terça-feira, 24 de setembro de 2019

Espanhol cria mostra a partir de pesquisa sobre a Mata Atlântica e a Amazônia



Em entrevistas, artista criticou governo brasileiro por incêndios ocorridos nas últimas semanas


'Elegancia y Renuncia', de 2011, na exposição de Daniel Steegmann Mangrané em Milão


O convite para protagonizar uma exposição em Milão foi feito com um ano de antecedência, mas na véspera da abertura, na segunda semana de setembro, Daniel Steegmann Mangrané viu o interesse pela sua mostra se confundir com o noticiário  internacional.

Espanhol radicado há 15 anos no Rio de Janeiro, Mangrané tem um trabalho marcado pela representação da natureza, especialmente da mata atlântica, o que bastou para A sua individual ser amplificada pelas queimadas na Amazônia e o modo com que o governo brasileiro conduz a questão ambiental.

O artista de 42 anos não se esquivou. Questionado por uma jornalista italiana sobre a floresta que aparecia em chamas na mídia da Europa, ele respondeu o que parece ter sido repetido várias vezes naqueles dias.

‘O que está acontecendo na Amazônia é basicamente um crime contra a humanidade, porque as consequências vão muito além do Brasil, é uma crise global’, disse. ‘Estou certo de que o governo do Brasil é criminoso e que está tentando acabar com a Amazônia, para dá-la ao agronegócio’.


‘A Transparent Leaf Instead of the Mouth’


Sua mostra na Itália está em cartaz até 19 de janeiro no Pirelli HangarBicocca, um dos espaços de arte contemporânea mais consistentes de Milão, por onde passaram Philippe Parreno, Damián Ortega e Cildo Meireles.

Disposta pelos 1.400 m² de uma sala dedicada a artistas em meio de carreira, a exposição é uma retrospectiva com 22 trabalhos feitos desde 1998, em diferentes formatos.

Lá dentro, a espessura dos temas do noticiário se desfaz e é substituída por uma realidade bem menos palpável, seja pelo caráter sublime de cada obra, seja pelo projeto expositivo que ocupa o espaço retangular sem paredes, concebido pelo próprio artista.

Com a intenção de suavizar o passado do edifício, construído no começo do século 20 para uma fábrica de peças para trens e máquinas, Mangrané abriu portas e janelas para que a luz natural entrasse.

‘A ideia é receber o espectador e o seu corpo de uma maneira mais gentil, mais confortável, e também poder brincar com a escala. Esse espaço está ocupado por alguns trabalhos bem pequenos que te obrigam a olhar de perto, o que faz você se esquecer de onde está’, explica.

Isso acontece com ‘Lichtzwang’, série iniciada em 1998 e até hoje em andamento. O conjunto de 256 aquarelas sobre pequenas folhas de caderno (21 cm x 15 cm), é a primeira obra do percurso.

Ao encará-las e acompanhar sua evolução horizontalmente, o visitante aciona uma espécie de animação, resultado que varia de acordo com a disposição de cada um para girar a cabeça, acelerar ou diminuir o passo. ‘Há uma dança fenomenológica do corpo ao traçar essa linha de desenhos’.

O interesse pela exposição como meio, e por obras de arte que se completam com a interação do visitante, vem de influências que o artista recebeu da arte brasileira dos anos 1960 e 1970, especialmente de Hélio Oiticica e Lygia Clark.

‘Eles entendiam essa questão sensorial do espectador como uma entrada democrática ao trabalho, algo que dispensa um conhecimento prévio para se ter uma experiência física. Essa é uma ideia que sempre me fascinou e que me levou a ir morar no Brasil’, conta Mangrané, que nasceu e cresceu em Barcelona. Foi lá, na Fundação Tàpies, que conheceu a produção de Oiticica e Clark.

A formação como artista foi a segunda escolha de Mangrané, que durante a adolescência flertou com a ideia de ser biólogo. Vem daí a presença da natureza em seus trabalhos, intensificada após sua ida ao Rio, em 2004.

Atraído pela floresta amazônica e a mata atlântica, usou plantas, folhas, galhos e insetos para desenvolver hologramas, vídeos e instalações, todos presentes na mostra em Milão.

Um dos destaques é o ecossistema compreendido em uma estrutura de metal e vidro, com vegetação típica da região local e insetos vivos como bichos-paus e outros fasmídeos que se confundem com as formas das folhas.

Em ‘Phantom’, obra observada em ambiente de realidade virtual, gera no visitante desconfiança —o que se mexe ou não, o que é natural ou artificial, o que é concreto ou percepção.

‘No trabalho de Daniel, a ideia de ecossistema é fundamental. Ele mostra que tudo está interligado, tudo depende de tudo, e se você destrói ou move um elemento, isso pode realmente afetar o resto’, diz Fiammetta Griccioli, cocuradora da exposição.
E é com esse pensamento que Mangrané recebe a entrada dos temas do noticiário na esfera artística, e finaliza:  


‘A Amazônia é uma questão importante a ser discutida, e a arte é uma arena de discussão. Temos que mudar nosso paradigma para que se reconheça que tudo está inter-relacionado’.





Fonte: Michele Oliveira   |   FSP



(JA, Set19)



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Mostra exibe as ninfas sensuais e o flerte místico de Alfons Mucha, na Fiesp



Expoente do art nouveau, tcheco é famoso pelas gravuras de mulheres emolduradas por flores e arabescos


'As Estações' - O Verão', 1896, parte da série de quatro painéis decorativos 


Se a menção seca a Alfons Mucha (pronuncia-se ‘murra’) talvez não baste para provocar o estalo mental no leitor, as imagens que acompanham este texto têm tudo para servir de gatilho e fazê-lo “ligar o nome à pessoa”.

O artista tcheco se aventurou na pintura, na escultura, na fotografia e na cenografia. Mas foi com suas gravuras habitadas por mulheres que parecem ninfas envoltas em motivos florais e arabescos tão ondulantes quanto sensuais que se tornou o patrono do estilo art nouveau, no fim do século 19.


Cartaz de 1898 para montagem tragédia Medeia, protagonizada por Sarah Bernhardt


Os meandros do ‘toque Mucha’, decantado em pôsteres para as peças da atriz Sarah Bernhardt, 1844-1923 e em rótulos e embalagens para espumantes, sabonetes, biscoitos e cigarros, estão em destaque, a partir desta quarta (18), em exposição no Centro Cultural Fiesp.

A mostra reúne mais de cem obras emprestadas pela Fundação Mucha, sediada em Praga, e constitui a amostra mais expressiva do trabalho do artista a passar pelo Brasil.
A curadora Tomoko Sato destaca a dupla habilidade do artista, capaz de conjugar experimentações formais ao longo de toda a carreira (‘e isso antes das vanguardas modernas’, diz) com a compreensão do que era preciso para atender ao gosto popular —e, assim, turbinar seu cacife.

‘Ele tinha consciência da importância da repetição, dessas variações sutis sobre um mesmo tema que fazem  o público associar uma obra a um artista’, diz Sato.
‘Além disso, sua produção é linear. As pessoas gostam daquilo que entendem. Foi assim que Mucha se tornou uma das primeiras celebridades do meio artístico.

Para a curadora, o gravurista manejou conceitos como sedução, surpresa e choque com a argúcia de um ‘pai da propaganda moderna’.

Recrutado às pressas pelo entourage de Bernhardt em 1894, ele atingiria o ápice de sua notoriedade ao fim do contrato de seis anos com a atriz, que cobria a criação de cenários, figurinos e cartazes para as montagens dela.


Cartaz publicitário filtro de cigarro, 1896


Quando assinou a cenografia do pavilhão bósnio na Exposição Universal de Paris de 1900, suas musas longilíneas, de cabeleira longa emolduradas por mosaicos já eram copiadas mundo afora.

Na França, contribuíram para a projeção de Mucha o aperfeiçoamento das técnicas de impressão e uma eslavofilia que respondia ao poderio do Império Alemão.

A influência do ‘estilo Mucha’ foi se diluindo ao longo das décadas, sobretudo por causa do fascínio gerado pelas vanguardas modernistas do começo do século 20.

‘O art nouveau e sua vocação decorativa eram considerados anacrônicos, frívolos’, explica Sato. Até que uma retrospectiva do tcheco em 1963, em Londres, coincidiu com um ‘espírito do tempo’ sombrio.

O noticiário girava em torno de Guerra Fria, conflito no Vietnã, assassinato do presidente John F. Kennedy... E as cores e curvas de Mucha prometiam um bálsamo, alguma sorte de unguento para as incertezas do mundo.

Sua iconografia foi então reabilitada pelo movimento psicodélico —sobretudo o braço britânico deste—, inspirando pôsteres para Pink Floyd e Rolling Stones.

No fim do século 20, a exuberância das gravuras da fase mais conhecida do tcheco ressurge como inspiração para quadrinhos da Marvel, mangás japoneses e manhwas sul-coreanos. Alguns desses ecos na seara das HQs integram a exposição agora em cartaz no Brasil.

O público de São Paulo também verá que, apesar do reconhecimento, Mucha se ressentia da ligeireza associada à sua obra.

Como diz a curadora Sato, é irônico que alguém tão interessado pela representação das ideias e pelo alcance filosófico seja lembrado pelo estilo ‘cosmético’, que para alguns se resume ao frufru.

Em escritos, ele menciona a busca por ‘algo mais elevado’, o intuito de ‘lançar luz sobre os lugares mais remotos’. Tal rota vai levá-lo à maçonaria e a experiências com correntes espiritualistas, como o misticismo e o ocultismo, muito por influência do amigo sueco August Strindberg, dramaturgo.  

Um dos primeiros frutos dessa incursão íntima é o livro ilustrado ‘Pater’,  1899, que desdobra os versos do pai-nosso em simbologias cristã, judaica e islâmica, para traçar um caminho desde a escuridão da ignorância até os prometidos clarões da verdade e do divino.



Alfons Mucha, autorretrato na escada, trabalhando no pôster 'Imprimerie Cassan Fils', 1896



Porém, o projeto que vai de fato mobilizar Mucha em sua última fase, a partir da volta à terra natal, em 1910, é o da ‘Epopeia Eslava’, 20 murais em que cristaliza episódios-chave na história dos tchecos e de outros povos eslavos.

A independência da Tchecoslováquia, conquistada em 1918, era uma fixação do artista, que desenhou as primeiras notas e selos do país livre.

Mesmo nas figuras idealizadas, quase impalpáveis de seus cartazes da belle époque, o tcheco fizera questão de inserir acenos ao imaginário eslavo, fosse em trajes típicos do folclore, fosse em uma técnica de desenho emprestada à arte bizantina —o Império Romano do Oriente era tido como o ‘berço espiritual’ da cultura eslava.

Quando a libertação do jugo do Império Austro-Húngaro veio, houve quem dissesse que a magnum opus de Mucha perdera o sentido.

A entrada das tropas nazistas em Praga em 1939 e a anexação parcial da Tchecoslováquia durante a Segunda Guerra mostraram quem tinha razão em revolver o passado para tentar evitar o eterno retorno de equívocos.

Como a ‘Epopeia’ é frágil para sair da República Tcheca, será apresentada ao público paulistano por meio de uma instalação audiovisual.


ALPHONSE MUCHA: O LEGADO DA ART NOUVEAU
Quando Ter. a sáb., das 10h às 22h. Dom., das 10h às 20h. Até 15/12
Onde Centro Cultural Fiesp, av. Paulista, 1.313, Cerqueira César
Preço Grátis


Fonte: Lucas Neves   |   FSP


(JA, Set19)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Tema de mostra, Farocki questionou significado das imagens na era pré-fake news


Expostas no IMS Paulista, obras em vídeo do artista se debruçam ainda sobre relações de trabalho




Na era do deepfake —técnica que, por meio de inteligência artificial, manipula conteúdo audiovisual com o intuito de propagar uma mentira—, é difícil distinguir, entre milhares de imagens que bombardeiam o cotidiano, o que é falso e o que não é.

A situação remete a uma das questões centrais do trabalho de Harun Farocki, cineasta e artista visual radicado na Alemanha que cravou por meio de seu trabalho que nenhuma imagem é inocente, nas palavras de Heloisa Espada, curadora de ‘Harun Farocki: Quem É Responsável?’.

Dividida em duas partes —a primeira esteve em cartaz no IMS Rio entre março e junho—, a mostra é uma compilação de instalações em vídeo que questionam colonialismo, controle, tecnologia, belicismo e as condições de trabalho ao longo das décadas.

Agora, a sede paulista do instituto recebe uma continuação do projeto, formado por sete obras não exibidas no Rio e que abre nesta terça (17).




‘Nada é inocente, tudo tem uma intenção, principalmente uma intenção política’, diz Espada. Ela cita uma gravação que esteve no Rio na qual o próprio Farocki discute, com o filósofo Vilém Flusser, a relação entre texto, fotos e design em um tablóide sensacionalista alemão. ‘O mesmo poderia ser feito com um meme hoje em dia’, completa.

Morto em 2014, Farocki não viveu para ver a ascensão das fake news, termo abraçado pelo léxico de dezenas de idiomas na campanha que elegeu Trump nos Estados Unidos.

Em terras brasileiras, ele vem sendo repetido à exaustão por Bolsonaro e seus seguidores para classificar reportagens que impactam sua imagem de forma negativa.

‘Com certeza Harun ficaria horrorizado com Trump e Bolsonaro’, diz a viúva do cineasta, Antje Ehmann, que também é responsável por seu espólio e é cocuradora da mostra. ‘A ideia de não acreditar nas notícias é nova e é terrível, é perigosa’, afirma.




Os dois estiveram juntos por cerca de 20 anos. Se conheceram graças a um festival de cinema no qual Ehmann trabalhava e, a partir da década de 1990, também compartilharam a vida profissional.

Eles conceberam diversas obras em parceria, incluindo ‘Plano-sequência sobre Trabalho’, exposta no IMS Paulista. A instalação reúne filmagens curtas de trabalhadores, formais e informais, em diversos países e ofícios.

As gravações foram feitas por meio de oficinas ministradas pelo casal. Cerca de três anos após a morte de Farocki, Ehmann decidiu dar continuidade ao projeto e hoje compila conteúdo em um site.


Retrato de Harun Farocki em 2007


‘Precisamos ver o trabalho de forma crítica, repensando sua função ao longo do século 20 e nos dias atuais’, afirma. ‘Precisamos analisar as transformações que ele causa no Brasil e em outros países’.

Este é o foco desta segunda parte de ‘Quem É Responsável?’, que no Rio priorizou questionamentos sobre controle e tecnologia. A escolha desse eixo temático ocorreu após a intervenção militar na cidade. Em São Paulo, Espada conta, tomaram maior liberdade na seleção das obras.

‘O trabalho é uma temática que sempre esteve no cerne da produção do Farocki’, diz. ‘E quisemos trazer isso ao Brasil, nesta que é a maior de suas mostras no país, se somarmos Rio e São Paulo, e que está tão conectada às suas opiniões em relação ao cinema’.

Tanto a curadora quanto Ehmann gostam de ressaltar que, antes de artista, Farocki era cineasta, e era assim que gostava de se apresentar às pessoas. Ele não estava interessado em ser artista, diz sua viúva.

Com cinematografia pautada pelo experimentalismo e o ativismo, Farocki fez a transição das telas para os museus e galerias nos anos 1990, depois de receber um convite para montar uma instalação em vídeo na França.

‘Essa mudança aconteceu porque ele percebeu que, nesses espaços, seu tipo de cinema poderia alcançar um número maior de pessoas’, conta Ehmann. ‘E seu objetivo enquanto realizador sempre foi dialogar com quem quer que fosse’.


HARUN FAROCKI: QUEM É RESPONSÁVEL?
IMS Paulista, av. Paulista, 2.424
De 17-Set a 05-Jan
Ter., qua. e sex. a dom., das 10h às 20h. Qui., das 10h às 22h
Grátis


Fonte: Leonardo Sanchez   |   FSP



(JA, Set19)




domingo, 15 de setembro de 2019

Conversas na Praça: o urbanismo de Jorge Wilheim


Vale do Anhangabaú, como conhecemos hoje, é um dos projetos de Jorge Wilheim

Com curadoria de Guilherme Wisnik, exposição recupera o legado de um dos grandes nomes da arquitetura e do urbanismo no país e convida o público à reflexão sobre cidades mais humanas, justas e sustentáveis.

O que o Vale do Anhangabaú, o Pátio do Colégio, o plano diretor de Curitiba, a cidade de Angélica, no Mato Grosso do Sul e o centro de eventos Anhembi têm em comum? Esses grandes projetos de arquitetura e urbanismo, alguns cartões postais de São Paulo, foram concebidos por - ou tiveram a colaboração de - Jorge Wilheim, 1928 – 2014.




Jorge Wilheim era arquiteto, urbanista e gestor público em São Paulo


Mas quem foi Jorge Wilheim?

Apesar de italiano, de Trieste, Jorge Wilheim mudou-se para o Brasil com 12 anos. Formou-se em arquitetura na década de 50 na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Já formado, enfrentou o desafio de projetar uma nova cidade para 15 mil pessoas no Mato Grosso do Sul - Angélica- com a finalidade de desenvolver a região. Neste projeto, começa então sua busca por um planejamento urbano que tivesse como premissa a ecologia.


Vale do Anhangabaú, projetado por Jorge Wilheim, em foto de Cristiano Mascaro na exposição ‘Conversas na Praça’


Em 1956, participou do concurso para o plano-piloto de Brasília, na mesma licitação que elegeu o projeto de Lucio Costa. Esteve à frente de projetos que até hoje são considerados cartões-postais paulistanos, como o Parque Anhembi (1967-73) e os projetos de reurbanização do Vale do Anhangabaú (1981-91) e do Pátio do Colégio, sítio da fundação de São Paulo (1975). Em reconhecimento ao seu trabalho, recebeu os prêmios ‘Tarsila do Amaral’ (1956), ‘Governador do Estado’ (1964), ‘IAB de Urbanismo’ (1965 e 67), ‘IAB para Ensaio’ (1965 e 67) e a Ordem do Mérito de Brasília (1985).

No campo político, foi Secretário de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo (1975-79); duas vezes Secretário de Planejamento da capital paulista (1983-1985 e 2001-2004); Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (1987-1990); além de presidente da Emplasa, Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo (1991-1994). 

Suas principais marcas no Governo do Estado de São Paulo foram a criação do PROCON, da EMTU e do ‘Passe do Trabalhador’, hoje conhecido como Vale Transporte. Foi também responsável por mais de vinte planos urbanísticos, 
destacando-se os de Curitiba, Goiânia, Natal, Campinas e São José dos Campos. 

Ainda na esfera pública, organizou a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (a primeira do Brasil) e, durante sua gestão, implantou a primeira utilização oficial de álcool combustível no país, programa que seria conhecido mais tarde como Proálcool. 

Como Secretário Geral Adjunto da divisão da ONU para a realização da Conferência Global sobre Assentamentos Humanos - Habitat 2, organizou, em 1996, um encontro com quase duzentos países em Istambul.

Wilheim escreveu 10 livros sobre vida urbana, publicados por diferentes editoras de São Paulo, Buenos Aires e Londres. Destacou-se também pela participação ativa no mundo das artes plásticas; trabalhando junto com Pietro Maria Bardi, participou da montagem do MASP e foi presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

Faleceu na cidade de São Paulo em fevereiro de 2014, aos 85 anos. Wilheim se destacou como um dos mais importantes e visionários urbanistas brasileiros. Seu extenso conhecimento sobre a dinâmica urbana se transformou em soluções vibrantes e inovadoras em prol da qualidade de vida nas metrópoles em desenvolvimento.

Projeto de revitalização da Rua Augusta, que não foi concretizado (Ilustração de Jorge Wilheim)



Conversas na Praça

O Sesc São Paulo, na unidade Consolação, recebe a exposição Conversas na Praça: o urbanismo de Jorge Wiheim, que se aprofunda na carreira do arquiteto, urbanista e gestor público. A instalação é um último desejo de Jorge: um banco em alguma praça da cidade para ler, desenhar, divagar e conversar com os jovens sobre suas vidas e locais que habitam.

Daí uma expografia, assinada pelo também arquiteto Pedro Mendes da Rocha, que transforma o Espaço de Convivência em uma praça, onde as pessoas podem interagir com o conteúdo exposto e dialoga sobre a importância do acolhimento de espaços públicos.


O que você encontra na Praça

Desenhos técnicos, croquis, fotografias, vídeos e arquivos sonoros - pertencente à família Wilheim e reunido pelo curador Guilherme Wisnik - apresentam as principais obras e projetos do urbanista: o Parque Anhembi, a cidade de Angélica no Mato Grosso do Sul, a reconfiguração do Pátio do Colégio, o calçadão da Rua Augusta, os planos diretores das cidades de Curitiba e Joinville e a reurbanização do Vale do Anhangabaú - espaço que nos últimos meses encontra-se no centro do debate paulistano.

A exposição tem o objetivo de fomentar no público uma discussão sobre a cidade ensinando conceitos importantes com que Jorge Wilheim trabalhou. Sempre atento e interessado às mudanças da sociedade no tempo em que viveu, o arquiteto buscou fontes de energias alternativas e sustentáveis, soluções para as novas formas de trabalho autônomo e flexível e caminhos para a participação da sociedade na política, tornando o viver na cidade o mais humano, acolhedor e democrático possível. 

Transitando com maior facilidade, em contato constante com ambientes mais verdes e seguros, um espaço pensado por todos pode promover mais qualidade de vida e bem-estar de todos.

Além da exposição na Convivência, toda a unidade do Sesc Consolação recebe uma programação integrada, com atividades relacionadas a arquitetura, o morar e usar a cidade, mobilidade urbana e outros assuntos em aulas abertas, bate-papos e oficinas. Confira aqui a programação completa.


O Parque Anhembi, em São Paulo, foi um dos maiores projetos de Jorge Wilheim


Construção do Parque Anhembi

Um dos maiores e mais icônicos projetos de Wilheim é o todo o complexo do Parque Anhembi. No vídeo a seguir, produzido para divulgar o espaço à época de sua inauguração, em 1967, vemos todo o contexto de sua construção. Na exposição você encontra uma representação em tamanho real de um dos pilares que sustentam o teto dessa obra prima da arquitetura paulistana.







Conversas na Praça: o urbanismo de Jorge Wilheim
SESC  Consolação - Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque - tel.: (11) 3234-3000
De 20/9 a 14/12
De seg. a sex., das 10h30 às 21h30; sáb., das 10h30 às 18h30

Grátis



Fonte: SESC-SP



(JA, Set19)



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Robert Frank escancarou o lado trágico do sonho americano

Morto nesta segunda (9), fotógrafo foi responsável por 'The Americans', que será sempre lembrada como uma obra-prima


O fotógrafo Robert Frank


Robert Frank, cujo trabalho mais importante, ‘The Americans’, um dos retratos mais dilacerantes dos Estados Unidos, não era americano; era suíço. Sua obra será sempre lembrada como uma obra-prima da fotografia.

O fotógrafo, no entanto, não escolheu os EUA ou a Suíça para passar os últimos anos de sua vida. Foi na província de Nova Escócia, no Canadá, que morreu nesta segunda-feira (9), aos 94 anos.

A simplicidade com que vivia numa comunidade rural de 1.300 habitantes difere pouco do contexto que moldou a jornada de Frank, dirigindo um Ford usado pelos EUA, na década de 1950.

Naquela época, o país vivia com intensidade a ideia de uma América heroica, pós-Segunda Guerra Mundial e ainda embalada pelo otimismo do sonho americano de filmes e programas de TV.


'Trolleybus, New Orleans', fotografia  da série 'The Americans'

Frank derrubou tudo. Com acidez, escancarou com imagens em preto e branco —publicadas pela primeira vez na França em 1958 e no ano seguinte, nos EUA— o lado trágico da bonança econômica, carregado de desilusões e paradoxos, como a violência da segregação racial nos estados do sul.

Ao mesmo tempo em que observava as contradições do país ao qual chegara quando tinha 23 anos, afastado pelo que chamou de ‘valores mesquinhos’ da Suíça, o fotógrafo também reuniu uma espécie de alfabeto visual americano.

Em ‘The Americans’, sobram bandeiras nacionais, jukeboxes, cartolas e carros. Mas esses elementos, desenvolvidos posteriormente em cor por William Eggleston e Stephen Shore, o que releva a influência de Frank ao longo dos anos, ainda estão num nível abaixo das sensações que o suíço imprimiu nas imagens do livro.

Robert Frank nasceu em 1924 em Zurique, na Suíça. Em 1946 criou seu primeiro livro de imagens, intitulado ‘40 fotos’.

No ano seguinte emigrou para os Estados Unidos, onde colaborou como fotógrafo em revistas como Harper’s Bazaar, Life, Look e Vogue.


Exposição Robert Frank, abertura, do Instituto Moreira Salles, Av. Paulista


Em 1948 viajou pelas Américas Central e do Sul, percorrendo extensivamente o Peru, dos Andes à Amazônia, incluindo uma rápida incursão a Manaus no início de outubro daquele ano. Algumas das imagens dessa sua única visita ao Brasil, foram apresentadas na exposição do Instituo Moreira Salles, em dezembro de 2017.

Em 1949 editou e produziu um pequeno livro de autor sobre o Peru, material que seria publicado ao longo da década de 1950 por Robert Delpire, que viria a ser o primeiro editor da série ‘Os americanos’, publicada na França em 1958 sob o título ‘Les Américains’, contendo excertos de textos de vários autores sobre os EUA.


Rodeo,  fotografia de 1954, NY-EUA


Em 1959 o livro foi publicado nos EUA pela Grove Press. A edição americana trazia apenas um texto introdutório de Jack Kerouac, que estabelece plena sinergia com o espírito buscado por Frank em seu projeto original. Dessa primeira edição americana, revisada e reeditada por Frank em 2008 com seu editor, Gerhard Steidl, resulta a edição brasileira do livro ‘Os americanos’, lançado pelo IMS conjuntamente com a exposição, em 2017.




A ideia de uma narrativa em que as imagens falam por si, sem a necessidade de textos de apoio, influenciou gerações. Não é difícil encontrar nomes importantes, como Alec Soth, que veneram o trabalho de Frank.

Ainda que o gênero da road trip tenha se estabelecido nos EUA bem antes da publicação dos americanos de Frank, é ‘The Americans’, ao lado de ‘American Photographs’, de Walker Evans, grande influência do suíço, a maior das referências dentro da fotografia.

Também é injusto limitá-lo em uma só área uma vez que sua produção cinematográfica é muito relevante.

Os muitos curtas, médias e longas-metragens, entre eles ‘Pull My Daisy’, baseado em texto de Jack Kerouac —que escreveu o prefácio da versão americana de ‘The Americans’—, colocam-na em pé de igualdade com sua obra fotográfica.

Em 1972, viajou com os Rolling Stones para documentá-los, num registro que excedia as apresentações musicais. Os abusos de drogas, as brigas entre fãs e a presença de groupies fizeram a banda censurar as filmagens.

Descartar o que produziu talvez fosse uma novidade para Frank à época, mas se transformou num modus operandi ao final de sua carreira.

Da parceria que consolidou com o alemão Gerhard Steidl, mítico impressor de livros, com quem publicou mais de três dezenas de títulos, veio a mostra em que expôs séries de fotografias impressas em banners pendurados diretamente na parede, sem molduras, como se fossem livros desconstruídos.

Ao final da exposição, Frank pedia que o material fosse destruído e descartado. Afirmava, assim, conforme texto do Instituto Moreira Salles, que exibiu a mostra no Brasil, ‘a percepção do artista de que sua obra sobrevive plenamente na forma democrática e acessível dos livros de autor e dos filmes que produziu’.

Frank teve dois filhos. Andrea morreu aos 20 anos, em 1974, em um acidente de avião. Pablo se suicidou em 1994. Ele deixa a mulher, June Leaf, com quem foi casado desde 1975.

A faceta autobiográfica está impressa em ‘The Lines of My Hand’, no qual ele juntou imagens feitas antes e depois de ‘The Americans’, incluindo viagens a Peru, França, Espanha e Reino Unido, além de registros de sua família.

Pelas linhas de sua mão, Frank deixará as marcas de um artista que desafiou a visão falsamente otimista de um país que explodia por dentro. Um retrato pouco diferente do que há hoje.

Frank foi o estrangeiro que compreendeu a América.




Fonte:  Daigo Oliva, FSP |  IMS



(JA, Set19)