terça-feira, 26 de março de 2019

Artesanato português contemporâneo ganha exposição em São Paulo



Artesanato português contemporâneo é destaque em exposição em São Paulo


O artesanato português é reconhecido internacionalmente por sua tradição e qualidade, mas carrega muitas vezes o estigma de ser antiquado e pouco atraente para as novas gerações.

Uma exposição em São Paulo, no entanto, quer desfazer esta imagem, apresentando trabalhos modernos e criativos elaborados atualmente por artesãos lusitanos.
A mostra ‘Portugal Manual: o artesanato em transformação’, fica em cartaz entre os dias 23 e 27 de março no Consulado de Portugal na capital, e depois segue para o shopping Morumbi, onde permanece entre os dias 28 de março e 7 de abril.

Na exposição, é possível conhecer mais de 25 marcas que atualizam as tradicionais artes portuguesas, com elementos que vão desde a cortiça e a madeira, até ouro e cerâmica.

‘É difícil escolher um trabalho favorito, são todos muito especiais’ diz a curadora da exposição, Filipa Belo, portuguesa radicada em Brasília.

‘O novo artesão [português] está mais virado para o design. Há ofícios que estão a ficar obsoletos, mas eles fazem encontros dessas antigas técnicas com o moderno design do produto’, completa.

Entre as peças apresentadas, há desde móveis até roupas.
As peças da Sugo revisitam um dos materiais portugueses mais conhecidos dos brasileiros, a cortiça.

Artesãos da Sugo unem cortiça com técnicas de tecelagem em peças inovadoras


Uma das marcas mais surpreendentes é A Capucha, que deu uma pegada fashion às tradicionais capas lusitanas.


A Capucha: marca dá toque fashion à capa tradicional portuguesa


Segundo a curadora, a seleção de peças privilegia artistas que voltaram às raízes e ousaram apostar numa produção artesanal de qualidade, recuperando materiais tradicionais para criarem peças contemporâneas e desenvolvendo uma produção em pequena escala mas com recurso a tecnologias contemporâneas, numa perspectiva empreendedora que promove um consumo sustentável.


Serviço
“Portugal Manual: o artesanato em transformação”
De 28 de março a 7 de abril
Morumbi Shopping, Casa Manual, no piso térreo
Av. Roque Petroni Júnior, 1089
Grátis






Fonte: Giuliana Miranda   |   FSP



(JA, Mar19)


Mostra aborda conquista do território pela lente de Marc Ferrez



Famoso por fotos do Rio, fotógrafo viajou pelo país para trabalhos científicos

 
‘Píncaro do Itatiaia, 1875. Ponto culminante do Império do Brazil; 2.712 metros sobre o nível do mar’, diz a legenda da fotografia.



O registro, pendurado em uma das paredes do IMS Paulista, é uma das imagens feitas pelo fotógrafo carioca Marc Ferrez no âmbito da Comissão Geológica criada naquele ano por dom Pedro 2º.


A conquista dos domínios do imperador acompanhada do registro da ciência, dentro do melhor espírito do século 19, é uma parte do que recupera a exposição ‘Marc Ferrez: Território e Imagem’

Entrada da Baia de Guanabara, Niteroi-RJ, ~1890


 Estão na mostra, sim, os líricos registros da baía de Guanabara e do Rio com seus cumes arredondados, pelos quais Ferrez é lembrado.

Mas, sobretudo, a exposição em cartaz a partir desta terça (26) mostra a interação entre o trabalho de Ferrez com os avanços da ciência, enquanto tema, e com a tecnologia da imagem, à qual esteve sempre atento e cujo progresso no Brasil ajudou a impelir.

A trajetória de Ferrez, diz Sergio Burgi, coordenador da área de fotografia do IMS e curador da mostra, se confunde com a história da imagem.

Ferrez nasceu no Rio em 1843, ‘quatro anos após a descoberta da daguerreotipia’, processo fotográfico pioneiro, lembra o curador.

No lapso de seus quase 80 anos de vida —morreu em 1923—, viajou o país ao lado de cientistas, modificou câmeras para o registro de grandes panoramas,  e fez experimentos em autocromia, técnica para produzir imagens coloridas que durou todo o primeiro terço do século 20, criada pelos irmãos Lumière.

Foi também um dos responsáveis pela introdução da invenção mais famosa dos Lumière no Brasil: com seus filhos, a partir de 1907, participou da nascente atividade cinematográfica no país.

A exposição segue um viés cronológico, mas como linha tênue para compreender a relação da vida do artista com as inovações que traria a virada do Império para a República.

Os registros dos primeiros seis anos da atividade do fotógrafo se perderam em grande medida no incêndio de seu estúdio, em 1873.

Uma parte do que se salvou ocupa uma parede e uma vitrina da primeira sala; Burgi destaca o fato de que todas as tiragens da mostra são originais, preservando a forma de apresentação escolhida por Ferrez para as imagens.

O trabalho de Ferrez aparece ao lado de fotos de contemporâneos seus, como Militão Augusto de Azevedo.

Jardim no Passeio Público, Rio de Janeiro, ~1900

Aparecem aqui também os registros idílicos da paisagem do Rio. ‘É o mais conhecido, mas você percebe que isso se dá depois do processo de trabalho de uma câmera que percorre o território’, diz Burgi.

No ano seguinte à destruição de seu estúdio, Ferrez conseguiu se reequipar, indo para isso à França, com a ajuda de um empréstimo de um amigo, Claudio Chaigneau.

Próximo de engenheiros, Chaigneau pode ter tido um papel na indicação de Ferrez para a Comissão Geológica do Império, chefiada pelo canadense-americano Charles Frederick Hartt.

Aparecem não só registros de formações por todo o país, como o já citado pico do Itatiaia, como também da proximidade de Ferrez com cientistas; o próprio Hartt aparece em retrato tirado do álbum de família do fotógrafo.

Nesta sala, anota-se a ação de outro incêndio, o do Museu Nacional, que em setembro de 2018 destruiu boa parte do material coletado pela comissão, guardado nos acervos de Dom Pedro II na instituição.

Os materiais expostos vieram não só da coleção Gilberto Ferrez —historiador da fotografia neto de Marc—, que integra o acervo do IMS, mas também de instituições americanas como o Smithsonian.

Um dos destaques são as imagens feitas por Ferrez em diapositivo, que eram exibidas em sessões públicas por cientistas nos Estados Unidos, para onde foram levadas por outro membro da comissão, o biólogo Richard Rathbun.

Pertencentes ao Smithsonian, serão projetadas na mostra, bem como imagens pertencentes à Fundação Getty, que tem um dos álbuns remanescentes da Comissão Geológica —uma versão digital pode ser vista pelos visitantes.
Ferrez trabalharia ainda para a Marinha e as ferrovias.

Partida para colheita café, Vale Paraíba, 1885

Surgem, nessa etapa, registros impressionantes de fazendas de café. São um aspecto menos difundido da carreira de Ferrez e trazem um importante dado histórico.

Enquanto na década de 1880 a indústria cafeeira queria se vender para o mundo mostrando aspectos de modernidade, como a mecanização, resplandece o fato inequívoco de que a mão de obra era, ainda, escrava.

Ferrez se tornaria, ainda, documentarista das mudanças do Rio de Janeiro modernizado no começo do século 20.

As obras de infraestrutura urbana implementadas pelo prefeito Francisco Pereira Passos aparecem em seu ‘Álbum da Avenida Central’.

Nesta sala estão, ainda, imagens em grande formato, obtidas graças à insistência do fotógrafo em aprimorar equipamentos, como câmeras de varredura, que permitiam panoramas extensos.

Essa inquietude tecnológica se desdobra no interesse pelo cinema e na fotografia colorida —com ela, Ferrez registraria viagens e a família.


'Uma suíça, Marecottes', foto feita na Suíça, em 1915




Embora a mostra se ancore na linha da vida do fotógrafo, para compreender em detalhe sua trajetória está sendo lançado, em paralelo à mostra, o livro ‘Marc Ferrez: Uma Cronologia da Vida e da Obra’.

Pradilla Ceron, responsável pelo Núcleo de Pesquisa em Fotografia do IMS, cobre na obra lacunas sobre a trajetória de Ferrez e traz, com isso, também amplo material para a compreensão do desenvolvimento da fotografia no Brasil.


MARC FERREZ: TERRITÓRIO E IMAGEM
Quando Visita guiada com Sergio Burgi nesta ter. (26), às 18h. De ter. a dom. e feriados, das 10h às 20h; qui. até as 22h. Até 21/7
Onde IMS Paulista (av. Paulista, 2.424)
Preço Grátis



MARC FERREZ: UMA CRONOLOGIA DA VIDA E DA OBRA
Preço R$ 49,50 (160 págs.)
Autor Ileana Pradilla Ceron
Editora IMS





Texto:  Francesca Angiolillo   |   FSP


(JA, Mar19)

segunda-feira, 25 de março de 2019

Auguste Rodin - figura e modernidade




Auguste Rodin, 1840-1947   -^-   ‘Le Penseur’, 1880- 1902


A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e o Instituto CPFL apresentam, de 20 de março a 29 de junho de 2019, pela primeira vez ao público do interior paulista, Figura e modernidade: Rodin no acervo da Pinacoteca de São Paulo, que reúne a coleção completa da Pinacoteca referente ao artista francês. Com curadoria de Valéria Piccoli, curadora-chefe do museu, o conjunto de 10 esculturas originais e 76 fotografias documentais da vida do artista será exibido gratuitamente no Instituto CPFL, em Campinas e, em seguida, no Fórum das Artes, em Botucatu, novo espaço cultural reformado pelo Governo de São Paulo.

A Pinacoteca é o único museu no Brasil a possuir um acervo representativo deste artista, o que faz dessa itinerância uma iniciativa de grande interesse para o público dos museus e espaços culturais do interior do estado. Reafirma também o próprio papel da instituição enquanto equipamento do Estado. ‘A exposição oferece ao público paulista uma oportunidade única de conhecer um grupo de obras de um artista que é, reconhecidamente, um precursor da escultura moderna. A Pinacoteca cumpre cada vez mais, por meio desta iniciativa, sua missão de promover a experiência do público com a arte, estimular a criatividade e a construção do conhecimento para além de sua sede na cidade de São Paulo’, resume o diretor-geral do museu, Jochen Volz.

Sobre a coleção atual do museu, Valéria Piccoli comenta que “trata-se de fundições recentes de obras clássicas do artista, realizadas sob supervisão do museu francês”. Fazem parte também da coleção da Pinacoteca um conjunto de 76 fotografias em que o artista aparece trabalhando em seu ateliê, acompanhado de modelos de suas esculturas ou mesmo de amigos e mecenas. 'Esse material é constituído de fac-símiles de itens dos arquivos do Musée Rodin e ajudam a compor um percurso cronológico pela vida do artista, mostrando outros artistas e intelectuais que ele admirava e com quem se relacionava. Mais curioso é que algumas dessas fotos revelam como Rodin utilizava a fotografia no processo de composição de suas esculturas', completa ela.

A parceria entre o Instituto CPFL e a Pinacoteca se iniciou em 2012, quando ambos organizaram, na sede da segunda, a exposição Gênese e Celebração, com coleção de peças tradicionais africanas. Em 2013, foi a vez da mostra 100 de anos Arte Paulista, que aconteceu na sede do Instituto CPFL, em Campinas, e apresentou ao público 50 obras de artistas atuantes entre 1912 e 2012, como Di Cavalcanti, Portinari, Pancetti e Tomie Ohtake.

‘Para nós, é um imenso prazer voltar a trabalhar com a Pinacoteca, uma instituição centenária, a exemplo da CPFL Energia, em um país onde tal longevidade não é a tradição’, comenta Mário Mazzilli, diretor-superintendente do Instituto CPFL.

A relação da Pinacoteca com o escultor Auguste Rodin (1840-1917) se iniciou em 1995, no contexto das exposições ‘Rodin: Esculturas’ e ‘Rodin e a Fotografia’, realizadas em parceria com o Museu Rodin, de Paris. As mostras receberam, juntas, mais de 183 mil pessoas e marcaram também o início das exposições internacionais de grande porte na instituição.

Naquele ano, o museu conseguiu, graças à campanha de doação junto ao público, adquirir A Musa Trágica (1890-92). Em seguida, seria a vez de O Gênio do Repouso Eterno (1899-1902), doada ao museu pelo Shopping Center Iguatemi no mesmo ano. 

Trata-se da 11ª cópia disponível no mundo e considerada uma das mais monumentais do artista, com cerca de dois metros de altura e 500 quilos. Até o ano de 2005, o museu incorporaria ainda mais oito esculturas: Torso masculino do Beijo (c. 1886), Torso do filho de Ugolino (1882), Bacanal (1880-1990), Musa de Whistler – Estudo para o monumento ‘Tipo C’ (c. 1905-1906), Torso da Sombra (1880), Toalete de Vênus e Andrômeda (~1890-1987), A sacerdotisa (~ 1899-1995) e Homem que caminha sobre coluna (1877-1990).

Em 2001, a Pinacoteca organizou mais duas mostras dedicadas ao escultor: Auguste Rodin: esculturas e fotografias e a espetacular A Porta do Inferno, que recebeu mais de 300 mil visitantes. O título da última faz referência a uma obra monumental, considerada uma das mais icônicas na carreira de Rodin, que, de certa forma, revela a 'admiração do artista pela arquitetura gótica, a Renascença italiana e o poder do qual o artista dotou o corpo humano', segundo a conservadora-chefe do Museu Rodin, Antoinette Le Normand-Romain. Aquela foi a primeira vez que a obra foi exibida na América Latina. Além da Porta, a Pinacoteca apresentou ainda 43 esculturas em bronze, 25 desenhos e 10 fotografias.

De 3 de agosto a 15 de dezembro, a exposição Figura e modernidade: Rodin no acervo da Pinacoteca de São Paulo será recebida pelo Fórum das Artes, que marca também a inauguração deste novo espaço cultural no interior paulista. Localizado na cidade de Botucatu, terá um andar inteiro para a Pinacoteca e abrigará também o museu municipal Itajaí Martins.

AÇÃO EDUCATIVA
As duas exposições contarão com recursos educativos, desenvolvidos pelo NAE – Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca, para uso autônomo, que estimulam a participação do público de todas as idades, criando novas relações com as obras. Também serão realizados dois encontros de formação para professores, um em cada município. Monitores estarão no local para atender o público, e o agendamento de visitas pode ser feito pelo telefone (19) 3757-8000 ou pelo e-mail:  




(JA, Mar19)


domingo, 24 de março de 2019

Em mini documentário, Jim Carrey conta como a arte o salva da depressão






Conhecido por grandes papéis na comédia, o ator Jim Carrey estrelou num mini documentário para contar como a arte o salva da depressão. A doença, que atinge 350 milhões de pessoas no mundo segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é contornada por meio dos pincéis e das cores do astro do cinema.

Em ‘Jim Carrey: I Needed Color’, lançado em agosto de 2017 na plataforma Vimeo, o ator se vê completamente obcecado pelo então novo hobby, que inicialmente veio para ‘curar um coração partido’. Em seis anos de prática, quando ficou mais afastado das telonas, ele abusou das tintas para conseguir mergulhar por seus sentimentos sem se afogar nas mágoas.

‘Eu acho que o que faz alguém ser um artista é que eles fazem modelos de sua vida interior’, disse Jim Carrey. ‘Eles fazem algo entrar em seu ser físico que é inspirado por suas emoções ou suas necessidades, ou o que sentem que o público precisa’.




O vídeo já ultrapassou 5 milhões de visualizações e tem apenas seis minutos. De forma sensível, carregada de emoção e em primeira pessoa, consegue mostrar como a arte – por meio de trabalhos manuais e que incentivam a criatividade – traz sensações de prazer, anestesiando os males da depressão. Carrey afirma que ‘eu não sei o que a pintura me ensina, mas sei que me liberta. Me liberta do futuro, me liberta do passado, me liberta do arrependimento, me liberta da preocupação’.

Recentemente, o ator afirmou que a essa altura não tem mais depressão, pois agora sente que ‘a chuva chega, chove, mas não permanece’, conforme suas próprias palavras.

A arte é reconhecida como um meio terapêutico para a cura, um meio importante para externar as emoções, compreende-las e superá-las.

Assista abaixo ao mini documentário “Jim Carrey – I Needed Color” legendado e inspire-se:















Fonte: Brunella Nunes  |    Razões para acreditar



(JA, Mar19)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Burle Marx: Arte, Paisagem e Botânica




A retrospectiva destaca a polivalência do arquiteto Roberto Burle Marx, que atuou também como pintor, escultor, designer, botânico e ecologista.

Com curadoria de Cauê Alves, a mostra que estará no Mube até 26-05, é dividida em três núcleos, e reúne cerca de 70 trabalhos, entre desenhos, pinturas, esculturas, tapeçarias, objetos, projetos e registros de expedições científicas.






Burle Marx. 1909-1994,  uma das figuras mais queridas do paisagismo brasileiro. Tornou-se um expoente no Paisagismo do Brasil e também do ativismo ambiental pioneiro da década de 70.

Foi cientista amador, paisagista, arquiteto, desenhista, escultor, ceramista, tapeceiro, litógrafo, design e decorador, entre outros.

Na sua infância, passada na cidade do Rio de Janeiro,  teve seu primeiro contato com a paisagem, mas seu ‘mergulho’ na intelectualidade artística da época recebeu expressivas influências da Alemanha, onde foi morar com sua família em 1928 (Berlim).

O ponto alto desta experiência em Berlim: Burle Marx ficou deslumbrado com os jardins e museus botânicos de Dahlen, onde pode encontrar exemplares da flora brasileira… sim da flora brasileira. E, então, volta ao Brasil, no Rio de Janeiro na década de 30, com mil ideias e matriculou-se num curso de Pintura e Arquitetura, na Escola Nacional de Belas Artes.  

Já em 1932 seu primeiro projeto foi executado: o jardim da residência da família Schwartz, -também em território carioca-, a convite do arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998). Sim… o mesmo que desenhou o urbanismo de Brasília. E depois, um projeto de arquitetura com o pioneiro da Arquitetura moderna Gregory Warchavchik, 1896-1972.

E nos anos seguintes, que viraram décadas, foi com produções nestas áreas que marcou sua importância na historiografia do paisagismo brasileiro.




Burle Marx assumiu como diretor de parques e jardins de Recife, entre 1934 e 1937, um sonho para muitos paisagista. E, exatamente neste período, conhece e tem aulas com Cândido Portinari, 1903-1962  - nosso grande pintor; e com Mario de Andrade, 1893-1945, no famoso Instituto de Arte da Universidade de Brasília.

Pouco tempo depois, ele organizou uma coleção enorme de espécimes vegetais com potencial para projetos paisagísticos em um terreno de 800.000 m², em Campo Grande.

Com uma equipe multidisciplinar (rara na época; hoje muito mais comum), segue em suas expedições com botânicos experientes, catalogando e coletando mais de 30 exemplares de ecossistemas diversos no Brasil, antes desconhecidos (alguns levam seu nome). Estas excursões pioneiras formaram a sua base como profissional do Paisagismo e marcaram todo seu ‘memorial botânico’ específico. Ou seja, as espécies escolhidas para seu projeto. Definindo, com o tempo, até sua paleta cromática baseada nas texturas, cores e formas destes exemplares, harmoniosamente com relação direta com a pintura.

Agora, entrando de acordo com o relatado no folder oficial do MUBE - que pode ser retirado na entrada da exposição – a história deste grande paisagista brasileiro teve um momento especial com a história do próprio museu, quando o arquiteto Paulo Mendes da Rocha anunciou no projeto do próprio MUBE (Concurso de 1986) que indicaria Burle Marx para compor o que chamou de ‘Jardim do Museu’. 

Fato muito interessante para uma década em que o paisagismo , no Brasil,estava ganhando mais visibilidade, enquanto conector entre o externo e a obra arquitetônica, e não mais como um item avulso com caráter apenas de decoração. Paulo Mendes, também referência na história da Arquitetura do Brasil, declara que pensou em ‘palmeiras, bromélias, arvoredo da serra do mar, paulista’, mostrando já ser partidário dos ideias ambientais de Burle Marx.

A denominada floresta ombrófila (popularmente, Mata Atlântica), um exemplar vegetal exótico, exige muito mais água, adubos e, em alguns casos, pode até envenenar certos pássaros, pois seus frutos são comestíveis para avifauna nativa. Sabemos ainda que na pequena História do Paisagismo no Brasil, ele não conseguiu ser reconhecido devidamente como o são alguns  paisagistas do exterior  

Lá fora o Paisagismo já amalgama intervenções ambientais de reestruturação ecológica com qualidade de vida, como em Paris, nos projetos do paisagista francês Thierry Jacquet, e no paisagismo vertical ecologicamente correto do botânico com título de doutorado, o francês Patrick Blanc, criador dos jardins verticais!

No Brasil, só com Burle Marx foi possível ter este engajamento, raro em pesquisas de campo pelo Brasil, com coletas, e descobertas de espécies, estudos de espécimes selvagens, que foram adaptados em seu Sítio (ainda aberto à visitação no Rio de Janeiro), para serem futuramente implantados em seus projetos.

Num primeiro momento da exposição, temos acesso a alguns destes raros exemplares catalogados pelo próprio Burle Marx, confirmando sua apreciação – uma raridade na época – da vegetação nativa em projetos de Paisagismo.


                  



Muitos paisagistas no Brasil, talvez por facilidade do acesso e de viveiros, privilegiam em seus projetos o que chamamos de espécimes exóticos. Já que o povo brasileiro –acredito que por heranças histórico-coloniais– ainda preferem a estética destas plantas, em detrimento das nativas.

Mesmo com as tímidas leis ambientais que existem. Pelo menos, com Burle Marx (que foi também cientista botânico amador, pintor, designer de tapeçarias e objetos, ativista ecológico, conferencista em universidades e no Senado Federal – com denúncias a crimes ambientais e exigindo incentivos para projetos de recuperação ambiental), temos um pioneiro no modelo de paisagista engajado a entender nossas matas, catingas e até mangues (ecossistema mais delicado ainda).

Burle Marx foi um defensor declarado da natureza, desde a década de 70 (quando nem era ‘moda’ ainda se falar de Ecologia, por exemplo). De acordo com seu pensamento, os processos ecológicos deveriam ser estudados e depois englobados no projeto de paisagismo.


                  


Neste contexto, a militância ecológica de Burle Marx assume pioneiramente em nosso histórico de lutas ambientais.

Entretanto, atualmente, ainda hoje ainda falta consciência de que o impacto ambiental também é negativo ao se plantar espécimes vegetais exóticos (que não são do nosso ecossistema) nos nossos projetos privados e públicos por todo o país. Isto é motivo de preocupação, principalmente entre os pesquisadores da área da Botânica e Ecologia, por exemplo.

É um alívio por poder ver os estudos, pinturas, pré-projetos e projetos executivos de Burle Marx indo na contramão do pensamento simplista do mercado de paisagismo. Realmente será possível entender, concluindo a exposição, as etapas de projeto, apreciando os mesmos delicados papéis que resistiram a décadas.

Afinal sabemos como é de difícil conservação um projeto em papel vegetal ou papel manteiga, típicos como meio de trabalho até hoje em alguns escritórios de paisagistas de referência. Mesmo com o avanço da informática, como com uso de programas diversos, o desenho à mão, ou o desenho técnico à mão em nanquim, ainda é valorizado. É uma marca do toque artesanal (podemos dizer) e artístico do processo de criação e concepção de um jardim, de uma área verde urbana e até de intervenções expressivas no urbano.  

Nesta exposição do MUBE você poderá estar perto do famoso desenho do calçadão de Copacabana (RJ). Sentir o desenho feito à mão com nanquim…. Uma joia tal qual um quadro raro num museu; e do projeto dos jardins do famoso Terraço Itália e do Parque Del Este (Caracas, Venezuela).

Estar nesta exposição próxima aos desenhos de mangues, de caatinga, entre outros, feitos pelo próprio Burle Marx toca o visitante. Mesmo os distraídos, já que enfatiza também o Burle Marx artista plástico, tão conhecido quanto o Burle Marx paisagista.

Porém, como a própria exposição anuncia, outras facetas menos conhecidas deste grande paisagista brasileiro é colocada à disposição do público. Até vasos de vidro de sua autoria, toalhas de mesa gigantescas  desenhadas à mão, e tapeçarias artesanais, são criações de Burle Marx que sensibilizam o público.

Pela complexidade desta personalidade que é Burle Marx, é sugerido que o visitante percorra a exposição no horário de visitação, com monitores esclarecendo dúvidas e ampliando conexões entre os objetos, projetos, pinturas e tapeçarias.






Burle Marx: Arte, Paisagem e Botânica
Mube - R. Alemanha, 221, Jardim Europa, região oeste, tel. 2594-2601.
Ter. a dom.: 10h às 18h.
Prorrogada até 26/5.
Livre. Grátis  


Fonte: Cintia R Rondon, Arquiteta paisagista e urbanista. Professora de Paisagismo e Decoração. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura. Especialista em Desenho Ambiental, Arquitetura da Paisagem e Historia da Arte.


(JA, Mar19),  

quarta-feira, 13 de março de 2019

Exposição apresenta iconografia de São Francisco de Assis por mestres italianos



Com seleção de 18 obras, exposição que chega a São Paulo destaca as representações de São Francisco de Assis por artistas italianos

Acervo Pinacoteca Civica, Comune di Ascoli Piceno (Itália)

Um dos santos mais presentes na iconografia católica é tema de nova exposição que chega à cidade.  ‘São Francisco de Assis na Arte de Mestres Italianos’ – que já passou por museus de Belo Horizonte e Rio de Janeiro – reúne 18 obras datadas dos séculos 15, 16 e 17, vindas, em sua maioria, de coleções públicas italianas.

Diretor da Pinacoteca Civica Di Ascoli e curador da mostra (ao lado do historiador da arte Giovanni Morello), Stefano Papetti atribui o grande número de representações de São Francisco ao entendimento que os franciscanos tiveram, desde cedo, sobre o poder das imagens na difusão da biografia e, sobretudo, dos milagres do santo.

Assim, segundo ele, 'a partir de Giotto, os principais artistas italianos e europeus o retrataram destacando suas principais qualidades morais – pacifismo, amor pela natureza, respeito ao próximo'.

Acompanhando os diferentes momentos da trajetória de São Francisco, a exposição é dividida em três núcleos: ‘Imagens’, ‘Os Estigmas’ e ‘Conversas Sagradas’. As seções contemplam desde os primeiros retratos de suas privações, nos quais aparece como uma figura franzina, até representações suas como santo merecedor de devoção, associado à Virgem Maria e a outros nomes sagrados.

Do realismo da Renascença em Tiziano, passando pelo Barroco de Guido Reni e Guercino, até obras ligadas à Reforma Católica, como as de Cigoli e Andrea Lilli, o curador aponta que a mostra ajuda na compreensão de como sua figura foi motivo de interpretações ligadas a diferentes correntes artísticas. ‘Sem, entretanto, trair a mensagem de paz, amor universal, atenção às criaturas e humildade que marcaram seu caminho’.

Além do conjunto de pinturas, a mostra contará com uma sala de realidade virtual na qual será possível ‘caminhar’ pela Basílica Superior de Assis, que guarda afrescos com cenas da vida de São Francisco assinados por Giotto.



‘São Francisco de Assis na Arte de Mestres Italianos’
ONDE: MAB-Faap. -  R. Alagoas, 903, Higienópolis, Tel.: (11) 3662-7198
QUANDO: 10h/19h (sáb., dom. e fer., 10h/18h; fecha 3ª).  Até 12/4
QUANTO: Grátis




Fonte: Júlia Correa   |   ESP


(JA, Mar19)


terça-feira, 12 de março de 2019

Rembrandt volta aos holofotes com celebrações dos 350 anos de sua morte



Mostras em diversas cidades da Holanda permitem ao visitante ver a quase totalidade de sua obra 






Quando morreu em 1669, o pintor Rembrandt estava falido e solitário. Nada semelhante ao sucesso que alcançara cerca de 40 anos antes, quando se instalou em Amsterdã como jovem talento, logo considerado o melhor retratista dos Países Baixos, requisitado para pintar os ricos e poderosos.

Naquela época, amealhou grande fortuna, morava e trabalhava em uma mansão luxuosa na área nobre da principal metrópole holandesa e produziu compulsivamente desenhos, gravuras e pinturas a óleo, sempre testando e aprimorando técnicas.

Ao final da vida, porém, seu estilo saiu de moda, as encomendas diminuíram e a vida pessoal foi abalada pela morte da mulher, breves romances conturbados e a morte do filho mais velho. Ele faliu, perdeu a casa e improvisou tramoias para esconder dos credores as parcas rendas que conseguia com a pintura, que jamais abandonou.

Nascido em Leiden, ao sul de Amsterdã, em 1606, Rembrandt Harmenszoon van Rijn terminou a vida aos 63 anos em um hospital para indigentes, e foi enterrado sem identificação.

Mas os séculos posteriores foram gentis com sua memória. Ele passou a ser considerado a principal referência do renascentismo do norte europeu, menos influenciado pelo estilo mais luminoso e colorido que predominava no sul, como foram seus contemporâneos Rubens e Vermeer, por exemplo.

A Holanda comemora no ano de Rembrandt os 350 anos de sua morte, com mostras ao longo de 2019 em pelo menos 19 museus de nove cidades.

Na maior dessas exposições, aberta em fevereiro, o Rijksmuseum apresenta todo o seu acervo de obras de Rembrandt, considerado o maior do mundo em uma só instituição -22 pinturas, 60 desenhos e cerca de 300 gravuras.

O evento oferece uma oportunidade única para conhecer ao mesmo tempo e em um só lugar essa grande porção da vasta obra do artista, uma vez que os desenhos e gravuras são raramente expostos por serem sensíveis à luz.




Entre as obras estão diversas das principais telas fundamentais do pintor, incluindo a ‘Ronda Noturna’, pintada de 1639 a 1642, considerada a sua maior criação. Ela foi produzida por encomenda da Guarda Civil de Amsterdã para ser instalada em sua sede e tem 3,80 m de altura por 4,54 m de largura.

No século 18, o quadro foi cortado para caber em uma parede da prefeitura, onde ficou instalado por mais de cem anos, antes de ser levado para o Rijksmuseum, em 1885.




Também está na exposição ‘A Noiva Judia’ (1667), com a qual Vincent van Gogh, também holandês, teria dito que daria dez anos de vida para conviver por dez dias.




Um outro casal emociona os visitantes —os retratos de Marten Soolmans e a mulher, Oopjen Coppit, foram pintados na época de seu casamento, em 1634, e adquiridos há três anos pelo Rijksmuseum e pelo Louvre, em sociedade, por € 160 milhões (cerca de R$ 670 milhões), pagos à família Rothschild.

Os quadros, de 2,10 m de altura cada um, mostram os dois em tamanho natural, vestidos com as melhores roupas e tecidos da época. Depois desta exposição, os quadros devem seguir para o Louvre e rodar o mundo, como prevê o acordo de aquisição conjunta.

Também a Casa de Rembrandt, ou Rembrandthuis, que funciona na mansão em que o artista viveu nos tempos áureos, no centro de Amsterdã, reconstruída e transformada em museu há uns cem anos, apresenta uma mostra especial, chamada ‘A Rede Social de Rembrandt’, explorando as imagens que ele produziu dos que o cercavam.




Em Haia, o museu Casa de Maurício de Nassau, a Mauritshuis, também apresenta todo o seu acervo de Rembrandt. O museu é mais famoso por ser a morada do quadro ‘Moça com Brinco de Pérola’, de Vermeer, mas tem um conjunto importante de 19 pinturas de Rembrandt. O maior destaque é a tela ‘A Lição de Anatomia do Dr. Tulp’, de 1632.




Em um ensaio sobre o quadro ‘As Meninas’ (1656), de Velázquez, que serve de abertura ao livro ‘As Palavras e as Coisas’, o filósofo Michel Foucault mostra como o pintor espanhol seiscentista se põe pioneiramente como objeto central de sua obra-prima. Ele está no centro do quadro, no mesmo plano da filha do rei da Espanha e suas damas de companhia, que deveriam ser o centro das atenções.

‘Pinto, logo existo’, parece afirmar pictoricamente o artista mais ou menos na mesma época em que o francês René Descartes proclamava seu ‘penso, logo existo’. Aquele momento do Renascentismo, revela Foucault, marca a afirmação do homem como centro do universo, tomando o lugar antes reservado ao Deus onipotente e onipresente que havia marcado o pensamento humano até então.

A rara oportunidade de avaliar a quase totalidade da obra de Rembrandt permite constatar como, décadas antes de Velázquez, o holandês havia se colocado como pintor no centro do palco da própria obra. As dezenas de autorretratos (ou selfies como se diria hoje) e a aparição meio escondida ao fundo da ‘Ronda Noturna’ não eram manifestações de narcisismo, mas uma narrativa de sua trajetória e da técnica artística.

Rembrandt pintava a existência do artista como um pioneiro manifesto renascentista.
As mostras do ano de Rembrandt em curso na Holanda podem fazer o que pareceria impossível —pôr o pintor seiscentista em uma posição ainda mais destacada no panorama da história da arte.




Fonte: Leão Serva   |   FSP


(JA, Mar19)