terça-feira, 5 de julho de 2022

Colosso de Rodes

 


Ficava na entrada do porto de Mandraki, na ilha grega de Rodes.  Foi considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.  

O Colosso de Rodes foi construído pelo escultor grego Carés de Lindos. A proposta era homenagear titã, deus do Sol da mitologia grega, Hélios, para comemorar a vitória de Rodes contra o governante macedônio Antígono Monoftalmo, cujo filho, Demétrio I, sem sucesso, sitiou Rodes em 305 a.C.

Segundo relatos antigos, os quais diferem em algum grau, a construção começou em 292 a.C. e descreve que foi construída uma estrutura com barras de ferro onde placas de latão foram fixadas para formar a ‘pele’ da estátua.

O interior da estrutura, que estava em um pedestal de mármore branco de 15 metros de altura, perto da entrada do porto de Mandraki, foi preenchida com blocos de pedra, conforme a construção foi progredindo. Outras fontes colocam o Colosso em um quebra-mar no porto.

De acordo com a maioria das descrições contemporâneas, o Colosso tinha aproximadamente 70 côvados, ou 33 metros - altura aproximada da Estátua da Liberdade (dos pés à coroa), o que o tornava uma das mais altas estátuas do mundo antigo.

Grande parte do ferro e do bronze utilizado na sua construção, foi obtido das várias armas que o exército de Demétrio deixou para trás, após reforjadas.

As porções superiores foram construídas com a utilização de um grande rampa de barro. Durante a construção, os trabalhadores acumularam montes de terra nas laterais do colosso. Após a conclusão, toda a terra foi removida. A estátua foi concluída em 280 a.C, doze anos após o início da obra.

Existiu por 54 anos, até 226 a.C, quando um terremoto devastador a quebrou, na altura dos seus joelhos, e ela desabou.  Nunca foi reconstruída.  

A história nos deu muitas representações artísticas do Colosso, mas sua localização exata em Mandraki ainda permanece um mistério.

 


Fonte: WP

 

(JA, Jul22)

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Judy Garland, centenária, alcançou o arco-íris

Atriz de 'O Mágico de Oz' sofreu abusos nos bastidores, mas se tornou a grande diva de Hollywood

 

 

Em determinada cena de ‘Nasce uma Estrela’, de 1954, Judy Garland cantava e dançava para explicar à plateia o árduo caminho que percorreu até ver seu rosto reluzir numa tela de cinema. A paixão foi instantânea e, de repente, sua personagem no filme virou queridinha de Hollywood. Mas, na vida real, a estrela nasceu bem antes.

Neste 10 de junho, Garland completaria cem anos e, mesmo tendo vivido por breves 47 deles, ela continua uma das figuras que mais brilham na constelação de astros do showbiz. Como diz sua personagem em ‘Nasce uma Estrela’, ‘eu não virei sensação da noite para o dia, tudo começou há muitos anos’.

De fato, foi muito antes do papel que rendeu a ela a primeira indicação ao Oscar que Garland fixou seu rosto pueril e a voz potente no imaginário popular. Ela trabalhava nisso antes mesmo de ser tragada por um furacão, atropelar uma bruxa, e conhecer uma cidade coberta por esmeraldas, como a inesquecível Dorothy de ‘O Mágico de Oz’

 

Judy Garland como Doroty Gale, em 'O Mágico de Oz', 1939


Judy Garland foi esculpida para ser uma sensação das telas desde cedo. Aos dois anos, ainda como Frances Ethel Gumm, fazia sua estreia no teatro de vaudeville ao lado das irmãs. Filha de artistas, ela passou a infância nos palcos até ser descoberta por Louis B. Mayer, cofundador da MGM e um dos nomes mais poderosos da era de ouro de Hollywood, que acelerou o desabrochar de uma garota banal das entranhas do estado de Minnesota em diva do celuloide.

Essa seria sua passagem para a fama, mas também para a danação. Enquanto fazia pequenas aparições em filmes da década de 1930, a garota de 13 anos era submetida a rotinas obscenas de exercícios e dietas, para se adequar aos padrões de beleza da indústria.

Próteses dentárias, placas no nariz, e tinta nos cabelos, fizeram de Garland uma bonequinha nas mãos de Mayer, que teria sido o responsável pelo vício em barbitúricos que a mataria —a atriz dizia que as crianças da MGM tomavam medicamentos pesados do despertar ao adormecer.

Garland seria uma das primeiras e mais notáveis vítimas mirins dos excessos de uma indústria que, até pouco tempo atrás, ainda não tinha encontrado uma forma saudável de lidar com suas crianças e adolescentes —o colapso de Britney Spears, o assédio sofrido por Anthony Rapp, e a recusa de Mara Wilson em voltar às telas, são provas disso.

 

Judy Garland na primeira nova versão de 'Nasce uma Estrela, de 1954


Essa pressão apareceria em outra cena de ‘Nasce uma Estrela’, filme que curiosamente encontra vários paralelos com a vida de sua protagonista. Nela, um grupo de maquiadores reclama do nariz, do queixo, e de qualquer parte visível do corpo da atriz. A insegurança que isso gerou evoluiu para um comportamento autodestrutivo que acompanhou Garland ao longo da vida.

É curioso pensar que ela não foi a primeira escolha da MGM para ‘O Mágico de Oz’. Com Shirley Temple e Deanna Durbin indisponíveis, o estúdio teve de testar sua inclinação para o protagonismo, e o resultado foi avassalador.

O filme não recuperou seu gordo orçamento no lançamento original de 1939, mas se tornou uma das mais preciosas joias do cinema mundial, criando os moldes para uma farta e bem-sucedida leva de musicais em tecnicolor que dominaria aqueles anos dourados. Em boa parte, graças à versatilidade de Garland.

Nos primeiros acordes de ‘Over the Rainbow’, tema do filme e possivelmente a mais emblemática canção do cinema americano, ela hipnotizou o público não com beleza, mas com um talento inegável.

Com 17 anos e 1,51 metro de altura, a americana soltou a voz e nunca mais se calou. Seu timbre desproporcionalmente marcante, mal sabia ela, encantaria todas as gerações subsequentes de cinéfilos. Com seu olhar doce e sonhador, Garland foi capaz de encapsular toda a inocência e fantasia inerentes a qualquer criança —e da qual ela própria foi precocemente privada.

O que ela faz com o espectador nesse comecinho de ‘O Mágico de Oz’ é um dos melhores exemplos do que é a tal magia do cinema. E muita gente percebeu isso na época.

Garland venceu o extinto Oscar juvenil, e emendou sucesso atrás de sucesso na década de 1940 —foram 20 longas em dez anos. Em alguns deles, deu voz a outras canções que se tornariam standards, como ‘The Trolley Song’ e ‘Have Yourself a Merry Little Christmas’, do musical ‘Agora Seremos Felizes’, ou ‘Meet Me in St. Louis’.

Trabalhou com Fred Astaire e Gene Kelly, se envolveu com os diretores Vincent Minnelli e Orson Welles, virou amiga de John Kennedy, e foi se tornando uma figura indissociável da cultura americana, à medida que mergulhava no vício, na ruína financeira e na depressão, que a fez querer tirar a própria vida mais de uma vez.

Depois de gerar perdas consideráveis à MGM por causa de seus atrasos ou faltas nas filmagens, Garland foi liberada de seu contrato e, tão precoce quanto sua chegada ao estrelato, atingiu também o ostracismo, aos 28 anos.

Numa verdadeira relação tóxica com o showbiz, que ela tanto criticava, mas do qual era incapaz de se divorciar, decidiu pegar a estrada para uma série de shows e se reinventar. Garland esgotou as casas de espetáculos pelas quais passou, foi soterrada por elogios, e voltou a Los Angeles.

Talvez por isso tenha se tornado, ainda em vida, um ícone gay. ‘Homossexuais entendem o que é sofrer, assim como Garland’, publicaria a revista Esquire em 1969. ‘Ela é o Elvis dos homossexuais, um símbolo de liberdade emocional, uma mulher que lutou para viver e amar sem limites’, diria ainda a The Advocate.

Cantando sobre um lugar além do arco-íris, de cores vibrantes que contrastam com a realidade insossa do preto e branco, ela compartilhava com o público LGBTQIA+ que lotava seus shows um sentimento de inadequação, uma resiliência de quem é vítima de uma sociedade impiedosamente patriarcal.

Ela também custou para achar o amor, que esteve presente de forma breve, em seus cinco casamentos, alguns marcados por violência e mentiras. E seguia um estilo inegavelmente camp, sendo irônica e teatral, mesmo fora das telas.

De quebra, deu à luz outra diva, Liza Minnelli, ajudou a batizar o maior dos discos de Elton John, ‘Goodbye Yellow Brick Road’, foi imitada no reality show RuPaul’s Drag Race, e inspirou a gíria ‘amigo de Dorothy’, usada no mundo de língua inglesa para se referir a homens gays.

A vida de Judy Garland foi marcada por pontos altos e baixos, que se alternavam sem dar aviso prévio. Foi no período mais turbulento da carreira, aliás, que ela foi indicada a suas duas estatuetas do Oscar, por ‘Nasce uma Estrela’ e ‘Julgamento em Nuremberg’, se tornou a primeira mulher a vencer o Grammy de álbum do ano, com ‘Judy a Carnegie Hall’, e foi indicada ao Emmy.

Eleita pelo American Film Institute a oitava maior estrela da história de Hollywood, Garland sobreviveu ao teste do tempo desbancando aquelas mesmas atrizes belas e altas que a deixaram insegura durante toda a vida. Alcançou status de diva como poucas foram capazes, em parte por sua figura trágica —ideia que detestava—, mas especialmente por sua complexidade.

Judy Garland morreu aos 47 anos, em junho de 1969, após uma overdose acidental daqueles mesmos barbitúricos. Viveu intensa e apaixonadamente e fez muito, e muito bem, para cinema, teatro, música e TV.

Um século depois, a menina de vestido azul e sapatinhos de rubi, quem diria, brilha mais do que o arco-íris que queria alcançar.

 


Fonte: Leonardo Sanchez | FSP

 

(JA, Jun22)

 


 

Menina fugindo de bombardeio

 Símbolo da Guerra do Vietnã 

              Imagem icônica mostra menina vietnamita correndo nua após o bombardeio de sua vila. A fotografia foi feita em 8 de junho de 1972 (Foto: Nick Ut/AP)


Completaram-se 50 anos da manhã em que Nick Ut, fotógrafo sul-vietnamita, cobrindo a guerra em seu país, foi até Trang Bang, aldeia a 50 km de Saigon. Na véspera, soubera de combates acontecendo naqueles lados.

Nick, que era bem jovem e trabalhava na Associated Press, até hoje se lembra dos corpos à beira da estrada, e das centenas de pessoas tentando escapar. Finalmente, chegou a uma aldeia destruída por seguidos bombardeios. ‘Cansados daquilo, os moradores procuravam refúgio nas ruas, debaixo de pontes, ou em qualquer outro lugar onde conseguissem momentos de calma’.

Pelo meio-dia, tendo tirado várias fotos, ele saía da aldeia quando notou um soldado acionando uma granada de gás amarelo, das que serviam para indicar alvos. Pegou a câmera e imediatamente avistou um avião lançando quatro bombas de ‘napalm’.

Ainda sem saber se havia feridos, Nick foi voltando e logo encontrou pessoas fugindo do ‘napalm’.

Fiquei chocado quando vi uma mulher com uma perna terrivelmente queimada. Ainda guardo na retina uma idosa tendo ao colo um bebê que morreu na minha frente, e outra mulher carregando um menininho com descolamento da pele.

Então, ouviu gritos de criança: ‘Nong qua! Nong qua’ (‘Que quente! Que quente!’). Pelo ‘viewfinder’ da câmera, deparou-se com uma menina que havia tirado as roupas em chamas e, completamente nua, corria chorando na direção dele. Fotografou-a.

Ela gritava que estava morrendo, e pedia água. Baixei a câmera e dei-lhe meu cantil para beber. Querendo refrescá-la, joguei-lhe água no corpo, o que foi pior ̵ eu não sabia que não deve se derramar água em queimaduras. 

Nick enrolou-a num cobertor, e a levou na van, junto com o irmão, até o hospital mais próximo, na cidade de Cu Chi. Ela seria depois transferida para Saigon. Phan Thị Kim Phúc, que tinha nove anos, só voltaria para casa após 14 meses de internação, e 17 cirurgias, inclusive transplantes de pele. Quando saiu do hospital, ainda tinha limitações nos movimentos, e sentia dores ̵ algumas persistem até hoje.

A foto da menina correu o mundo nas primeiras páginas de jornais, e obteve o Prêmio Pullitzer. Por certo, você a conhece. Mais eloquente que qualquer palavra, ela se tornou um símbolo da Guerra do Vietnã, ajudando a mostrar sua barbaridade, e o papel moralmente indefensável dos Estados Unidos.

Durante anos, Kim detestou a foto, por aparecer nua. Sentia-se, porém, agradecida a Ult, que lhe salvara a vida. Ao mesmo tempo, convivia com sequelas das queimaduras ̵ além das dores, a consternação, até vergonha, de ver cicatrizes cobrindo-lhe um terço do corpo.

Foi só adulta, casada com um compatriota, e vivendo no Canadá, que por fim encontrou paz diante do sucedido. Mãe de dois filhos, criou em 1997 a Kim Phúc Foundation, para oferecer assistência física e psicológica a crianças vítimas de guerras, e a Unesco a nomeou Embaixadora da Boa Vontade. Nesse trabalho, viaja pelo mundo, visitando áreas conflagradas. Tendo ficado amiga do fotógrafo, a quem chama de ‘tio’, hoje entende que a foto lhe proporcionou uma singular chance de ajudar as pessoas.

Aposentado e morando em Los Angeles, Nick relembrou a história em artigo no Washington Post:

‘Odiarei para sempre’ ̵ escreveu ̵ ‘as circunstâncias em que Kim e eu nos conhecemos. (...). Mas tenho orgulho da foto, das emoções, e conversas que ela suscitou pelo mundo. A verdade continua sendo necessária. Se uma única foto pode fazer diferença, talvez ajudando a acabar com uma guerra, significa que nosso trabalho como fotógrafos é tão vital hoje, como sempre foi’. 



Kim Phuc Phan Thi

 

A ativista Kim Phuc Phan Thi fotografada em sua casa, em Ontário, no Canadá


Vive no Canadá e trabalha na Kim Foundation International, que presta ajuda a crianças vítimas de guerras em todo o mundo.

Cresci no vilarejo de Trang Bang, no Vietnã do Sul. Minha mãe disse que eu ria muito quando era menina. Tínhamos uma vida simples, com fartura de comida, pois minha família tinha uma fazenda, e minha mãe administrava o melhor restaurante do lugar. Lembro-me de que amava a escola e as brincadeiras com meus primos, pulando corda e correndo umas atrás das outras alegremente.

Tudo isso mudou em 8 de junho de 1972. Tenho apenas lampejos de memória daquele dia terrível. Eu estava brincando com meus primos no pátio do templo. No momento seguinte, passou um avião voando baixo com um barulho ensurdecedor. Então houve explosões, fumaça e uma dor horrível. Eu tinha 9 anos.

O napalm cola em você, não importa o quão rápido você corra, causando queimaduras e dores terríveis que duram a vida toda. Não me lembro de correr e gritar: ‘Nóng quá, nóng quá!’ (muito quente, muito quente!). Mas as imagens de filmes e as memórias de outras pessoas mostram que gritei.

Você provavelmente já viu minha foto tirada naquele dia, fugindo das explosões com os outros –uma menina nua com os braços estendidos, gritando de dor. Foi tirada pelo fotógrafo sul-vietnamita Nick Ut, que trabalhava para a agência Associated Press, e publicada nas primeiras páginas dos jornais do mundo todo. Ela ganhou o Prêmio Pulitzer. Com o tempo, tornou-se uma das mais famosas da Guerra do Vietnã.

Nick mudou minha vida para sempre com aquela foto notável. Mas ele também salvou minha vida. Depois que ele tirou a foto, largou a câmera, envolveu-me em um cobertor, e me carregou correndo em busca de atendimento médico. Sou eternamente grata.

No entanto, também me lembro de odiá-lo às vezes. Cresci detestando aquela foto. Pensava comigo mesma: ‘Sou uma garotinha. Estou nua. Por que ele tirou aquela foto? Por que meus pais não me protegeram? Por que ele imprimiu aquela foto? Por que eu era a única criança nua, enquanto meus irmãos e primos na foto estavam vestidos?’. Eu me sentia feia e envergonhada.


O fotógrafo Nick Ut com um cartaz exibindo sua foto premiada da Guerra do Vietnã, ao lado da retratada, Kim Phuc, em visita que os dois fizeram ao papa Francisco em 11-Mai22


Enquanto crescia, às vezes eu desejava desaparecer, não apenas devido aos meus ferimentos –as queimaduras marcavam um terço do meu corpo e causavam dor intensa e crônica–, mas também em razão da vergonha e do constrangimento de ser desfigurada.

Eu tentava esconder minhas cicatrizes sob as roupas. Sentia uma ansiedade e uma depressão horríveis. As crianças na escola fugiam de mim. Eu era uma figura de pena para os vizinhos e, até certo ponto, para os meus pais. À medida que envelhecia, temia que ninguém jamais me amasse.

Enquanto isso, a foto ficou ainda mais famosa, tornando mais difícil navegar por minha vida privada e emocional. A partir dos anos 1980, participei de entrevistas intermináveis e encontros com membros da realeza, premiês, e outros líderes, todos os que esperavam encontrar algum significado naquela imagem, e em minha experiência. A criança correndo pela rua tornou-se um símbolo dos horrores da guerra. A pessoa real olhava da sombra, com medo de que fosse exposta como uma pessoa danificada.

As fotografias, por definição, captam um momento no tempo. Mas os sobreviventes dessas fotos, em especial as crianças, devem de alguma forma seguir em frente. Não somos símbolos. Somos seres humanos. Precisamos encontrar trabalho, pessoas para amar, comunidades para abraçar, lugares para aprender e ser nutridos.

Foi somente na idade adulta, depois de desertar para o Canadá, que comecei a encontrar paz e a realizar minha missão na vida, com a ajuda de minha religião, meu marido e amigos. Ajudei a criar uma fundação, e comecei a viajar para países devastados pela guerra, para dar assistência médica e psicológica a crianças vítimas da guerra, oferecendo, espero, um sentido de possibilidades.

Sei como é ter sua aldeia bombardeada, sua casa destruída, ver membros da família morrerem, e corpos de civis inocentes caídos na rua. Esses são os horrores da Guerra do Vietnã, evocados em inúmeras fotografias e vídeos. Infelizmente, também são imagens das guerras em todos os lugares, das vidas humanas preciosas sendo danificadas e destruídas, hoje na Ucrânia.

São também, de forma diferente, as imagens horríveis dos tiroteios nas escolas. Podemos não ver os corpos, como fazemos com as guerras, mas esses ataques são o equivalente doméstico à guerra. A ideia de compartilhar as imagens da carnificina, especialmente de crianças, pode parecer insuportável –mas devemos enfrentá-las. É mais fácil se esconder da realidade da guerra se não virmos suas consequências.

Não posso falar pelas famílias em Uvalde, no Texas, mas acho que mostrar ao mundo as consequências reais de um tiroteio pode tornar concreta a terrível realidade. Devemos enfrentar essa violência de frente, e o primeiro passo é olhar para ela.

Carreguei os resultados da guerra em meu corpo. Você não se livra das cicatrizes, física ou mentalmente.

Sou grata hoje pela potência dessa minha fotografia aos nove anos de idade, assim como pela jornada que fiz como pessoa. Meu horror –do qual pouco me lembro– tornou-se universal. Estou orgulhosa porque me tornei um símbolo da paz. Levei muito tempo para abraçar isso como pessoa.

Posso dizer, 50 anos depois, que estou feliz por Nick ter captado aquele momento, mesmo com todas as dificuldades que aquela imagem criou para mim.

Essa imagem sempre servirá como um lembrete do mal indescritível de que a humanidade é capaz. Ainda assim, acredito que a paz, o amor e o perdão, sempre serão mais poderosos do que qualquer tipo de arma.

 


Fonte: A.C. Boa Nova | The New York Times



(JA, Jun22)

 


 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Volpi no Masp - o pintor foi de operário a astro modernista


O artista proletário se tornou um mestre do movimento artístico, sem querer ser de vanguarda — e deixou um legado que vai muito além das bandeirinhas

 

Mistério no Mar - A cativante cena litorânea: figura enigmática que é meio sereia, meio Iemanjá 


Um século atrás, a elite paulistana assistia aturdida às ousadias da Semana de 22 — mas o jovem Alfredo Volpi (1896-1988) não estava nem aí para esse trem que seria conhecido como modernismo. Ele tinha, de fato, mais que fazer: italiano pobre, que viera ainda criança de Lucca, na Toscana, trabalhava na construção civil para garantir o sustento.

Àquela altura, Tarsila do Amaral estudava na Europa com luminares como Fernand Léger; Oswald e Mário de Andrade, bem como Cândido Portinari, frequentavam os salões endinheirados da Pauliceia.

Volpi, em contraste, estudara só até o ginásio. Mais um rosto em meio à massa de imigrantes da metrópole, foi encanador, marceneiro e, finalmente, pintor de paredes. É uma ironia pensar que um dos artistas plásticos mais reconhecíveis e valorizados hoje no país, com suas incontornáveis bandeirinhas, atuasse então como mero preparador das superfícies, nas quais outros pintores decorativos fariam seus trabalhos. Como ele foi de operário dos pincéis, a nome central da arte moderna brasileira, é uma pergunta respondida com louvor pela mostra Volpi Popular — que acaba de estrear no Masp, em São Paulo.


Marca Registrada - As inconfundíveis fachadas e adereços juninos: simplicidade

Volpi nunca se identificou com as vanguardas modernistas, e era avesso a divagações teóricas: homem prático, burilou sua pintura a partir da labuta diária como artesão. ‘Ele era um mestre autodidata e intuitivo. Em vez de se associar a movimentos, preferia trabalhar tranquilo em seu ateliê no bairro do Cambuci, fumando um cigarrinho de palha’, diz o curador-­chefe do Masp, Tomás Toledo.

Por trás da humildade inquebrantável, porém, havia um artista bem-informado sobre as questões da arte de seu tempo. Ainda que seu reconhecimento tenha sido tardio: até os anos 1950, alguns estudiosos esnobavam o caráter supostamente naïf (ou ingênuo) de sua obra. Um dos responsáveis por quebrar esse preconceito, o crítico Mário Pedrosa, notou que Volpi ‘passou, naturalmente, por todas as fases da pintura moderna, do impressionismo ao expressionismo, do fauvismo ao cubismo, até o abstracionismo’. 


Volpi: poucas palavras e muitos cigarrinhos de palha no ateliê


Absorção E Intimismo Em Volpi

A verdade é que Volpi foi muito além da soma desses ‘ismos’: assim como Tarsila e Portinari, ele alcançou a condição rara de artista não apenas inovador, mas popular.

A mostra do Masp, com cerca de 100 itens, investiga a ligação entre a vida do pintor, e um universo temático, que vai da arquitetura do casario simples, às festas e costumes sociais. Inspirações que não extraía das ruas agitadas de São Paulo, mas da mansidão do interior — são constantes em seus quadros cenas de Mogi das Cruzes, cidade paulista onde tinha uma chácara, e Itanhaém, no Litoral Sul do estado.

Volpi viveu alguns anos à beira-mar por recomendação médica: sua esposa, Judite, padecia de uma doença sobre a qual não se sabem detalhes.


Os anjos pintores

Sua união com Judite, aliás, aprofundou a conexão de Volpi com as raízes brasileiras. Entre filhos de sangue, e adotivos, o italiano criou dezenove crianças junto com a esposa negra.

Ele imortalizou Judite em uma tela na qual ela surge nua, de braços abertos. A admiração pelos afrodescendentes o levou a povoar muitas de suas obras com personagens de pele escura — o que configurava uma avançada piscadela para a diversidade no Brasil da primeira metade do século 20. Às vezes, Volpi não tinha pudor em afrontar o tradicionalismo católico: pintou um lindo anjinho, e até uma Madona com Menino Jesus, negros. 


Cores e Formas - Mais uma entre as muitas obras sem título do pintor: a beleza na diluição radical dos objetos


Volpi – Coleção Espaços da Arte Brasileira

Uma das virtudes da retrospectiva do Masp é expor esse Volpi, que vai além das bandeirinhas. Logo na entrada, o espectador é apresentado à sua vasta produção de imagens religiosas. Durante um período da vida, ele produziu gravuras de santos para sobreviver. Não considerava a atividade parte de sua obra.

Mas a linha que dividia o Volpi artesão, do Volpi artista, era tênue: ao mesmo tempo, fez estupendas pinturas do gênero. Ele se devotou também a outras formas de misticismo pop: uma tela em tons de verde e azul exibe uma graciosa figura feminina que é meio sereia, meio — possivelmente — Iemanjá. 


Ousadia - O quadro que mostra a Madona e o Menino Jesus negros: uma avançada piscadela para a diversidade


A dúvida sobre os tipos que povoam sua obra decorre de um dado peculiar: Volpi era um homem de poucas palavras, e não deu nome à muitos quadros, alimentando o mistério sobre seu universo.

Não se sabe ao certo, inclusive, como ele descobriu sua marca maior, as bandeirinhas. Reza uma teoria que, certo dia, teria se encantado ao ver Mogi das Cruzes toda decorada para as festas juninas. Outra vertente sustenta que elas teriam surgido de sua diluição obsessiva das formas arquitetônicas. Impossível elucidar se uma das versões procede — mas é fato que Volpi foi radicalizando o expediente com o tempo. ‘Mais que as paisagens, pessoas e objetos, ele se interessava pela simplificação das formas, e pela exploração das cores e texturas’, diz o curador Toledo.

Eis o feito de Volpi: em uma única e singela bandeirinha, ele sintetiza um imenso legado modernista.




Fonte: Marcelo Marthe | Veja Ed. 2778

 

(JA, Fev22)

 


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

John Graz

Artista e designer suíço, introdutor da art déco no Brasil, ganha exposições na onda de revisão de personagens da Semana de 1922 



John Gras em seu Atelier, Genebra, Suíça, 1918


Ele pintou a fauna e a flora brasileiras, fez telas sobre comunidades indígenas, viajou até o Rio Grande do Sul para retratar os gaúchos, e a estados do Nordeste para representar a tradição do Bumba meu boi. Também se dedicou a desenhar móveis para as casas da elite paulistana, incluindo pormenores como fechaduras de portas e a disposição das plantas no ambiente.

Transitando entre as artes visuais e a arquitetura de interiores, o suíço John Graz —considerado um dos introdutores do estilo art déco no país— foi importante figura do meio intelectual paulistano no século 20, tendo publicado na revista Klaxon, e participado da Semana de Arte Moderna de 1922, com sete telas que pintou em Genebra, antes de se mudar para o Brasil.

Mesmo assim, seu nome é menos lembrado em comparação a outros artistas daquele período. Isto agora está mudando, graças à uma revisão dos participantes da Semana de 1922 -por conta do centenário do evento, em fevereiro do ano que vem-, atrelada à uma série de exposições.


Fogueira, década de 1930

Uma grande mostra aberta há pouco na Pina Estação, em São Paulo, e outras exposições na cidade, neste e no próximo ano, procuram dar conta da totalidade do trabalho de Graz, trazendo a público uma grande investigação de sua obra e diversas peças nunca vistas em público.

Graz ‘vem de uma formação nas artes decorativas, não existe separação entre artes visuais e arquitetura, mobiliário, mas uma tentativa de integração dessas várias manifestações artísticas’, diz Fernanda Pitta, curadora de ‘John Graz: Idílio Tropical e Moderno’, na Pina Estação, ao lado de Thierry Freitas.

Em 155 obras, sendo 42 recebidas de uma doação do Instituto John Graz, a mostra cobre cinco décadas da produção do artista, evidenciando seu fascínio com os tipos humanos, e as tradições do Brasil. Há um conjunto expressivo de guaches e aquarelas sobre índios, por exemplo, tema que perpassou a maior parte da vida produtiva do artista. 


Índios, Regina Gomide Graz, década de 30


As representações de pessoas com arco e flecha em meio à natureza ou descansando em redes sob a sombra de palmeiras apontam para uma aproximação idílica e um tanto genérica dos povos originários, afirma a curadora, no que ela considera um limite do trabalho de Graz.

Ao que se sabe, ele nunca estudou a fundo as tribos pelas quais tanto se interessava, diz Pitta, diferentemente de sua mulher, Regina Graz, que pesquisou as tecelagens de comunidades do alto Amazonas em busca de padrões para reproduzir em suas tapeçarias —alguns destes tapetes podem ser vistos no site do Museu de Arte Moderna, o MAM, na versão virtual da exposição ‘Desafios da Modernidade – Família Gomide-Graz nas Décadas de 1920 e 1930’. 


Gesso sem título, década de 1920


Embora o forte da mostra na Pina Estação sejam as pinturas, há também gessos, estudos de murais desenhados para interiores de residências e fotografias de ambientes projetados pelo artista, a exemplo do quarto do casal Antonieta e Caio Prado, uma família da elite cafeicultora paulista.

Pitta lembra que Graz trabalhava sob encomenda, transitando entre estilos distintos. Atuando como designer, realizou mobiliário de inspiração art nouveau, com formas arredondadas, os preferidos das elites antes de o modernismo e suas linhas geométricas entrarem em voga, e serem igualmente abraçados por ele, que então passou a decorar casas do arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik, nome central do movimento moderno brasileiro.


Cadeira projetada pelo artista década de 1960 reeditada 2010


Na Pina Estação, há uma série de fotos em preto e branco de ambientes desenhados por Graz, além de uma cadeira de três pés em madeira nobre e uma poltrona. O forte do seu mobiliário, contudo, está na mostra do MAM, que reuniu seus famosos sofás e poltronas tubulares e algumas luminárias.

Uma das instituições por trás desta grande revisão é o Instituto John Graz, criado em 2005, em São Paulo, pela última mulher do artista, Annie. Ela preservou e catalogou o acervo e os documentos de Graz depois de sua morte, em 1980, até que, mais tarde, a neta, Claudia Taddei, assumiu a frente do instituto e iniciou o contato com instituições e colecionadores.

‘Nosso desejo é que as pessoas possam voltar a ter uma compreensão da obra do John como um todo’, afirma Taddei. Seu avô desenhava ambientes completos, amarrados num conceito único que incluía as pinturas ou murais e o mobiliário.


Despedida, 1930, de Antônio Gomide


O panorama do artista se completa com mais duas mostras. A primeira, no Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC, vai exibir dois estudos de murais que misturam paisagem tropical e elementos urbanos. As peças são parte de uma mostra que celebra a doação, para o museu, da coleção de mobiliário art déco dos colecionadores Fulvia e Adolpho Leirner, que reúne um conjunto de peças da época modernista tão caras à elite paulistana, como cadeiras de Flávio de Carvalho e o mobiliário da Casa Modernista de Warchawchik.

Ana Magalhães, diretora e curadora do MAC, afirma que as artes aplicadas —design, mobiliário e objetos pensados para a vida cotidiana— ‘nunca foram consideradas como uma produção da mesma relevância que as artes com A maiúsculo’.

Mas acrescenta que, nas últimas duas décadas, este movimento vem passando por uma revisão, sobretudo das peças produzidas na primeira metade do século 20, na qual John Graz e sua mulher, Regina, se incluem. Magalhães dá como exemplos a mostra dos 100 anos da Bauhaus, no Sesc Pompeia, em 2018, e o livro ‘Coleção Fulvia e Adolpho Leirner’, dos pesquisadores Ana Paula Cavalcanti Simioni e Luciano Migliaccio.

Por fim, está programada para o ano que vem uma exposição no Museu da Casa Brasileira focada no trabalho de Graz como designer e arquiteto de interiores, com peças nunca mostradas em público. Para Taddei, do instituto, ‘mais do que conhecido, Graz era respeitado pela sua inovação e pelo vanguardismo’.

 

JOHN GRAZ: IDÍLIO TROPICAL E MODERNO

PROJETOS PARA UM COTIDIANO MODERNO NO BRASIL

  • Quando - De 21 de agosto a agosto de 2022
  • Onde - MAC-USP - Av. Pedro Álvares Cabral, 1301, Vila Mariana, São Paulo; ter. a qui, das 11h às 19h; sex. a dom., das 11h às 21h
  • Preço - Grátis

 

 

 

Fonte: João Perassolo | FSP

 

(JA, Ago21)

 


quinta-feira, 29 de julho de 2021

Relíquias no armário - a redescoberta de obras de mestres da pintura

Esquecidas em closets, sótãos ou depósitos, peças são resgatadas por pesquisadores e agora voltam a ser exibidas ao público 


VAN GOGH - Aquarela que não era exposta desde 1903: deixada em um sótão e vendida como quinquilharia


Mantida por mais de cinquenta anos dentro de um armário, uma tela quadrada com 40 centímetros de lado chamou a atenção do herdeiro que acabara de receber do espólio do pai uma casa no Maine, nos Estados Unidos. A obra em papel trazia no canto inferior direito a assinatura de Pablo Picasso e a data de 1919.

Acredita-se ser um estudo do pintor espanhol para a cortina de palco do espetáculo de balé O Chapéu de Três Pontas, produzido pela companhia francesa Ballets Russes, que estreou naquele mesmo ano em Londres, na Inglaterra. No início de julho, a relíquia esquecida foi a leilão pela LiveAuctioneers, que a vendeu por 150 000 dólares.

Nem o vendedor nem o comprador quiseram se identificar. Segundo o herdeiro, a avó e uma irmã dela estudaram na Europa nos anos 1920. A tia-avó acabou se tornando professora de história inglesa na Universidade Rutgers, em Nova York, e gostava de colecionar livros raros e de arte. ‘A pintura foi descoberta em uma casa de propriedade de minha tia-avó, que foi passada a ela por um parente no fim dos anos 1930’, disse o vendedor em uma declaração. ‘Havia várias pinturas guardadas em um armário durante cinquenta anos (incluindo essa) que foram deixadas por ela’. 


O valor baixo se explica porque a tela ainda não foi autenticada por Claude Ruiz-Picasso, herdeiro do pintor e principal responsável pelo espólio. O comprador tem 120 dias para submeter a obra à avaliação.

A semelhança entre o estudo e a cortina, porém, é impressionante. Com 6 metros de comprimento por 5,8 metros de altura, a peça foi comprada em 1959 por Phyllis Lambert, filha de Samuel Bronfman, fundador do império Seagram, por 50 000 dólares. Durante décadas, ornamentou o restaurante Four Seasons, em Nova York. Em 2015, passou a integrar o acervo da Sociedade Histórica de Nova York, onde está em exposição até hoje.

Histórias como a do Picasso perdido não são raras no mundo da arte.

No ano passado, um colecionador comprou por valores não revelados a aquarela O Prado de Van Gogh com Igreja Nova ao Fundo, e a cedeu em comodato ao Museu de Arte Moderna de Saitama, em Tóquio.

Datada de 1882, a obra ficou esquecida em um sótão durante anos e, mais tarde, chegou a ser vendida como quinquilharia por um carpinteiro.

De volta aos Estados Unidos, a Apolo e Vênus, do mestre holandês Otto van Veen, 1556-1629), foi encontrada no depósito do Hoyt Sherman Place, mansão histórica em Des Moines, em Iowa. A tela, que retrata Vênus como uma pintora em ação, passou por restauração para recuperar suas cores vivas. Avaliada entre 4 milhões e 11 milhões de dólares, ela está em exibição permanente no próprio teatro Hoyt Sherman.

O maior desafio dos pesquisadores é comprovar a autenticidade dos achados artísticos, e evitar a ação de falsificadores.

Na era moderna, análises laboratoriais detectam se o estilo, a técnica e o material utilizado são compatíveis com um determinado pintor, o que aumenta a probabilidade de identificação. Em alguns casos, nem isso é preciso.

No século passado, uma equipe do museu das Capelas dos Medici, em Florença, na Itália, encontrou a entrada da sala secreta de Michelangelo, debaixo de um armário na Basílica de São Lourenço. O lugar dava acesso a um alçapão que conduzia ao aposento, cujas paredes estavam repletas de desenhos do mestre italiano. Não houve dúvidas a respeito da autoria: Michelangelo provavelmente passou dois meses escondido lá, em 1530.

Tirar Picassos, Van Goghs e Michelangelos do armário não é ótimo apenas para os colecionadores e herdeiros que os encontraram, mas também uma dádiva para a humanidade. 





Fonte: Alessandro Giannini | Revista Veja

 

(JA, Jul21)

 


domingo, 25 de julho de 2021

Tereza de Benguela, homenageada no Dia da Mulher Negra

 

Chamada de rainha, ela comandou quilombo em Mato Grosso no século 18 

 

Óleo sobre tela do pintor e gravurista suíço Félix Edouard Vallotton, 1865 -1925; imagem é comumente associada a Tereza de Benguela, líder quilombola brasileira no século 18

 

‘No seio de Mato Grosso, a festança começava / Com o parlamento, a rainha negra governava / Índios, caboclos e mestiços, numa civilização / O sangue latino vem na miscigenação’, cantava a Unidos de Viradouro no Carnaval de 1994.

Com o samba enredo ‘Tereza de Benguela: uma Rainha Negra no Pantanal’, a escola alcançou o terceiro lugar na competição, sua melhor posição em muito tempo. Mais do que isso, antecipou em 20 anos a homenagem a essa líder quilombola, que viveu em meados do século 18.

Pois foi só a partir do dia 25 de julho de 2014 que a ‘Rainha Negra’ passou a ser celebrada anualmente no Brasil. A lei 12.987, sancionada por Dilma Rousseff - PT, instituiu o ‘Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra’, com o propósito de resgatar a memória de uma heroína negligenciada pela história.

Há poucos registros sobre seus feitos, mas o que se sabe é que a Rainha Tereza, como era chamada, esteve à frente do Quilombo do Quariterê depois que seu companheiro, José Piolho, foi morto pelas forças coloniais.

Naquele momento, ela assumiu a organização política e militar da comunidade. ‘Foi uma liderança muito especial, porque ela não só pensava em toda a estratégia de guerra e de resistência, como também era uma guerreira combatente’, diz Jaqueline Fernandes, 41, idealizadora e fundadora do maior festival de mulheres negras da América Latina, o Latinidades.

Localizado no Vale do Guaporé, em Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso (perto da fronteira com a Bolívia), o quilombo era controlado com mão de ferro por Tereza, que castigava quem a desobedecia.

De acordo com Aline Nascimento, 34, historiadora, mestre em relações étnico-raciais e que integra a equipe do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), havia um motivo por trás desse comportamento: ‘Essa liderança mais rígida era não só por ser uma mulher, mas por dar conta de toda uma estrutura de defesa e articulação’.

Registros históricos apontam que Tereza constituiu no quilombo um sistema parlamentar, e comandou uma comunidade composta de negros e indígenas, que viviam do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana e a comercialização dos excedentes.

‘Os quilombos não eram lugares de negros fugidos, e de economia de subsistência, como afirmam os registros coloniais. Eles nunca foram isolados dos mercados regionais. Pelo contrário, se mantinham por meio de atividades agrícolas e da comercialização’, afirma Emmanuel de Almeida Farias Júnior, 41, professor da Universidade Estadual do Maranhão, e pesquisador das comunidades quilombolas na Amazônia.

Mas eram locais de resistência, e Rainha Tereza transformou-se numa ameaça ao poder central. Em fins do século 18, ela terminou capturada e presa.

De acordo com uma versão da história, uma vez no cárcere, ela parou de comer, e morreu em decorrência dos maus-tratos, e da falta de alimentação. Sua cabeça foi cortada e exposta na praça do quilombo. Segundo outra versão, ela se matou.

Para a historiadora Aline Nascimento, celebrar a líder quilombola no dia 25 de julho é uma escolha simbólica, porque chama a atenção para o poder de uma mulher negra. Na sua opinião, é importante conhecer trajetórias como a de Tereza, para que a população negra não seja vista apenas em uma relação de subserviência da escravidão, em detrimento de histórias que também são de luta.

‘Por isso, é urgente retomar essas narrativas para entendermos que não tem [só] uma Marielle, ou uma Tereza de Benguela, existem muitas, que são silenciadas todos os dias, em todos os lugares, mas que mesmo assim não abaixam a cabeça, e seguem em frente’, afirma Nascimento.

A escolha de 25 de julho, por sua vez, se deu porque, no mesmo dia, comemora-se o ‘Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha’. A data virou um marco de luta e resistência após o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, realizado na República Dominicana, em 1992.

Para Jaqueline Fernandes, do festival Latinidades, a data não só traz o protagonismo dessas mulheres, como também vem lembrar que, na América Latina e no Caribe, houve um processo brutal de escravidão. ‘A abolição inacabada deixou como mal legado os piores índices de acesso às políticas públicas, e violência aplicada às mulheres negras’, diz.

Marcar no tempo a data, é trazer a necessidade de repensar como as mulheres negras avançam, e continuam sofrendo todas as combinações de violência, segundo a historiadora Aline Nascimento.

Para ela, as mulheres negras recebem o ônus de toda a estrutura, principalmente a econômica. Por isso, ‘olhar para as mulheres negras que estão na base, é pensar e construir soluções para toda a sociedade, e não só para um grupo’, afirma. 


 

Fonte: Priscila Camazano | FSP

 

(JA, Jul21)