quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Man Ray, o fotógrafo que deu status de arte à fotografia



O Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, recebe a primeira retrospectiva brasileira do trabalho do sedutor modernista americano


ESPELHO - Man Ray no célebre autorretrato: o pai das selfies



No estúdio que manteve em Paris nos anos gloriosos da carreira, entre 1921 e 1940, o americano Man Ray promoveu inovações em várias frentes.

Expoente de duas vanguardas ruidosas, o dadaísmo e o surrealismo, ele atacou de início como pintor e escultor. Logo se converteu em desbravador da fotografia de moda, produzindo ensaios até hoje influentes para as revistas Vogue e Harper’s Bazaar.

Foi ainda na fotografia, afinal, que alcançou seu grande feito — nada menos do que elevar essa forma de expressão ao patamar de arte. Para Man Ray, a labuta no estúdio era, digamos, duplamente extenuante: ele gostava de trabalhar deitado na cama — sempre na companhia de belas mulheres.

Daí vem, naturalmente, a sensualidade radiante dos 225 itens de Man Ray em Paris, a primeira mostra devotada ao maior fotógrafo modernista realizada até hoje no país.

Com abertura na última quarta-feira 21, na filial paulistana do Centro Cultural Banco do Brasil (em dezembro, o acervo aporta em Belo Horizonte), a retrospectiva ilumina um artista que foi discreto perto de seus pares mais famosos nos mesmos movimentos — pois seria difícil competir em egolatria ou capacidade de chamar atenção com o francês Marcel Duchamp e o catalão Salvador Dalí.

Mas, embora trabalhasse quieto, Man Ray era famoso em toda a Paris boêmia por sua facilidade em unir o útil ao agradável. Ele amava retratar o corpo feminino, decupado especialmente em nus radicais (não raro tão despudorados que fariam corar políticos com medo de Bruna Surfistinha).

‘Man Ray tinha a reputação de ser um dom-juan, um grande fornicateur’, diz a curadora francesa Emmanuelle de l’Ecotais. ‘Objeto de desejo e de fantasias, a mulher emerge em suas fotografias sempre num mundo estranho, desmaterializada’, divaga a especialista.

No mundo real, havia bastante matéria envolvida no negócio: as musas de Man Ray eram também suas amantes. As principais beldades foram Kiki (1922-1926), Lee Miller (1929-1932), Meret Oppenheim (1933-1934), Ady (1936-1940) e Juliet (a partir de 1941).

Kiki foi a modelo da célebre e muito imitada Noire et Blanche (Negra e Branca), imagem surrealista que exibe o rosto da modelo em pose sonhadora (sonhos eram uma obsessão surrealista) ao lado de uma máscara africana. Quando Kiki o largou, Man Ray exprimiu sua ira em outro símbolo da fotografia: Lágrimas, em que os olhos de uma manequim surgem em close, com gotas de vidro simulando choro.




Nem só de retratos femininos se fez a obra do dom-juan modernista. Possivelmente, Man Ray foi o inventor da selfie: em imagens precursoras como o autorretrato na imagem em destaque, ele capta a si mesmo diante do espelho. Na entrada da mostra, os espectadores serão convidados a copiar sua pose.

Ainda que abranja toda a sua trajetória, a exposição se detém principalmente nos anos em Paris até 1940, que foram os mais produtivos.

Judeu, Man Ray teve de fugir da Europa na II Guerra, mas voltou mais adiante e viveu lá até a morte, em 1976, aos 86 anos. Nessa fase tardia, já era prisioneiro do sucesso. Diz a curadora:


‘Ele adotou o discurso provocativo de que a fotografia não era arte, enquanto ele era precisamente aquele que tornou a fotografia uma arte’.


Man Ray fez sua fama na cama — mas, ao posar para a posteridade, não se deitou nela.






Fonte:  Marcelo Marthe    |  Rev. Veja 



(JA, Ago19)


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Exposição introduz público à obra do fotógrafo e pintor Man Ray


Retrospectiva dedicada pelo CCBB de São Paulo ao fotógrafo surrealista norte-americano.

'Lágrimas', 1932

Com caráter didático, retrospectiva cobre os anos de 1921 a 1940 da produção parisiense do artista americano.

Esta retrospectiva, apresentada pela primeira vez no Brasil, abrange a imensa e multiforme obra de Man Ray. Conhecido principalmente por sua fotografia, mas também criador de objetos, realizador de filmes e faz-tudo genial, Man Ray chega a Paris em 1921, onde permanece até a Segunda Guerra Mundial e para onde retorna definitivamente em 1951. Foi nessa cidade que sua arte original se desenvolveu e mais repercutiu.

A exposição elucida, por meio de cerca de 250 obras, a lenta maturação de Man Ray, bem como apresenta um panorama completo de sua criatividade. Das primeiras obras dadaístas ao retrato e à paisagem, da moda às imagens surrealistas, de seus trabalhos comerciais a uma seleção de seus objetos e filmes, e à sua vontade de revelar outra realidade, reúnem-se nesta exposição toda a complexidade e a riqueza do que ele nos legou.

‘Man Ray em Paris’ reúne fotografias e objetos nunca exibidos no Brasil. Tendo como curadora a francesa Emmanuelle de l’Ecotais, a mostra foi montada de forma didática, de modo a introduzir o público na obra do fotógrafo e pintor.

No dia 21 de agosto, às 19h, a curadora Emmanuelle De l'ecotais conversa com o público sobre a trajetória de Man Ray, com entrada franca mediante retirada de senha a partir de 1 hora antes do início do evento. Sujeito à lotação.

A exposição cobre os anos de 1921 a 1940, período mais intenso do trabalho de Man Ray, pseudônimo de Emanuel Radnitzky, nascido na Filadélfia em 1890, que, na década de 1910, conheceu Duchamp e, encantado com os dadaístas, fixou residência em Paris, onde conviveu com a vanguarda da época, de André Breton, teórico do surrealismo, a Picasso, o maior nome do cubismo. Imagens dele e outros artistas do século 20 estão na mostra.

Quase um século após Man Ray ter registrado imagens de corpos nus, nos anos 1920, suas fotos ainda provocam desconforto, especialmente nesta época de regressão moralista: o cartaz concebido pela curadora francesa Emmanuelle de l’Ecotais para a mostra Man Ray em Paris, que será aberta no dia 21, no CCBB de São Paulo, foi trocado por orientação da produtora Artepadilla.

Esse cartaz, que reproduziria uma foto da série Érotique Voilée, dos anos 1930, com a modelo Meret Oppenheim nua, foi substituído pela imagem Larmes (1932), que agora anuncia a exposição na parede frontal do CCCB, no centro. Não pesou na decisão da produtora brasileira, segundo seu diretor Roberto Padilla, a censura à mostra, ao contrário de Queermuseu, exposição que provocou protestos de grupos conservadores em 2017.


Le Violon d'Ingres, 1924


Padilla esclareceu a troca da foto como estratégica, e não como censura. ‘Não houve cerceamento propriamente, mas cautela, pois a foto poderia dar uma conotação errada à exposição, que não é só de nus’, justificou o produtor. Como se trata de uma mostra abrangente, dedicada a apresentar a obra de Man Ray aos brasileiros, a produtora considerou que uma foto com nu poderia induzir o público a imaginar que se trata de uma exposição de caráter erótico. Não é, de fato, mas poderia ser. Afinal, como indica o título da foto renegada, Érotique Voilée, trata-se de erotismo velado, o que não se aplica às outras imagens da série na mostra do CCCB – a instituição não participou do debate para decidir o cartaz, não censurou obras ou sugeriu faixa etária para ingresso, segundo o produtor.

Seja como for, a obra de Man Ray está repleta de sugestões eróticas, como parte da produção surrealista da época, impulsionada pelas descobertas da psicanálise freudiana, que dava grande importância ao inconsciente e ao sexo.

São 255 fotografias de excepcional qualidade, produzidas por Man Ray em Paris, entre 1921 e 1940, período marcante de sua produção, além de objetos nunca exibidos no Brasil.

Entre eles está o famoso ferro de engomar com tachinhas (Cadeau, 1921), um ready-made de sua primeira exposição individual em Paris cujo título irônico (Presente) subverte o conceito de uma peça que se recebe com satisfação. Outro objeto da mostra, Obstruction (1920/1960), deu um trabalho imenso para a curadora Emmanuelle de l’Ecotais, autora de dois livros sobre Man Ray, e do catálogo raisonné de suas rayografias (fotos obtidas sem recorrer a um aparelho fotográfico, mas por meio de sensibilização à luz de objetos colocados sobre o papel fotográfico).

Cuidadosa, Emmanuelle supervisionou a montagem da dadaísta ‘Obstruction’ peça por peça – são 63 cabides acoplados nessa assemblage que evoca um candelabro, recorrendo ao procedimento dadaísta de trabalhar com objetos do cotidiano (ready-made). Man Ray fez o original em 1920 e produziu uma edição de 15 deles para uma mostra de arte cinética, em 1961. Difícil calcular o preço de objetos como o ferro de engomar ou dessa peça, mas uma fotografia vintage do surrealista pode chegar a ¤ 2,5 milhões.

Das primeiras obras dadaístas de Man Ray às imagens surrealistas, passando por fotos de Paris nos ‘anos loucos’ (1920/30), a retrospectiva foi organizada, segundo a curadora, de modo didático para dar ao público um panorama geral de suas técnicas – ele foi pioneiro em muitas delas, como a solarização – e linguagem. ‘Em cada um dos andares o público vai conhecer seu processo de criação, inclusive seus filmes’.



Autorretrato, Man Ray





Fonte: Antonio Gonçalves Filho, OESP




(JA, Ago19)

domingo, 18 de agosto de 2019

Tendência de exposições digitais leva multidões a 'entrar' em quadros


Mostras em Paris exibem projeções virtuais de obras de Da Vinci e Van Gogh

Van Gogh, ‘Noite Estrelada’


Agora que até a ‘Mona Lisa’, obra-prima de Leonardo da Vinci, será exibida virtualmente no tradicionalíssimo Museu do Louvre a partir do dia 24 de outubro, não restam mais dúvidas: as exposições imersivas vieram para ficar.



Egon Schiele, 'Minha Irmã Gerta, 1909

A moda começou a se consolidar no Atelier des Lumières em abril de 2018, com a exposição de Gustav Klimt e Egon Schiele, que em nove meses levou 4 milhões de visitantes ao espaço parisiense.

O Atelier continua provocando filas com a mostra interativa de Van Gogh, que requer compra antecipada de ingressos. Tudo bem, esse tipo de antecipação também é vital nas concorridas exposições de museus convencionais, mas basta falar em experiência imersiva para despertar o interesse de multidões, ávidas em interagir com as obras.

A experiência digital da ‘Mona Lisa’ permitirá aos visitantes, por meios de óculos especiais, observar minúcias do quadro mais famoso do mundo, com impressionantes proximidade e resolução. Será como se os visitantes ultrapassassem o vidro protetor do museu para verificar os detalhes da obra invisíveis a olho nu.




A exposição, ‘Mona Lisa: Além do Vidro’, apresentará descobertas científicas sobre os métodos usados por Da Vinci no quadro pintado entre 1503 e 1506 com a técnica sfumato, além de informações adicionais sobre a nobre italiana Lisa del Giocondo, inspiradora do trabalho.

Da Vinci talvez pudesse ver com alguma naturalidade a exibição virtual de sua obra-prima, dada sua intimidade com a inovação, que incluía até a dissecação de cadáveres para aperfeiçoar seus quadros. Já Van Gogh, que não conheceu sucesso e reconhecimento em vida, ficaria atônito se entrasse na exposição do Atelier des Lumières, montada na antiga fundação de aço da família Plichon, na capital francesa.

A sensação de ‘entrar’ em um quadro de Van Gogh é arrebatadora. Um dos pontos altos das imagens projetadas nas paredes de dez metros de altura do galpão é o tremular das águas do quadro ‘Noite Estrelada’, que dá nome à exposição. A intensidade das pinceladas se torna mais nítida pela ampliação da caótica e poética criação de Van Gogh.




As projeções, iniciadas pelo ambiente na Holanda em que o pintor passou seus primeiros anos de vida, também contemplam outros locais retratados em suas telas, como Arles, Paris e Auvers-sur-Oise.

Tudo isso pode ser apreciado por visitantes em movimento, sentados no chão nos carretéis de madeira espalhados pelo espaço, nas escadas que levam a um segundo piso ou mesmo lá de cima, com vista panorâmica. O público pode filmar e fotografar as imagens, desde que o flash não seja acionado.

Trata-se de uma situação bem diferente da vivenciada nas passivas exposições convencionais. Além de atraente ao público, a experiência digital pode representar um fator de economia para os museus. Sem a necessidade de ter no acervo as obras reais, eles deixariam de arcar com os milionários custos dos seguros.

Durante 35 minutos, tempo de visitação que cada pessoa pode repetir quantas vezes quiser —eu fiz três passeios consecutivos—, as imagens, estáticas ou em movimento, são acompanhadas por trilha sonora escolhida a dedo pelos realizadores: de Janis Joplin a Miles Davis, passando por Vivaldi e Puccini.

Curiosamente, não há um único francês entre os organizadores da mostra de Van Gogh. Todos são italianos. ‘Eu quis conduzir os visitantes além da tradicional experiência de observar, levando-os ao coração das obras, de maneira que eles se tornem um componente integral da experiência imersiva’, explica Gianfranco Iannuzzi, coordenador dos espaços imersivos.

E como Van Gogh sofreu fortes influências da arte japonesa e sentiu-se no Japão ao chegar a Provence, a mostra tem uma sequência, ‘Sonho Japonês, Imagens de um Mundo Flutuante’, cujo auge é uma dança de lanternas japonesas flutuando pelo gigantesco espaço.

O Atelier des Lumières —que guarda a sete chaves qual será sua próxima exposição, em 2020— já tem filiais em Baux-de-Provence, na Coreia do Sul e abre outra no ano que vem na cidade de Bordeaux.

Para a húngara Zuzana Paternostro, radicada no Brasil, que por mais de 30 anos exerceu a curadoria de pinturas estrangeiras no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, ‘é muito importante que a arte avance além dos muros dos castelos, para aproximar ainda mais o público das obras, rompendo barreiras e fronteiras’.






Fonte: Celina Côrtes  Ilustríssima, FSP 


(JA, Ago19)

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

'Abaporu', Tarsila do Amaral






‘Esnobaram o Abaporu’, diz ex-dono do mais famoso quadro brasileiro. Raul Forbes revela detalhes da tumultuada venda da tela assinada por Tarsila do Amaral

O que vivenciei é uma amostra fiel de como parte dos brasileiros trata a arte nacional. Eu adquirira a obra-prima Abaporu, de Tarsila do Amaral, em 1984, do empresário Érico Stickel. Foi-me dada a chance de pagá-la em cinco parcelas, mas acertei de uma vez só: 250 000 dólares.

Depois de ganhar e perder muito dinheiro com ações, vivi um período de problemas financeiros e tive de vendê-la a um colecionador argentino, com dor no coração. O ano era 1995. Como integrava o conselho da Bolsa de Valores, que à época montava sua coleção de arte, ofereci algo que qualquer especialista em arte jamais recusaria.

Para minha surpresa, ninguém se apresentou. Fui em busca de outros compradores, de empresas a pessoas físicas, sem sucesso. A única saída foi vender o quadro em um leilão fora do Brasil, na Christie’s de Nova York. Uma vez marcada a data do evento, aconteceu o imprevisível. Precisei travar uma batalha judicial contra o governo do Estado de São Paulo, que, ao saber da venda da tela modernista, tomou uma medida inédita: tombou o Abaporu como patrimônio estadual.

Com essa medida arbitrária, o colecionador seria impedido de comercializar o quadro e até mesmo de emprestá-­lo a um museu sem autorização prévia.

Entrei com uma liminar e, finalmente, o Abaporu embarcou para os Estados Unidos, menos de 24 horas antes de o leilão começar, escoltado por polícia armada. Em Nova York, houve outra surpresa. A guerra judicial com o governo paulista afugentou os dois únicos interessados que até então tinham feito os cadastros. A diretora da Christie’s perguntou se eu queria desistir, diante do iminente risco de encalhe. Não topei, já não poderia desistir. Imagine voltar para o Brasil com o Abaporu debaixo do braço. Seria um retrocesso enorme para a arte brasileira.


Raul Forbes, ex-dono da mais famosa tela brasileira: 'Não sinto tristeza por ter vendido o Abaporu, pois a obra me ajudou em um momento de dificuldade financeira'


Na hora do leilão, uma surpresa: o argentino Eduardo Costantini deu o maior lance e arrematou a tela por 1,3 milhão de dólares. Levou também o Autorretrato com Macaco e Papagaio, da Frida Khalo, por outros 3,2 milhões de dólares. Costantini formava sua coleção de obras de arte latinas para compor o acervo do Malba, em Buenos Aires.

Se foi complexo tirar o Abaporu do Brasil, também foi difícil permitir seu ingresso na Argentina. O governo do país vizinho decidiu taxar em 10% o valor das obras adquiridas. Enquanto Costantini lutava na Justiça local para diminuir o imposto, os quadros de Tarsila e Frida ficaram exilados no Uruguai.

À época, eu possuía uma casa em Punta del Este, e tive a chance de rever meu antigo quadro, já um ano após o leilão. Costantini organizou uma exposição no Museo Nacional de Artes Visuales, de Montevidéu, com a presença do então presidente uruguaio, Julio María Sanguinetti. O quadro da Frida, que eu particularmente acho horrível, estava cercado por uma proteção de vidro, na expectativa de ser a grande atração da mostra.

Na abertura, no entanto, a realidade: apenas quatro gatos-pingados apreciavam a tela da mexicana, enquanto 150 pessoas admiravam o Abaporu. Na hora, Costantini teve a certeza de ter feito um excelente negócio. Aliás, ao perceber a bobagem de não ter ficado com o Abaporu, a Bolsa de Valores pediu que eu tentasse repatriá-lo. O orçamento era de 3 milhões de dólares. Ainda estiquei a corda para 4 milhões, mas o atual dono não quis nem saber.

Hoje, o quadro está avaliado em pelo menos 75 milhões de dólares. Acompanhei, agora, o extraordinário interesse pela obra da Tarsila no Masp, em São Paulo, com filas a perder de vista, e me senti orgulhoso.

Não sinto tristeza por ter vendido o Abaporu, pois a obra me ajudou em um momento de dificuldade financeira. Infelizmente, nos últimos dias, por uma questão de saúde, não tive a chance de apreciá-lo pessoalmente.




Fonte:  Raul Forbes |  João Batista Jr, Rev.Veja





(JA, Ago19)




quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Gyo Fukikawa






Na revista ‘New Yorker’, saiu interessante matéria sobre a americana Gyo Fukikawa, 1908-1998. Ilustradora e escritora de livros infantis que se expressava com traços de singular delicadeza e inspiração. Filha de imigrantes japoneses que trabalhavam na viticultura da Califórnia, Gyo desde cedo mostrou seu talento.

Na escola, teve dificuldade para se ambientar entre colegas brancos; mas um professor percebeu seu potencial e a estimulou a se candidatar para uma bolsa no CalArts, instituto de artes plásticas.

Chegou a interromper os estudos para passar um ano no Japão e contatar vários artistas do país; a influência da arte japonesa marcaria sua obra. De volta à Califórnia, terminou o curso e foi contratada pelos estúdios Disney, onde participou dos desenhos promocionais para o célebre filme ‘Fantasia’.




Em 1941, a Disney a transferiu para a sucursal de Nova York. Isso a livrou dos campos de concentração  - após o ataque de Pearl Harbor, confinaram a colônia japonesa residente na costa do Pacífico, atendendo a suspeitas de espionagem jamais confirmadas. A medida atingiu cerca de 120.000 pessoas (em sua maioria, cidadãos americanos), inclusive os pais e o irmão de Gyo. Ela passou a  se sentir culpada por não ter sofrido a mesma provação.

Em Nova York, não demorou a iniciar sua carreira autônoma como ilustradora de livros. Nos anos 50, quebrando uma prática tradicional, conseguiu que seu trabalho fosse remunerado não por uma quantia fixa, mas em direitos autorais correspondentes a um porcentual sobre as vendas.




Depois de vários sucessos, Gyo lançou em 1963 o primeiro livro infantil de sua autoria, ‘Babies’. Teve a ideia de apresentar uma variedade étnica de bebês – ‘bebezinhos negros, asiáticos, todos os tipos...’ O editor relutou, temendo que imagens de bebês negros prejudicassem as vendas no Sul dos Estados Unidos.

Ela insistiu, e o livro saiu como pretendia; foi um best-seller, com cerca de dois milhões de exemplares vendidos, traduções para vinte idiomas. Esse livro  entrou para a história como o primeiro livro infantil com personagens multiétnicos.

Diferenciadas, mas universais, as figuras de Gyo cativam os leitores. Com raras presenças de adultos, quem domina a cena são tipicamente crianças de rosto redondo, com pontinhos pretos representando os olhos. Nem sempre crianças exultantes de alegria − também aparecem emoções infantis, como solidão ou raiva. Contava um livreiro que a filha de um cliente se emocionou tanto com o choro de uma criancinha mostrada em ‘Babies’ que foi buscar seu cobertor e o colocou na página do livro a fim de consolá-la...

Acometida por glaucoma e mal de Parkinson, Gyo foi cessando de escrever. Estava no final da vida

Sinto-me lisonjeada − contou a um entrevistador − quando me perguntam como consigo captar tão bem o modo de pensar e sentir das crianças. Não tive filhos, e minha infância não foi maravilhosa, mas é que talvez eu própria ainda me conserve como criança. Acho que uma parte de mim nunca chegou a crescer.






Imagens publicadas na 'New Yorker', por cortesia da Sterling Publishing Co.
Fonte: Antônio Carlos Boa Nova  |  AMDG



(JA, Ago19)



quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Gustav Klimt






Gustav Klimt, 1862-1918, foi um pintor simbolista austríaco, líder do Movimento da Secessão de Viena – grupo de artistas que se desligaram do academismo da pintura e aderiu ao Simbolismo.


‘O Abraço’, 1905~1909

Os desenhos e pinturas de Gustav Klimt, refinados, sugestivos, sensuais, ricos em referências, são obras provocativas, que encerram e transmitem a atmosfera da Viena da ‘belle epoque’, a Viena de Freud, Gustav Mahler, e Schönberg.

Nasceu em 14 de julho de 1862 na pequena localidade de Baumgarten, ao sul de Viena, na Áustria Imperial, que em 1867 foi substituída pelo Império Austro-Húngaro. Filho de Ernst Klimt, ourives gravador, e de Anna Fiuster, vienense de modestas condições sociais. Foi o segundo dos sete filhos do casal. Com 14 anos ingressou na Escola de Artes e Ofícios de Viena, juntamente com seu irmão Ernest, com o qual trabalhará com até a morte dele, em 1892.

Logo os dois estavam desenhando e vendendo retratos a partir de fotografias.

Em 1879, Gustav, seu irmão, e o amigo –companheiro de estudos- Franz Matsch, passaram a auxiliar seu professor na pintura de murais para o átrio do Museu de História da Arte de Viena. Em 1880 começaram a receber encomendas e realizaram diversos trabalhos, entre eles, quatro alegorias para o teto do Palácio Sturany em Viena, o teto do prédio da terma de Karlsbad na Tchecoslováquia, e a decoração da Villa Hermès, a partir de desenhos de Hans Makat.

Começa oficialmente a carreira de artista realizando decorações pintura de vários edifícios públicos e tornando-se, em breve, o herdeiro de Hans Makart, 1840-1884.

Em 1886, ao realizar um trabalho para o Burgthater de Viena, o estilo de Gustav começou a se diferenciar, iniciando um processo de afastamento do academismo da pintura convencional aprendida na escola. Em 1890, Gustav Klimt fundou e presidiu, junto com outros artistas, a ‘Associação Austríaca de Artistas Figurativos’, com o objetivo de se contrapor à conservadora Sociedade dos Artistas Vienenses.

Engajado numa nova perspectiva, desenvolveu uma produção de forte cunho decorativo, ganhando grande visibilidade, e sendo solicitado para decorar prédios e instituições, como a decoração do teto e das escadarias laterais do imponente ‘Teatro Municipal de Viena’, além de ter finalizado o projeto de decoração do ‘Museu Histórico da Arte’.

Em 1894, recebeu a tarefa de pintar três grandes painéis para o teto do auditório da Universidade de Viena, para representar as figuras da Filosofia, da Medicina e da Jurisprudência.

A decoração para a Assembleia Magna da Universidade de Viena, que tem por tema a filosofia, a medicina e a Jurisprudência, realizada por Klimt entre 1900 e 1903, causou críticas severas por parte das autoridades vienenses, que lhe contestaram o conteúdo erótico, e a inédita abordagem composição das pinturas. Da mesma forma, foi considerado obsceno o grande frisos decorativo realizado em 1902 para a sala que abrigava o monumento a Beethoven, obra de Max Klinger. Esses escândalos marcaram o fim da carreira oficial de Klimt. Mas Gustav Klimt nunca se deixou intimidar.

Como escreveu o mesmo Klimt, em uma carta à ‘Kunstlerhaus’ (a ‘casa do artista’, estrutura associativa dos artistas vienenses e organização oficial das exposições), o seu propósito era o de ‘trazer a vida artística vienense um relacionamento vital com a evolução da arte estrangeira, e propor exposições de puro caráter artístico, livre das exigências do mercado’.

O último painel do teto do auditório da Universidade de Viena só foi concluído em 1907. Nesse mesmo ano, liderou um grupo de artistas que fundou a ‘Secessão de Viena’, e aderiu ao simbolismo - a versão austríaca da Art Nouveau decorativa.  O termo ‘Secessão‘ é um empréstimo à história romana; refere-se ao método de luta usado pelos plebeus para obter a igualdade de direitos contra os patrícios, a ‘Secessio Plebis’. A palavra torna-se um termo de moda, significando a revolta dos jovens artistas contra o conservadorismo da geração anterior, e as taxas oficiais.

Klimt, usando as inovações decorativas do ‘Art Nouveau’, movimento relacionado especialmente com as artes aplicadas, do qual se tornou o maior representante no campo da pintura, desenvolveu um estilo rico e complexo, inspirando-se frequentemente na composição dos mosaicos bizantinos, por ele estudados a Ravenna. 

No plano mais teórico, em vez disso, tratava de abrir as fronteiras ao espírito da época, utilizando a arte simbolista, com uma forte conotação erótica.

Longe das correntes de vanguarda da pintura de então, e em contato com os aspectos mais inovadores da arquitetura e do design do século XX, Klimt foi um defensor de jovens artistas, incluindo Oskar Kokoschka e Egon Schiele (que foram apresentados aos vienenses, respectivamente, no Kunstschau de 1908 e de 1909).



‘O Beijo’, 1907~1908


Seus trabalhos mais famosos pertencem a ‘fase dourada’, em que utiliza folhas de ouro e retrata principalmente mulheres adornadas por pequenos objetos e formas geométricas, como no ‘Retrato de Adele Bloch-Bauer’, 1907, e ‘O Beijo’, 1907-1908 - sua obra-prima. Pintava com extrema minúcia levando suas modelos a longuíssimas seções.


Emílie Flöge e Gustav Klimt


Foi apaixonado por Emílie Flöge, com quem teve um longo caso de amor, e foi sua companheira durante anos.

Com seu estilo rebelde de vestir, na maioria das vezes envolto em uma túnica escura, Gustav Klimt tornou-se uma figura exótica. Por muitos anos tentou, sem sucesso, ser admitido na Academia de Arte de Viena. Só em 1917, recebeu o devido  reconhecimento, ao ser eleito membro honorário daquela entidade. No entanto, no ano seguinte sofreu um ataque de apoplexia, vindo a falecer.

Gustav Klimt faleceu em Viena, Áustria, no dia 6 de fevereiro de 1918.







Fonte: Paolo Marconi  |  WP



(JA, Ago19)

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Arte Atual | Jamais me olharás lá de onde te vejo






Abertura: 7 agosto 2019
Visitação: 8 agosto a 29 setembro 2019

Curadoria: Diego Mauro, Luana Fortes, Priscyla Gomes e Theo Monteiro  (Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake)

O Instituto Tomie Ohtake criou em 2013 o ‘Arte Atual’, uma plataforma para pesquisas artísticas, de caráter experimental, na qual, por meio de uma questão sugerida pelo seu Núcleo de Pesquisa e Curadoria, coordenado por Paulo Miyada, um grupo de artistas convidado desenvolve um novo trabalho.

A oitava edição do programa Arte Atual, ‘Jamais me olharás lá de onde te vejo’, traz em seu título uma referência a uma frase do psicanalista francês Jacques Lacan empregada no livro 11 de O Seminário denominado ‘Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise’.

‘Jamais me olharás lá de onde te vejo’ apresenta trabalhos de Éder Oliveira, Regina Parra e Virginia de Medeiros, a fim de empreender reflexões acerca tanto do retrato como gênero pictórico quanto como forma de reconhecer e atribuir uma identidade ao retratado.

O próprio ato de retratar também permeia as questões da mostra, partindo de diferentes abordagens e linguagens.

É possível, por intermédio dos trabalhos, discutir parâmetros de como os artistas constroem os limites entre o ‘eu’ e o ‘outro’, e delimitam relações de afinidade e de distinção. Mais do que isso, os trabalhos presentes explicitam como os artistas convidados se valem da figura humana como uma de suas ferramentas para abordar a violência que imputamos ou a que são imputados nossos corpos, os limites e rastros do tempo e a noção do corpo como um lugar de resistência.

A obra de Éder Oliveira resvala sobretudo na pintura. Conhecido por coloridos retratos feitos em diferentes escalas, cujo suporte pode variar da tela ao muro de cidades, o artista paraense se apropria de imagens do caderno policial de jornais e recria imagens majoritariamente masculinas. 

Sua investigação pondera sobre o que se entende como homem amazônico e traz à tona os altos índices de violência no norte do Brasil. Se até pouco tempo atrás Oliveira pintava figuras solo, mesmo que dispostas lado a lado em um contexto expositivo, agora o artista passa a pintar pessoas em grupos. 

Além disso, também é recente sua experiência de adicionar texto às suas pinturas. Agora, seus trabalhos tendem a vir acompanhados de citações literárias que servem comentários sobre a situação por ele representada.

Regina Parra, traz no retrato um processo de desconstrução mitológica sobre si.

Apesar de usar autorretratos fotográficos para escolher quais imagens pintar, a artista não considera os resultados como autorretratos. Com uma trajetória que já passou bastante pelo teatro, Parra afirma que empresta seu corpo para experimentar posições, movimentos e enquadramentos. 

Em ‘Jamais me olharás lá de onde te vejo’, a artista exibe uma série de pinturas e de neons, todos tendo como pano de fundo as peças ‘Dias Felizes’, 1961, e ‘Eu Não’, 1972, do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett.

Virginia de Medeiros, por sua vez, propõe uma nova montagem para a série ‘Alma de Bronze’, 2016-2018, realizada a partir de sua convivência com lideranças femininas da Frente de Luta por Moradia (FLM), do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), iniciada com sua participação no ‘Programa de Residência Artística Cambridge’ e posteriormente transmutada para a ‘Ocupação 9 de Julho’, onde exibiu uma primeira montagem do trabalho, que também foi exposto no Centro Cultural São Paulo (CCSP). 

Para o Instituto Tomie Ohtake, o projeto ganha um formato mais aberto e experimental que pretende servir como espaço para debates e conversas acerca dos acontecimentos mais urgentes do MSTC, com uma programação a ser definida de acordo com as demandas do movimento.

A nova montagem, de caráter instalativo, traz retratos em vídeo de doze importantes líderes femininas da ‘Ocupação 9 de Julho’, ao som de uma percussão de Beth Belli, regente de tambores do ‘Ilú Obá de Min’, que ressoa como um alerta e apenas cede o volume para as conversas que lá acontecerão.

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Éder Oliveira (Timboteua, PA, 1983) Vive e trabalha em Belém do Pará. Licenciado em Educação Artística - Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará. Pintor por ofício, desde 2004 desenvolve trabalhos relacionando retratos e identidade, tendo como objeto principal o homem amazônico.

Entre bolsas e premiações, destacam-se o Prêmio Pipa - Voto Popular Exposição, 2017, Lingener Kunstpreis, 2016, (Alemanha), Rede Nacional Funarte Artes Visuais, 2015, Prêmio Seiva Projetos Artísticos (Fundação Cultural do Pará, 2015), Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais, 2014.

Possui trabalhos em acervo de instituições como Centro de Arte Dos de Mayo - Madrid, Fundação Clóvis Salgado, Fundação Marcos Amaro, Itaú Cultural, Kunsthalle Lingen - Alemanha, MAC Rio Grande do Sul, Museu Casa das Onze Janelas, Museu de Arte de Belém e Museu de Arte do Rio.


Regina Parra (São Paulo, SP, 1984) vive e trabalha em São Paulo. Mestre em Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade Santa Marcelina (orientação de Lisette Lagnado) e bacharel em Artes Plásticas pela Faap (orientação de Paulo Pasta).

Nos últimos anos, realizou exposições individuais na Galeria Millan (SP), Pivô (SP), Centro Cultural São Paulo (SP), Paço das Artes (SP), Fundação Joaquim Nabuco (PE) e Galeria Leme (SP).


Virginia de Medeiros (Feira de Santana, BA, 1973) vive e trabalha em São Paulo, SP. Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia. Em 2014 foi premiada no 18º Festival de Arte Contemporânea Sesc-Videobrasil com a Bolsa na Residency Unlimited em Nova York.

Seus trabalhos foram expostos em numerosas ocasiões, entre elas, Behind the Sun-Prêmio Marcantônio Vilaça, HOME, Manchester, Reino Unido; MAR Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, Brasil, 31ª Bienal de São Paulo, ‘São Paulo: Como procurar coisas que não existem’; ‘Rainbow in the Dark’ , ‘SALT Galata’, ‘Istambul’; ‘Salón de Belleza’ [Beauty Salon], ‘Utopian Pulse – Flares in the Darkroom’, ‘Secessão de Viena,’ Viena, Áustria; 27ª Bienal Internacional de São Paulo ‘Como Viver Junto’; ‘Itinerários, Itinerâncias: 32º Panorama de Arte Brasileira’, MAM-SP; 2ª Trienal de Luanda ‘Geografias Emocionais’, ‘Arte e Afectos’ – ‘Projeto 3 Pontes’, Espaço Palladium, Luanda.







Fonte: Instituto Tomie Ohtake


(JA, Ago19)