnaval da Sociedade Pró-Arte Moderna, entidade que congregou boa parte dos modernistas a partir de 1932.
Vale prestar atenção ainda na delicadeza dos troncos de árvores que Segall pintou já no final da vida —florestas de cores suaves que o aproximam ainda que brevemente da abstração. Encarar a realidade (da pobreza, da guerra, da injustiça) ou escapar dela (pela festa, pelo sonho, pela natureza) é afinal um dos grandes dilemas da arte, para não dizer da vida. Segall fez os dois.

LASAR SEGALL: ENSAIO SOBRE A COR
Quando Até 5/3/19.
Onde Sesc 24 de Maio ( r. 24 de Maio, 109).
Preço Grátis


Fonte:  Gabriela Longman   |   FSP

(JA, Out18)

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