terça-feira, 9 de outubro de 2018

Com vitral para a rainha, David Hockney reata com a monarquia


Britânico de 81 anos, que outrora se recusou a pintar retrato de Elizabeth 2ª, cria obra para Westminster com iPad

David Hockney e seu recém-inaugurado vitral na abadia de Westminster, em Londres

Era uma manhã chuvosa de setembro. David Hockney estava sentado na sala de sua casa em Londres, iluminada por uma claraboia, baforando um cigarro. Sua arte decorava as paredes: autorretratos emoldurados, desenhos ternos mostrando seus cachorros e uma grande fotografia em cores brilhantes.
Encostada a uma parede havia uma imagem em tamanho pôster da mais recente criação do artista: um vitral para a abadia de Westminster, criada para celebrar o 63º aniversário do reinado de Elizabeth 2ª.
Medindo 8,5 por 3,6 metros, o ‘Vitral da Rainha’, inaugurado na terça-feira (2), representa um espinheiro florescendo em uma profusão de vermelhos, azuis, verdes e amarelos. ‘O espinheiro é comemorativo: como se champanhe tivesse sido derramado por sobre a planta’, disse Hockney, 81.
O pintor disse que o projeto do vitral tomou por base uma imagem que ele inicialmente criou em um iPad. Hockney usou novas tecnologias de forma extensa em sua carreira, e exibiu peças criadas com o uso de iPhones e câmeras Polaroid ao lado de suas pinturas, em alguns dos mais importantes museus do planeta.
Sua retrospectiva 2017-2018, que foi realizada na galeria Tate Britain em Londres, no Pompidou, em Paris, e no Metropolitan de Nova York, foi um grande sucesso, e os preços de suas obras dispararam. ‘Retrato de um Artista (Piscina com Duas Figuras)’, de 1972, quadro que será leiloado pela Christie’s em novembro, tem preço estimado em US$ 80 milhões (cerca de R$ 309 milhões). Se a previsão for cumprida, isso faria de Hockney o artista vivo de mais alto preço no planeta.
Dias mais tarde, postado abaixo do vitral de Hockney em Westminster, o reverendo John Hall, decano da igreja, disse que havia procurado o pintor por ele ser ‘o mais célebre artista vivo’, e por seu período de fama coincidir com o reinado de Elizabeth 2ª. Ele definiu o vitral como ‘absolutamente vibrante’. Ele contrastou o novo vitral com uma peça do século 19 na janela ao lado, representando os milagres de Cristo, ‘escura a ponto de ser quase ilegível’.



Helen Whitaker, a especialista em vitrais que comandou a equipe encarregada de montar a peça, disse que o único elemento pintado pessoalmente por Hockney havia sido a assinatura. (O pedaço de vidro usado para isso foi enviado de avião a Los Angeles, onde Hockney vive.)
‘Ficamos muito gratos por ele estar colocando nossa profissão no mapa, já que os vitrais sempre foram vistos como os primos pobres do mundo da arte’, disse Whitaker.
Vitrais podem parecer antiquados para um artista contemporâneo requisitado. Mas ‘a peça se relaciona muito bem com todos os trabalhos que ele vem fazendo em iPads e iPhones’, disse o crítico de arte Martin Gayford, que escreveu livros sobre Hockney. ‘Quando ele começou a trabalhar com o iPhone, em 2009, comparou o aparelho a um vitral, porque a imagem na tela é iluminada; assim, existe um vínculo formal bem firme’.


Hockney é um dos muitos artistas modernos e contemporâneos que dedicaram atenção aos vitrais. Com a destruição de muitas igrejas na Europa pela guerra —só na França, 2.000 delas foram reconstruídas entre 1950 e 1965—, muitos pintores receberam encomendas de vitrais.
Exemplos conhecidos são os desenhos de Matisse para a capela do Rosário em Vence, França; os vitrais de Chagal para igrejas na Inglaterra, França e Alemanha; e os quadrados abstratos de Gerhard Richter para a catedral de Colônia, na Alemanha.
Os vitrais ‘são essencialmente uma mídia arquitetônica, e a relação deles com a edificação em que estão é crucial’, disse Brian Clarke, artista britânico que criou vitrais para projetos de arquitetos como Zaha Hadid, Norman Foster e I.M. Pei.
Hockney não é um homem muito devoto. Ainda que sua mãe fosse ‘cristã fervorosa’, deixou de ir à igreja metodista aos 16 anos porque ‘percebi que todas as pessoas que iam à igreja não eram lá tão boas; eram hipócritas’. Hoje, diz ter sua forma pessoal de fé. ‘Costumava acreditar que estava a caminho do esquecimento, e ainda acredito nisso’.
Como igreja, a abadia de Westminster não poderia estar conectada de forma mais íntima à monarquia britânica. Trinto e oito monarcas do país foram coroados lá, e 17 deles estão ali enterrados.
Hockney não pareceria uma escolha automática para criar a peça. No passado considerado como o bad boy da arte britânica, ele vive há quase cinco décadas em Los Angeles, e em 1990 recusou ser sagrado cavaleiro, embora não se posicione como adversário da monarquia. Mais tarde, quando foi convidado a pintar um retrato da rainha, ele recusou, igualmente.
O vitral na abadia não é uma tentativa de estabelecer um legado, disse Hockney. ‘Tudo vira pó, um dia. Mesmo a abadia de Westminster’.
  


Fonte: Farah Nayeri, The New York Times    |  Tradução de Paulo Migliacci,   FSP

(JA, Out18)

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